Riot Grrrl: Malvada fala do movimento que chega aos 30 anos
Por Nelson de Souza Lima
Postado em 23 de outubro de 2020
A contribuição das mulheres para o rock and roll é inquestionável. Aliás, devemos a Sister Rosetta Tharpe os alicercerces de tudo o que conhecemos no gênero. Sua versão de "Strange Things Happening Everyday", de 1944, é considerada pra muita gente, a primeira gravação do rock.
Forçando a memória, sem dar aquela "googada", lembramos de inúmeras bandas com garotas como as gringas The Runaways, L7, Bangles, The Go-Go's, Vixen, Girslshool, entre outras. Aqui no Brasil citamos, lá dos 80, As Mercenárias e Sempre Livre, e mais recentemente a Nervosa, cuja cisão originou outra banda bem legal só com garotas: Crypta.
Agora, apelando pra "São Google" sacamos que, bandas formadas por mulheres estão ai, desde sempre, marcando terreno com talento e atitude.
Do final dos 50 e começo do 60 estão as americanas Fanny, Goldie & the Gingerbreads e The Pleasure Seekers, que contava com Suzy Quatro na formação original.
Enfim, as mulheres foram fundamentais pro gênero se tornar o que é em todas as vertentes, derrubando preconceitos, encarando o machismo, conquistando espaço num universo ainda marcado pela misoginia. Sua luta escancara uma sociedade retrógrada, querendo impor às mulheres inferioridade e submissão.
Uma coisa inconcebível em pleno século XXI.
Por sua vez, os movimentos feministas fazem parte da luta por direitos, mostrando o quanto elas merecem equanimidade.
Prestes a completar 30 anos o Manifesto Riot Grrrl surgiu simultâneamente ao Grunge, e no mesmo estado de Washington, EUA. Mas, enquanto o estilo imortalizado por Nirvana e Pearl Jam nasceu em Seatle, o Riot Grrrl despontou em Olympia, tendo seu manifesto original publicado em 1991, produzido por Kathleen Hanna, vocalista do Bikini Kill.
Não demorou muito para as brasileiras abraçarem o Riot Grrrl, com nomes importantes como Dominatrix e TPM. Evidentemente que inúmeras outras bandas se juntaram à elas numa atitude punk rock, dispostas a soltar a voz, tocando do jeito que só as garotas sabem.
Passadas quase três décadas o Riot Grrrl e a sociedade mudaram. Muitas bandas ficaram pelo caminho, outras ainda estão ai, dando seu recado em busca de igualdade. No Brasil novos grupos formados por garotas têm chamado atenção, evidenciando que o rock feminino não é sazonalidade. Sempre estará presente e, enquanto uma garota, empunhar sua guitarra ou berrar no microfone clamando por direitos a sociedade seguirá no caminho certo.
Uma das bandas caçulinhas só formadas por mulheres é a Malvada, surgida em março deste ano. Integrada por Angel Sberse (vocal), Bruna Tsuruda (guitarra), Ma Langer (baixo) e Juliana Salgado (bateria) o grupo chega com tudo, atitude, talento e rock na veia.
Para elas, o Riot Grrrl foi um marco na história do feminismo com o qual se identificam no sentido de quererem igualdade e fazerem música na forma na qual acreditam.
"Somos sim completamente contra a desigualdade e queremos incentivar outras mulheres a fazer o mesmo em qualquer área/questão e não somente na música", dizem as garotas.
Abaixo um bate-papo bem legal com as garotas da Malvada, feito por e-mail, respeitando o distanciamento em meio à pandemia.
Em 2021 o Riot Grrrl completa três décadas. Gostaria de saber qual a identificação de vocês com o manifesto que surgiu em Olympia, Washington, EUA e segue sendo um importante marco na luta das bandas femininas em busca de igualdade e direitos.
Malvada: Foi um grande marco na história do feminismo. Nos identificamos no sentido de que também queremos igualdade, fazendo nosso som da forma que acreditamos, independentemente do gênero.
Vocês se consideram uma banda Riot Grrrl? Sabemos que em 30 anos muita coisa mudou. A sociedade mudou. Como fazer um balanço destes trinta anos?
Mal: Não nos consideramos ativistas, nossas letras retratam sentimentos e situações do nosso cotidiano, uma coisa mais interiorizada, na maior parte dita nas entrelinhas. Somos sim completamente contra a desigualdade de gênero e queremos incentivar outras mulheres a fazerem o mesmo em qualquer área/questão e não somente na música.
Muitas de vocês eram crianças quando o manifesto surgiu. De que forma foram moldadas pelo Riot Grrrl?
Mal: De fato, algumas nem haviam nascido quando o movimento surgiu. Defendemos o princípio de que você pode ser/fazer o que quiser, embora saibamos que ainda vai demorar muito para que não haja diferenciação entre gêneros.
Independente de serem ou não Riot Grrrl de que forma sua música contribui para uma sociedade mais equânime?
Mal: Nossa música contribui para o nosso próprio bem-estar, porque é o que amamos fazer, se isso consequentemente de alguma forma contribuir para sociedade, ficaremos duplamente satisfeitas.
A luta das mulheres em busca de seus direitos vai além da música. Como artistas o que pensam da luta das mulheres atualmente, uma vez que a ascensão de Jair Bolsonaro despertou o vírus do ódio numa explosão homofóbica e misógina sem controle. Visto o crescimento dos casos de feminicídio.
Mal: A luta das mulheres não é de hoje e vai perdurar ainda por muitos anos, independente do governante, porque a questão é cultural, é um misto da educação que vem de casa com a personalidade/caráter do ser humano.
Muito se fala que o rock é desunido, com muitos "rock stars" egocêntricos e prepotentes. Se entre os homens há muitos atritos gostaria de saber como são as relações entre as bandas femininas.
Mal: Seria hipocrisia dizer que não há atrito ou competição entre mulheres, mas devido ao fato do mercado musical feminino ainda ser tão pequeno, a grande maioria tende a se apoiar bastante, pois a vitória de cada mulher, representa a de várias, dada a desigualdade e falta de incentivo que vivenciamos desde sempre.
Vocês já tiveram contato ou tocaram com bandas gringas representativas do rock feminino? Tipo o Gossip, da Beth Ditto tocou em São Paulo alguns anos atrás, antes de terminar em 2016. Como é o contato com os grupos de fora?
Mal: Ainda não, mas quem sabe um dia, seria um prazer!
O rock em geral encontra dificuldades em conseguir espaço na mídia, isso vale pra bandas masculinas e femininas. Como é a relação de vocês com a mídia e a busca de espaço pra tocar.
Mal: De fato a cultura do Brasil é pouco voltada para o Rock, mas ainda é um pouco cedo para tirarmos conclusões em relação a isso, pois estamos em fase de gravação/produçao, nem chegamos a lançar material autoral ainda, mas já tivemos bons feedbacks de muitas páginas, sites e blogs sobre rock.
Infelizmente a pandemia paralisou tudo. Como têm se virado com lives e divulgar o trabalho da banda?
Mal: R: Estamos usando a internet a nosso favor, compondo à distância, divulgando nossas fotos e vídeos de covers nas redes para angariar público e ter um retorno bacana quando lançarmos nossos primeiros singles. Tem funcionado bem.
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De que forma as bandas femininas podem ser representativas dos anseios das mulheres em geral por busca de direitos e uma sociedade igualitária?
Mal: Fazendo e defendendo aquilo que elas acreditam, sempre com o devido respeito.
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