O maior solo de Kirk Hammett no Metallica, na visão do próprio guitarrista
Por Bruce William
Postado em 23 de novembro de 2025
Nem sempre o melhor resultado vem depois de horas lapidando cada nota. No caso de Kirk Hammett, o solo que ele mais gosta em toda a carreira com o Metallica nasceu praticamente sem planejamento, em uma daquelas situações em que o músico entra no estúdio, liga o equipamento e simplesmente deixa a mão andar sozinha pelo braço da guitarra.
Isso aconteceu no fim dos anos 80, quando a banda trabalhava em "...And Justice for All", lançado em 1988. Em uma das noites de gravação, eles estavam ajustando os detalhes de uma música que começava com arpejos mais suaves e ia crescendo até virar uma pancada pesada. O clima no estúdio era de que aquela faixa tinha algo especial, mas ainda faltava um solo que acompanhasse essa escalada de intensidade.

Em entrevista à revista Metal Hammer, republicada na Far Out, Hammett contou que foi chamado de última hora. Segundo ele, "o Lars me ligou e disse: 'Você pode vir até aqui? Precisamos de um solo no demo da música nova'". Ele apareceu no estúdio com a guitarra, ouviu a faixa algumas vezes e ficou "brincando" em cima da base, tentando entender o caminho que James Hetfield estava seguindo na harmonia e na dinâmica da composição.
Quando sentiu que já tinha absorvido o suficiente, pediu para gravar. "Eu disse: 'Ok, aperta o rec'. Na sequência, minha mão começou a fazer tapping no braço, seguindo a progressão de acordes, simplesmente saiu do nada!", lembrou o guitarrista. Depois de registrar a performance, ele ainda ficou pensando sobre o que tinha acontecido e resumiu a sensação dizendo: "Foi meio uma viagem."
O curioso é que, em praticamente o mesmo tempo em que ouviu o demo, Hammett cortou ali o solo que até hoje considera seu favorito - o de "One". Sem rascunho elaborado, sem um milhão de versões alternativas, sem espaço para encher a cabeça de dúvida. A situação lembra a frase atribuída a Miles Davis: "Não tema os erros. Eles não existem". Treino pesado, somado à disposição de arriscar, às vezes abre caminho para algo que não sairia se o músico estivesse tentando controlar cada detalhe.
A experiência mexeu com a forma como Hammett passou a encarar os solos dali em diante. Em vez de planejar tudo com antecedência, ele começou a se apoiar mais na intuição e no repertório acumulado ao longo dos anos. Em shows, isso significa aceitar que nem sempre ele sabe exatamente o que vai tocar dali a alguns segundos, o que mantém cada performance um pouco diferente da anterior e deixa o risco sempre presente.
O próprio guitarrista resume essa postura de um jeito bem direto: "Eu não faço ideia do que porra vou tocar desde o primeiro lick, e eu adoro isso. Adoro saber que estou dançando na lâmina de uma faca, essa é a excitação pela qual eu vivo". No caso de "One", essa confiança na reação imediata rendeu um solo que ele guarda como o preferido do catálogo do Metallica, nascido em poucos minutos de estúdio e sustentado por anos de prática, memória musical e disposição de se jogar sem rede de proteção.
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