Criador da capa do novo álbum do Angra conta os detalhes da criação com exclusividade
Por Gustavo Maiato
Postado em 07 de julho de 2023
O ilustrador Erick Pasqua foi o responsável pela capa do novo álbum do Angra "Cycles of Pain", que está dando o que falar. Em entrevista exclusiva ao jornalista Gustavo Maiato, ele revelou todos os detalhes desse trabalho.
Como surgiu a parceria e o convite do Angra para realizar essa capa e qual foi sua reação na hora?
Foi a convite do Felipe, que é um grande amigo já há duas décadas. Apesar de eu ter feito algumas peças de design pra ele num passado longínquo, como o logo antigo dele e um site das antigas, nunca tinha feito nada de ilustração pra ele ou pro Angra. Já tinha ilustrado algumas capas de álbuns, mas não esperava por essa, ser convidado pra ilustrar a capa de uma banda do porte do Angra foi uma surpresa muito boa. Sou fã da banda desde criança, então essa capa era uma responsabilidade bem grande e me dediquei bastante a ela.
O Rafael Bittencourt disse que alguma inteligência artificial esteve envolvida de alguma forma na criação da arte. Como foi esse processo? Qual foi o seu papel, o do Rafa e o da I.A?
Isso, o Rafael pensou no conceito da capa e, antes de me convidarem, já tinha feito vários testes bem legais com IAs, pra ter algumas ideias de pra onde a capa poderia ir. IAs podem ser úteis nessa fase de levantar ideias, então ele fez vários testes de conceito. Mas eles não queriam uma capa feita por IA, então me chamaram, mostraram as ideias, os conceitos, nós conversamos e eu comecei a ilustrar, do zero mesmo, como estou acostumado.
A capa é cheia de referências. Como vocês chegaram nessa figura do anjo na paisagem tropical?
O anjo é uma figura clássica do Angra, né? Esse, em particular, é uma espécie de anjo da morte, com elementos de culturas brasileiras e, como vocês já perceberam, algumas referências a álbuns anteriores da banda. Na mesma linha, a paisagem empresta um pouco das paisagens do nosso país, também. De resto, deixo pra vocês interpretarem da melhor forma, que é ouvindo as músicas e criando as próprias interpretações em cima da imagem e das letras, acho que assim é mais legal, rs.
Os fãs mais atentos já notaram que há muitas referências escondidas na capa fazendo alusão a discos antigos do Angra. Como foi esse trabalho de "esconder" referências na capa?
Pois é, notaram mesmo! Referências, homenagens, citações e "easter eggs" são coisas que eu gosto muito de fazer e, quando sugeriram que a gente podia mencionar um pouco de cada álbum anterior do Angra, achei sensacional. Foi a parte mais divertida desse trabalho. A ideia é deixar algumas coisas mais óbvias, pra que todo mundo saiba que tem algo a mais ali. Algumas outras são mais difíceis de captar, pra que vocês se divirtam com o desafio. E outras são só pros fãs bem atentos, mesmo.
Qual foi a tecnologia ou a técnica utilizada para chegar no resultado?
É uma pintura digital, feita no Photoshop, com uso de uma Cintiq como display interativo. É feita por camadas, entre pinceladas, pedaços de imagens, sobreposições de cores, luzes, sombras, efeitos, fica tudo separado em mais ou menos umas 60 camadas. Isso ajuda porque, quando a banda dá uma sugestão, pra mudar ou adicionar alguma coisa, você tem a coisa toda editável e pode fazer esse bate-volta com eles. Postei um vídeo com uma espécie de passo a passo, bem resumido, lá no @pasquaerick, mostrando um pouco desse processo.
O que você acha das pessoas que estão utilizando Inteligência Artificial para criar novas versões da capa? O que acha desse tipo de tecnologia de uma maneira geral?
As IAs sendo usadas pra esse tipo de trabalho são um assunto muito recente e tem gerado bastante polêmica, acho que com o tempo a gente vai ter um entendimento melhor sobre isso. Eu espero continuar ilustrando da forma "tradicional" e continuar sendo pago pra isso, rs, mas não dá pra negar que as IAs vieram pra ficar. Por enquanto, acho que uma das questões mais sérias a respeito disso é o uso do material de artistas, sem o consentimento deles, como parte dos bancos de treinamento dessas IAs. Há quem clame por uma forma de manter suas peças fora dos bancos de treinamento, uma espécie de "opt-out". Por exemplo: é possível fazer com que uma IA gere uma ilustração "no estilo de tal artista", e isso pode vir a ser considerado plágio, tanto quanto seria se uma pessoa copiar manualmente o trabalho de outro artista. E isso é só um exemplo, essa discussão vai longe, vamos acompanhar.
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