O rock está ficando órfão
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collectors Room
Postado em 13 de fevereiro de 2016
Está ocorrendo uma mudança no mundo do rock. A geração que construiu e levou o gênero a patamares de popularidade sem precedentes durante as décadas de 1960 e 1970 está partindo. Nossos ídolos estão morrendo, e deixando o bastão na mão de uma (nem tão) nova geração de ícones.
Neste final de 2015 e início de 2016, fomos sacudidos pelas mortes de Lemmy Kilmister e David Bowie. Apenas nesta década de 2010, faleceram nomes como B.B. King, Joe Cocker, Ian McLagan, Jack Bruce, Lou Reed, J.J. Cale, Ray Manzarek, Jeff Hanneman, Alvin Lee, Jon Lord, Levon Helm, Ronnie Montrose, Davy Jones, Etta James, Amy Winehouse, Scott Weiland, Gary Moore, Ronnie James Dio, Alex Chilton, entre muitos outros. E esse processo se intensificará nos próximos anos, com mais e mais ídolos partindo.
É claro que, quando ocorre a morte de um músico respeitado, conhecido e que é idolatrada por uma multidão de fãs, a comoção é enorme, o choque é repentino, e o sentimento de perda, em alguns casos, chega a ser até mesmo semelhante à partida de um parente ou amigo próximo. Assim como também é claro que, ao deixarem este mundo, artistas como Bowie, Lemmy, Dio e Lord saem de cena com legados gigantescos e sólidos o bastante para manter seus nomes não apenas na memória dos fãs, mas também com força suficiente para conquistar novos admiradores. Suas obras não deixam de existir, eles apenas param de produzir.
Nos próximos cinco, dez anos, mais e mais nomes passarão pela mesma situação. Todo o povo que fez história nos anos 1960 e 1970 está hoje na casa dos 70 e poucos anos. Gente como Paul McCartney, Mick Jagger, Keith Richards, Jimmy Page, Robert Plant, Ozzy Osbourne, Tony Iommi, John Fogerty, Eric Clapton, David Gilmour, Roger Waters, Neil Young, Bruce Springsteen e outros atualmente são senhores de idade, longe da energia da juventude mas com a classe e experiência que só tem quem passou décadas na estrada, tocando para multidões. No entanto, todas essas trajetórias chegarão, cada uma em seu dia, ao inevitável film. Chegará a hora em que McCartney morrerá. Page também. Jagger, idem. Não há como fugir do inevitável: o rock ficará órfão.
O que isso quer dizer? O que isso acarretará ao estilo? Muito provavelmente, nada demais. Basta olhar para trás, aprender com as experiências do passado, para perceber que o mundo segue e que a roda continua girando. Novas lendas surgirão, novos ídolos nascerão.
O rock and roll é um produto criado por inúmeras cabeças, e muitas dessas já deixaram este plano há tempos. Nomes que hoje são ícones, como Buddy Holly, Eddie Cochran, Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Duane Allman, Marc Bolan, Paul Kossoff, Tommy Bolin, Elvis Presley, Ronnie Van Zant, Keith Moon, Bon Scott, John Bonham, John Lennon, Randy Rhoads, Muddy Waters, Phil Lynott, Cliff Burton, Steve Ray Vaughan, Freddie Mercury, Frank Zappa, Kurt Cobain, Rory Gallagher, Joey Ramone, George Harrison, Joe Strummer, Johnny Cash, Dimebag Darrell e mais um monte de gente, deixaram inúmeras canções e motivos para seguirem vivos nos corações e ouvidos mundo afora. E a música não acabou sem a presença deles.
O rock é auto-renovável. O artista compõe uma canção, grava um disco, que é ouvido por um adolescente, que encontra o sentido da vida naqueles acordes, e resolve ele mesmo começar a tocar. É um ciclo infinito. Quanto Buddy Holly faleceu em 3 de fevereiro de 1959, Ronnie Van Zant tinha apenas 11 anos. E nos próximos 18 anos faria ele mesmo a sua história liderando o Lynyrd Skynyrd, até perder a vida em um acidente de avião em 20 de outubro de 1977. Nessa data, Kurt Cobain ainda não tinha 10 anos, e passaria os próximos dezessete à frente do Nirvana também construindo a sua trajetória dentro do rock, interrompida em 5 de abril de 1994. Exemplos como esses existem aos montes, e seguem ocorrendo agora mesmo.
A inevitável mudança de comando dentro do rock está em andamento, com gerações mais recentes de bandas conquistando também o seu próprio espaço dentro da história do gênero. O U2 é um destes nomes. O R.E.M., o Pearl Jam, o Red Hot Chili Peppers, o Green Day, o Foo Fighters, o Muse, o Arctic Monkeys, o Wilco, também. Dentro do heavy metal, o inevitável fim do Black Sabbath divide espaço com a enorme popularidade de bandas como Iron Maiden, Metallica, Slipknot e, mais recentemente, Bring Me The Horizon, Mastodon, Machine Head, Trivium, Between the Buried and Me, Lamb of God e outros. No prog, Steven Wilson e o Opeth vem galgando a passos largos os degraus hierárquicos do gênero. E isso acontece de forma infinita.
O rock está ficando órfão de seus ícones históricos. Isso é inevitável e indiscutível. Como também é fato de que novas forças continuam surgindo e se consolidando, em um processo que nunca terá fim.
Foi doloroso perder David Bowie. A partida de Lemmy, mesmo sendo algo esperado, também deixou um vácuo. Vamos seguir ouvindo seus discos, curtindo suas músicas e descobrindo suas histórias. Assim como continuaremos encontrando boas bandas e ótimas canções pelo caminho, produzidas por artistas que estão fazendo suas próprias histórias agora, neste momento.
A vida segue. A música, no entanto, jamais pode parar.
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