Arquivo do Rock: O Hard Rock e Metal no Grammy
Por Rafael Ferrara
Fonte: Radio Catedral do Rock
Postado em 02 de março de 2020
No dia 22 de Fevereiro de 1989, o Grammy abria as portas da sua cerimônia para o metal estreando a categoria Hard Rock/Metal Performance. Essa ação foi um divisor de águas se considerarmos que bandas que não tinham espaço no cenário musical comercial passariam a "colocar a cara" na premiação mais popular da música internacional. A categoria, incialmente com esse nome que abraça duas categorias distintas, tinha por objetivo premiar uma faixa, um álbum ou uma apresentação de uma banda ou artista que fosse do popularmente considerado "rock pesado". Obviamente, com uma categoria com uma proposta tão ampla e subjetiva, teríamos problemas. Ou pelo menos polêmica. E rolou uma polêmica logo na sua edição de estreia.
Na 31ª edição do Grammy Awards, em 22 de fevereiro de 1989, o que foi destaque no mundo da música no ano de 1988 estava sendo celebrado. Dentre os destaques, cinco candidatos à nova categoria Hard Rock/Metal Performance. No seu discurso, o genial Billy Cristal, apresentador da cerimônia, enfatizou a importância da criação da categoria: "Há pouco tempo, o heavy metal estava confinado ao underground, mas os tempos mudam e os grammys mudam com o tempo. Reconhecemos a forma de arte que mantém viva a essência rebelde do rock and roll e adicionamos um prêmio Grammy nessa categoria pela primeira vez este ano.". Os cinco candidatos foram Metallica (And justice for all), Janes Addiction (Nothing’s shocking), Jethro Tull (Cresto of a knave), AC/DC (Blow up your vídeo) e Iggy Pop (Cold Metal). A banda Metallica era a grande barbada da noite com seu incrível álbum And justice for all. O favoritismo se reforçou quando na cerimônia eles fizeram uma apresentação impecável do clássico One que acabou "fuzilando" a plateia e a audiência. A certeza da vitória do quarteto era tamanha que a gravadora responsável já tinha mandado fabricar uma dezena de milhares de adesivos com a frase "Os ganhadores do Grammy 1989" para colocar nos álbuns no mercado.
Ficou por conta de Alice Cooper e Lita Ford anunciarem o ganhador da categoria. Suspense padrão feito, Alice Cooper abre o envelope e crava: Jethro Tull. Lita Ford até tentou segurar o riso, mas não obteve muito sucesso. Fato esse que com as vaias da plateia sacramentaram uma desastrosa estreia da nova categoria. O clima só não foi mais constrangedor porque a banda ganhadora não estava presente. Ainda assim, a produção do Grammy, previamente, fez um vídeo de agradecimento com Ian Anderson, vocalista e líder do Jethro Tull. O discurso foi talvez a cereja do bolo para uma nova categoria confusa. O álbum Cresto of a knave estava longe de ser algo associado a hard rock ou metal. Não bastante, sequer chegava perto de ser um dos melhores da banda. Acredito que, por isso, Ian Anderson imaginou que a premiação fosse pelas suas contribuições durante a carreira num todo, e não pontualmente sobre o álbum. Afinal, esse foi o clima do seu discurso.
O Metallica na época foi motivo de piadas por conta dessa história. Mesmo assim, souberam lidar com humor. Tanto que Lars Urich deu uma entrevista anos depois para a revista Rolling Stone dizendo que sugeriram à gravadora refazer os adesivos com a frase "Os perdedores do Grammy 1989" que teria um efeito viral. Já a organização do Grammy teve uma baita dor de cabeça e resolveu reformular o prêmio para o ano seguinte. A partir de 1990, a anterior categoria Hard Rock/Metal Performance seria dividida em duas novas: Hard Rock Performance e Metal Performance.
A permanência de uma categoria voltada exclusivamente ao metal deu visibilidade à bandas fora do eixo comercial, além de ser um honesto reconhecimento a um dos nichos com o público mais fiel de todos.
A partir de 1990, o Metallica se tornou o maior ganhador da categoria com 8 indicações e 6 troféus Grammy. Dentre as vitórias, destaque para uma vitória pela faixa One no ano seguinte em que fizeram a memorável apresentação da edição de estreia da categoria, uma pelo cover que fizeram de Stone cold crazy do Queen e outra pelo magistral álbum Metallica que preferimos chamar de Álbum Black. Esses três prêmios, inclusive, ocorreram seguidamente em 1990, 1991 e 1992.
Mesmo com impressionantes 6 troféus entre 8 indicações, o Metallica não é o nome mais indicações da categoria. A banda do ex-Metallica David Mustaine, Megadeth, é a campeã de indicações com um total de 10, mas apenas 1 troféu obtido em 2017 pela faixa Dystopia do álbum homônimo. A vitória do Megadeth veio na 10ª indicação depois de 9 frustrações.
Depois do Metallica, a banda que conseguiu chegar mais perto foi a de Metal Progressivo Tool que ganhou nas três vezes que foi indicada. Respectivamente em 98, 2002 e atual ganhador, a banda Tool foi reconhecida pelo seu som pesado, de métrica irregular e sonoridade complexa. A presença de uma banda do porte do Tool numa premiação estritamente comercial como o Grammy só reforça o que disse anteriormente sobre dar visibilidade para um público que não tinha acesso a esse tipo de trabalho.
A lista de ganhadores da categoria é bem extensa exatamente por conta de um histórico de muitas bandas com apenas um troféu. Apenas 3 ganharam dois troféus (Nine Inch Nails, Black Sabbath e Slayer), enquanto outras 15 bandas receberam um troféu, inclusive dinossauros do metal como Motorhead, Iron Maiden, Judas Priest, Ozzy e Rage Against the Machine.
As categoria Hard Rock Performance e Metal Performance que surgiram na divisão de 1989 caminharam separadas até 2012 quando voltaram a compor uma única categoria que voltou a ser chamada de Hard Rock/Metal Performance. Só que isso durou apenas 2 anos, quando a organização entendeu que Hard Rock Performance se misturava com a categoria Rock Performance. Daí, voltou a existir a exclusiva categoria Metal Performance e a Hard Rock Performance perdeu sua identidade, saindo da premiação.
O Arquivo do Rock é um programa de 1 hora de duração que vai ao ar na Rádio Catedral do Rock todo sábado às 14 horas. O Episódio 04: O Metal no Grammy foi ao ar no dia 22 de Fevereiro de 2020 e está disponível no formato de Podcast no Spotify e Deezer.
Rafael Ferrara é locutor da Rádio Catedral do Rock (90,1 FM – Petrópolis) onde apresenta o programa Arquivo do Rock e também apresenta o Podcast Faixa a Faixa.
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