Woodstock dia-a-dia: Parte 1; sexta, 15 de agosto de 1969

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Woodstock dia-a-dia: Parte 1; sexta, 15 de agosto de 1969

Por Vitor Bemvindo | Fonte: Mofodeu

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É consensual a idéia de que o auge do movimento hippie se deu no Festival de Woodstock, realizado durante três dias em uma fazenda no estado americano de Nova Iorque. Apesar de já ter se passado dois anos do "Summer Love" (como ficou conhecido o verão de 1967, quando milhares de jovens organizaram diversas manifestações contra a guerra de Vietnã nas principais cidades dos EUA), os ideais de paz e amor continuavam vivos e o festival seria uma espécie de exposição daqueles princípios.

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(O logotipo do festival)

Tanto é que os organizadores de Woodstock divulgaram o festival como uma exposição Aquariana. O espírito da contracultura e dos hippies estava mais forte do que nunca e aquela reunião serviria como prova da força desses princípios. A música era importante, mas o objetivo central do evento era a congregação entre as pessoas.

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(O pôster de divulgação da "Feira de Arte e Música de Woodstock")

40 anos depois, muito se tem dito sobre aqueles três dias de paz e música, mas poucos sabem como foram as apresentações e o espírito do público durante o festival. Por isso, o Whiplash e o Mofodeu estréiam uma série que contará o que aconteceu em Woodstock dia-a-dia. Aqui no Whiplash você poderá ler três artigos contando o que aconteceu naquele final de semana, em agosto de 1969. Acessando Mofodeu, você poderá ouvir três programas especiais sobre o festival, com direito a gravações inéditas de canções executadas em Woodstock.

Em 15 de agosto de 1969, o sonho de quatro jovens se tornava realidade: organizar um festival de música, no qual as idéias hippies de confraternização, paz e amor prevalecessem. Apesar de toda a organização, foi impossível conter o enorme contingente de pessoas – 10 vezes maior que o previsto – que se deslocaram para Bethel. Por maior que fosse a fazenda – propriedade de Max Yasgur – alugada pelos jovens, não havia estrutura para receber mais de 400 mil pessoas.

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(Tomada aérea: cerca de 400 mil pessoas por dia passaram pela fazenda de Max Yasgur)

O problema imediato foi o engarrafamento gerado pelo deslocamento de tanta gente. Isso teve um impacto direto sobre os espetáculos que atrasaram muito. Previsto para começar às 14 horas, o festival parecia correr perigo quando, três horas mais tarde, os organizadores não tinham noção de quem poderia ser a primeira atração musical. A programação previa que o SWEETWATER fossem os primeiros a entrar no palco, mas a banda estava presa no tráfego e os organizadores foram obrigados a improvisar.

Com isso foi chamado o cantor de folk-rock TIM HARDIM, pois como ele tinha uma pequena estrutura, somente com voz e violão, seria fácil adaptar o palco para a apresentação. O problema era de Hardin estava em uma fase de muito abuso de drogas, e se recusou a entrar no palco. A alternativa foi convocar RICHIE HAVENS, também um expoente do folk. Ele era um dos únicos artistas presente nos bastidores de Woodstock por volta das 16 horas e, mesmo sem sua banda completa, aceitou o desafio de abrir o festival.

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(Jogado aos leões: Richie Havens abre o festival)

Havens subiu ao palco por volta de cinco da tarde, com um percussionista e um violonista que também fazia backing vocais. Abriu o show com "Handsome Johnny", canção do seu primeiro álbum, "Mixed Bag", de 1967. Após alguns números, que incluíram alguns sucessos e versões dos BEATLES, Havens deu seu show por encerrado e deixou o palco, sendo logo empurrado de volta. Os organizadores ainda não tinham um outro artista para sucedê-lo e, por isso, pediram algumas vezes para que o cantor voltasse ao palco.

Com isso, Havens teve que improvisar alguns números, demonstrando grande versatilidade. Sua maneira peculiar e incisiva de tocar o violão agradou em cheio ao público. Porém, em determinado momento, ele não sabia mais o que tocar e os produtores imploravam para que ele permanecesse no palco. Foi aí que veio uma inspiração para que Havens começasse a improvisar algumas notas no violão e cantar, meio sem objetivo: "Freedom, Freedom, ...". Nascia ali uma nova canção, que continha alguns pedaços de uma música tradicional, chamada "Motherless Child". Ali se estabelecia o primeiro momento mágico de Woodstock.

A transcendental apresentação de Richie Havens foi seguida de um discurso de um líder religioso indiano, Swami Satchidananda. O movimento hippie tinha uma especial admiração pela espiritualidade hindu, o que atraiu diversos artistas a líderes religiosos da Índia, como, por exemplo, George Harrison, dos Beatles, que tinha forte ligação com o guru e professor de cítara Ravi Shankar. Essa proximidade fez com que Shankar também fosse convidado para tocar no festival, se apresentando nessa mesma sexta-feira, por volta das 22 horas.

Mas bem antes disso, por volta das 18 horas, continuava o martírio dos produtores de Woodstock para tentar organizar o festival. Logo após o discurso do Swami, o festival foi declarado gratuito, já que não havia mais a possibilidade de controlar o acesso das pessoas. As grades já haviam sido derrubadas e não havia nenhum controle no recolhimento dos ingressos. A questão dos atrasos preocupava, já que havia poucos artistas para se apresentar.

A solução foi mais uma improvisação: o líder do THE FISH, Country Joe McDonald, acompanhava o festival como admirador dos artistas que iriam se apresentar, quando foi surpreendido pela súplica de um dos organizadores para que ele entrasse no palco. O grupo só estava programado para tocar dois dias depois e McDonald só estava acompanhado de um de seus companheiros de banda, o baterista Duke Dewey, e, portanto, teria que se apresentar sozinho. Empunhando apenas um violão, ele cantou alguns sucessos do COUNTRY JOE & THE FISH, sem conseguir chamar muito a atenção do público. Foi então que, incentivado por Dewey, McDonald resolveu puxar o grito de guerra de sua banda, soletrando com o público a palavra "FUCK". Aquela seria a senha para que todos se ligassem na apresentação e cantassem juntos a canção "I-Feel-Like-I'm-Fixin'-to-Die-Rag", uma irônica música de protesto contra a guerra do Vietnã.

Após a apresentação de Country Joe McDonald, ainda havia um vácuo a se preencher. O Sweetwater ainda não estava completo e mais uma vez um artista que não estava escalado para tocar foi convidado: JOHN SEBASTIAN. Ele era conhecido por ter feito um relativo sucesso com sua banda LOVIN' SPOONFUL. Algumas de suas músicas eram muito apreciadas nas rodinhas de violão em volta da fogueira, tão tradicionais entre os hippies. O nome de Sebastian não estava nem no pôster do evento e sua apresentação foi quase acidental. Com o início da chuva, eles precisavam de um artista acústico e ele era o cara certo no lugar certo.

Quando John Sebastian deixou o palco, finalmente o Sweetwater estava preparado para tocar. Eles subiram ao palco do Woodstock com uma formação pouco peculiar para uma banda de rock. Eles usavam violoncelos, flautas e tamborins para fazer uma mistura de folk-rock e rock progressivo. O destaque era a doce voz de Nanci Nevins que, infelizmente, teria sua carreira prejudicada por um acidente automobilístico que afetou uma de suas cordas vocais. Apesar do evidente talento, o Sweetwater não conseguiu se efetivar como uma grande banda também por conta dos problemas ocorridos com as filmagens de sua apresentação no festival. Pouco conseguiu se registrar e a banda acabou ficando de fora do documentário lançado um ano depois, perdendo, assim, a oportunidade de ter seu trabalho divulgado.

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(Quase cinco horas depois do programa, Sweetwater sobe ao palco)

Os problemas de escassez de artistas pareciam se atenuar conforme o tempo passava. Por sorte, o primeiro dia do festival previa a forte presença de artista de folk-rock, gênero que dispensava grandes quantidades de instrumentos e equipamentos, focando-se mais nas performances vocais e nos violões. Com isso, a chuva não atrapalhou muito a apresentação dos artistas que vieram na seqüência como BERT SOMMER e TIM HARDIN.

Sommer, apesar de não ser um artista muito conhecido, cativou o público com seu carisma. A figura de um branco com uma grande penteado black power cantando belas baladas ao violão chamava a atenção. Todos ficaram vidrados na versão que ele fez de "America" da dupla SIMON & GARFUNKEL. Anos mais tarde, o próprio Paul Simon elogiaria aquela interpretação como a melhor já feita para a canção.

Hardin, por sua vez, era uma dos artistas mais esperados da noite. Ele tinha conquistado o status de um dos grandes nome da folk music americana, principalmente por conta do sucesso de "If I Were a Carpenter". No entanto, o seu envolvimento com as drogas colocou todo o seu prestígio em dúvida, devido a apresentações ruins, no qual ele se mostrava totalmente alcoolizado ou sob efeito de entorpecentes. Em Woodstock, não foi diferente! Seu show foi taxado com um dos piores do festival, gerando uma grande decepção entre os presentes.

Em seguida, subiu ao palco o mentor oriental de George Harrison, RAVI SHANKAR. Apesar de alguns elementos da música indiana já estarem presentes no rock, o público não parecia estar preparado para aquela apresentação. A diferença cultural, apesar de ser reprovada pelos hippies, ficou evidente naquele momento, quando o público parecia não entender o que vinha do palco. A chuva foi mais um fator complicador. Durante a apresentação de Shankar, foi o momento do festival em que mais choveu, obrigando parte da platéia a procurar abrigo.

Quando a cantora MELAINE subiu ao palco, a chuva já deu uma trégua. Foi o suficiente para criar um clima de harmonia para a jovem de voz delicada e os milhares de expectadores. O repertório repleto de canções que exaltavam o "flower power" agradou em cheio a platéia. A experiência marcou a carreira da cantora, que, mais tarde, comporia uma canção para expressar o espírito daquele momento. "Lay Down (Candles in the Rain)" tornaria-se um dos hinos de Woodstock.

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(A doce Melaine cativou o público com seu estilo "flower child")

O espírito do movimento hippie não estaria por inteiro no Woodstock se não estivesse presente no festival a figura de ARLO GUTHRIE. O cantor/compositor/poeta era a personificação do movimento, sendo um dos responsáveis pela disseminação das gírias daquela geração. Guthrie utilizava um linguajar simples, típico do operariado americano, em suas canções. Assim ele alcançara uma popularidade que o credenciou a ser uma das estrelas de Woodstock. Apesar de muito jovem ele era tido com um intérprete de uma geração.

O show de Guthrie teve alguns problemas técnicos e o som ficou prejudicado em algumas canções. Quando ele cantou "Coming Into Los Angeles" – que viria a ser um de seus maiores sucessos –, durante mais de um minuto sua voz permaneceu quase inaudível. Isso fez com que sua performance não fosse incluída no filme sobre o festival. A aparição de Guthrie é rápida e mostra a sua chegada na fazenda de Yasgur ao som da canção supracitada, mas em uma versão de outra apresentação posterior.

A noite foi fechada por JOAN BAEZ, o grande ícone feminino da folk music. O talento de Baez era acompanhado por fortes posições políticas, que muitas vezes se refletiram em suas canções. No momento do Woodstock, ela estava engajada no movimento contra o alistamento militar obrigatório. Seu marido, David Harris, acabara de ser preso por se recusar a ir ao Vietnã, e Baez prestou uma homenagem ao companheiro, cantando "Joe Hill". A força de Baez ficava ainda mais evidente por ela estar grávida de seis meses. Ela era um exemplo do poder da mulher dos anos 60.

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(Mesmo grávida e com seu marido preso, Joan Baez se apresentou em Woodstock)

O repertório foi recheado de canções de cunho político, mas ao contrário do normal, Joan Baez evitou fazer declarações mais fortes. Ela interpretou uma canção do seu ex-namorado BOB DYLAN, "I Shall Be Released", e ainda fez um dueto com Jeffrey Shurtleff em "Drug Store Truck Driving Man". Quando Baez terminou de entoar sua última nota, uma chuva torrencial desabou sobre Bethel, já durante a madrugada de sábado, dando o sinal de que o primeiro dia de Woodstock se encerrava.

Aquele dia ficaria marcado como o primeiro de uma das congregações humanas mais importantes da história. Ao som do folk-rock, Woodstock mostrava ao mundo que era possível se viver em paz, com amor e sem guerra.

Para saber mais sobre o primeiro dia de Woodstock, ouça o especial do Mofodeu, acessando www.mofodeu.com.

Durante o mês de agosto, traremos um especial para cada dia do festival, confira a agenda:

Dia 17 de agosto: Mofodeu #062: Woodstock, o 1º Dia (já está no ar!).
Dia 24 de agosto: Mofodeu #063: Woodstock, o 2º Dia.
Dia 31 de agosto: Mofodeu #063: Woodstock, o 3º Dia.

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Sobre Vitor Bemvindo

Historiador de formação, tem verdadeira adoração pelo Rock and Roll desde sua infância. Seu instinto de pesquisador fez com que "se especializasse" em bandas velhas, especificamente as das décadas de 1960 e 1970. Produz e apresenta o MOFODEU (www.mofodeu.com), o Programa que tira o MOFO do ROCK, juntamente com seu parceiro Luiz Felipe Freitas (a Enciclopédia do Rock). O Programa está no ar desde 2007, tocando só bandas sessentista e setentistas sempre com muita informação e bom humor.

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