Kreator: questionamentos sobre usinas nucleares em "Fatal Energy"

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Por Rodrigo Lourenço Costa, Fonte: Blog HM - História e Metal
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Matéria de 07/03/14. Quer matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

Fatal Energy
Kreator – Álbum: Extreme Agressions (1989)

Lies, I can't stand these lies anymore
These tales about a better world
A better world for you and me
Hate, our hate is growing, that's for sure
Future thoughts fill us with rage
Uncertainty about our fate

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Cry out in fear of the future
Cry out in fear of the unknown
Cry out in fear of our planet
That the human race calls its own

(chorus)
And the gods are watching from lofty places
Indifferent to you and me
I wonder if their creations can handle
The violent forces of fatal energy

Violence, cruel violence, in the minds of all
The killer instinct is still intact
It never leaves our minds alone
Greed, our greed will cause us to fall
Destroy the land of unborn sons
I hear them cry, I hear them call

Creaming in desperation
Screaming from hunger and pain
Scream for relief from this misery
Searching for someone to blame

(chorus)

Easy, it's so easy to control our fate
Turn the world into a bomb
That destiny will detonate
Tomorrow, tomorrow it will be too late
When the children cry in fear of death
A horrid death they can't escape

Crying tears of confusion
Crying for they don't understand
Crying because their young lives
Will be taken by their creators' hands

(chorus)

Energia Fatal (tradução)

Mentira, eu não aguento mais essas mentiras
Estes contos sobre um mundo melhor
Um mundo melhor para você e para mim
Ódio, nosso ódio está crescendo, isso é certo
Pensamentos futuros enchem-nos com raiva
Incerteza sobre o nosso destino

O grito de medo do futuro
O grito de medo do desconhecido
O grito de medo do nosso planeta
Que a raça humana chama seu próprio

(refrão)
E os deuses estão assistindo de lugares sublimes
Indiferente a você e eu
Eu me pergunto se suas criações podem suportar
as forças violentas de energia fatal

Violência, violência cruel, nas mentes de todos
O instinto assassino ainda está intacto
Ele nunca deixa a nossa mente só
Ganância, nossa ganância nos fará ruir
Destruir a terra dos filhos por nascer
Eu os ouço chorar, eu os ouço chamar

Borrando em desespero
Gritando de fome e dor
Grite para o alívio da miséria
Procurando alguém para culpar

(refrão)

Fácil, é tão fácil de controlar nosso destino
Transformar o mundo em uma bomba
Esse destino vai detonar
Amanhã, amanhã será tarde demais
Quando as crianças choram com medo da morte
Uma morte horrível que eles não podem escapar

Choro lágrimas de confusão
Chorar por que eles não entendem
Lamento porque as suas jovens vidas
serão tiradas pelas mãos de seus criadores

(refrão)

Análise

O mundo mudou radicalmente depois de 26 de abril de 1986. O acidente na usina de energia nuclear de Chernobyl (atual Ucrânia, antes, parte da URSS) foi tão catastrófico que associou a energia nuclear à coisas negativas instantaneamente. Prova de como isso influenciou a cultura popular é só verificarmos a usina onde trabalha Homer Simpson (a série começou a ser produzida em 1989).

Durante aqueles dias não se falou de outra coisa a não ser da “Nuvem Radioativa” que varreu a cidade. O pânico tomou a Europa, pois os ventos dissiparam os resíduos da usina para a parte ocidental do continente. A radiação causou milhares de mortes diretas, outras milhares indiretas, e ainda causará outras tantas, segundo especialistas.

O impacto desse evento, como já dito anteriormente, foi muito discutido em todos os âmbitos da cultura popular (o já citado exemplo da série animada “Os Simpsons”). Juntemos ainda a questão do medo do “Holocausto Nuclear” (tema abordado em postagens anteriores). Obviamente a música não ficaria de fora desse assunto, e mais precisamente, o Thrash Metal.

O Kreator foi a banda que tratou mais especificamente desse assunto, em sua canção “Fatal Energy” do álbum Extreme Agressions de 1989.

A abordagem típica dos alemães já começa com uma crítica ao sistema: “Lies, I can't stand these lies anymore / These tales about a better world /A better world for you and me”. Uma visão totalmente pessimista a respeito da proliferação das usinas de energia nuclear. Embora essas usinas tenham nascido da necessidade crescente por energia para que o mundo continuasse no processo de industrialização que marcou o período posterior à Segunda Guerra Mundial, e que por uma série de avanços tecnológicos possam ser consideradas “limpas” e seguras, o ranço contra a palavra “nuclear” sempre esteve associado a elas (MAGALHAES, 2007)

Porém, o acidente da usina de Chernobyl coloca a energia nuclear definitivamente como uma “vilã” para a humanidade. Não só pelas questões ambientais já inerentes à atividade (a questão dos resíduos gerados, o Lixo Nuclear, que não podem ser descartados de qualquer maneira), mas pelos riscos humanos envolvidos.

Sob essa ótica, o Kreator continua o tom apocalíptico da canção em toda a segunda estrofe, onde a palavra “grito” assume um sentido de alerta. O futuro é incerto ou tenebroso quando observam os efeitos catastróficos de um acidente como em Chernobyl.

O refrão diz que os deuses são indiferentes aos humanos, que não podem suportar os efeitos nocivos da energia fatal. A construção lírica é muito característica do Kreator, juntando o místico e o mundano (tal como em “Toxic Trace” e “Awakening of the gods”, por exemplo) para fazer uma crítica social.

A frase da terceira estrofe que mais chama a atenção é “Greed, our greed will cause us to fall” como uma acusação contundente à forma como a humanidade cria problemas para ela mesma, como no caso da energia nuclear, em nome do progresso e do lucro. A indignação continua nas duas linhas subseqüentes, quando se fala da destruição do mundo onde nossos descendentes viveriam, condenando-os a uma vida de desgraça: “Destroy the land of unborn sons / I hear them cry, I hear them call”

A quarta estrofe é também perturbadora, desenvolvendo a ideia da estrofe anterior e novamente usando a palavra “gritar” para chamar a atenção. Passa a ideia de degradação, na utilização de palavras para compor uma imagem: desespero, fome, dor, miséria.

As últimas estrofes da canção concluem a ideia desenvolvida. A quinta estrofe começa com as linhas “Easy, it's so easy to control our fate /Turn the world into a bomb /That destiny will detonate”. Aqui estão falando sobre a proliferação das usinas de energia nuclear por todo o planeta, transformando-o numa “grande bomba”. Vale lembrar que ainda no momento que essa canção foi escrita, a Guerra Fria ainda não estava terminada, embora caminhasse rapidamente para o fim. Mas talvez, por isso mesmo, o medo de desastres como os de Chernobil fossem ainda mais justificáveis. O acidente na cidade ucraniana só aconteceu porque (dentre alguns dos motivos, que não teria espaço para elencar aqui) a manutenção da usina era deficitária. A falta de dinheiro na URSS nos anos finais da Guerra Fria (HOBSBAWN,1995, p. 250) certamente está ligada ao abandono da usina de Chernobil, dentre outros programas antes centrais na política soviética.

A sexta estrofe fala de maneira aguda sobre o destino das vidas afetadas pelo acidente nuclear. Os efeitos devastadores serão sentidos por muitas gerações, que, conforme a letra diz, já estão condenadas mesmo antes do nascimento. A palavra choro (ou lamento) está empregada com o sentido fúnebre, quando estamos diante de um estado desolador causado pelos desastres das usinas nucleares.

A canção “conversa” intimamente com a canção “Toxic Trace”, mas traz o Kreator tratando do tema de maneira menos direta, fazendo uso de mais figuras de linguagem e artifícios líricos para criar o seu argumento. Mas ainda assim, traz vários elementos tipicamente encontrados na discografia dos alemães até aquele período.

O disco Extreme Agressions, levou o Kreator a um novo patamar melódico, onde podemos perceber que as composições são mais complexas, aumentando a diversificação dos arranjos. A canção “Fatal Energy” começa com guitarras em harmonia, que depois perpassam por momentos mais secos e rápidos, e momentos mais melódicos. As quebras de andamento, características do Thrash Metal oitentista, estão presentes também nesta canção, e levam o ouvinte numa sucessão de tempos, até reiniciar para o riff inicial e conduzir a canção para a conclusão da ideia contida na parte lírica.

As questões abordadas nesta música retornaram com muita força após o acidente na usina energética de Fukushima em 2012. Vamos países voltaram a debater os riscos da produção da energia nuclear, e muitos governos (como a Alemanha, por exemplo) resolveram desativar algumas delas.

Prova de que o debate sobre a segurança da utilização desta fonte energética ainda está muito longe do fim, e os seres humanos ainda não sabem conter as forças devastadoras da fissão nuclear, que gera resíduos tóxicos e pode causar desastres incalculáveis para a natureza e para a humanidade.

Referencias bibliográficas:

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.

MAGALHÃES, Gildo. Energia, Industrialização e a Ideologia do progresso. Projeto História, São Paulo, n.34, p. 27-47 , jun. 2007. Disponível em <[http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/2465]>. Acesso em 12 jul.2011.

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.

http://infoalternativas.blogspot.com.br/2013/04/artigo-cientifico-mostrando-como-o.html - acesso em 12.dez.2013

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