O cantor que fez Elton John ficar nervoso no próprio estúdio
Por Bruce William
Postado em 18 de maio de 2026
Elton John já havia cantado com muita gente quando decidiu fazer "Duets", álbum lançado em 1993. O disco tinha participações de George Michael, Kiki Dee, Don Henley, Tammy Wynette, Bonnie Raitt, Leonard Cohen, RuPaul e outros nomes de peso. Mesmo nesse meio, uma presença tinha outro tipo de carga para ele: Little Richard, um dos artistas que ajudaram a definir o que um piano, uma voz e uma dose absurda de energia podiam fazer dentro do rock and roll.
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A escolha não era óbvia apenas pela fama. Elton poderia ter chamado Little Richard para algo mais explosivo, próximo de "Tutti Frutti", "Long Tall Sally" ou "Good Golly Miss Molly", músicas que fizeram dele uma figura quase perigosa para os padrões dos anos 50. Em vez disso, quis levá-lo para outro terreno, mais ligado ao gospel e a uma interpretação menos caricatural do "homem selvagem" do rock.
A faixa foi "The Power". No site oficial de Elton, ela aparece como a terceira música de "Duets", creditada como parceria com Little Richard. O álbum tinha uma proposta naturalmente desigual, como quase todo disco de duetos, mas essa gravação ficou marcada para Elton por algo que ia além do resultado comercial ou da lista de convidados. Era um ídolo de formação entrando no mesmo espaço musical que ele, sem a máscara completa do personagem de palco.
Elton explicou depois (via Far Out)por que aquele encontro o marcou tanto: "Quando tive a oportunidade de trabalhar com ele no meu álbum 'Duets', eu quis fazer algo com ele em um estilo pelo qual ele não era realmente conhecido. 'The Power' é uma das minhas favoritas, e gravar essa faixa com ele foi um dos maiores momentos da minha vida." A lembrança não parou no elogio musical. Ele também disse que jamais esqueceria como Little Richard era "humilde, tímido e engraçado" - e como ele próprio estava nervoso.
Essa imagem desmonta um pouco os dois personagens. De um lado, Elton John, já um gigante da música popular, ainda capaz de ficar intimidado diante de alguém que havia ajudado a abrir a estrada antes dele. Do outro, Little Richard, o homem dos gritos, do cabelo, do piano incendiário e da presença exagerada, aparecendo como alguém mais reservado longe do palco. O choque entre mito e pessoa real costuma render esse tipo de cena.
Little Richard foi uma das grandes matrizes do rock and roll justamente porque não parecia pedir permissão para existir. Antes de muitos artistas entenderem como transformar o corpo inteiro em performance, ele já fazia isso ao piano, misturando gospel, rhythm and blues, provocação, humor e uma energia que obrigava os outros a reagirem. Elton, que também construiu parte da carreira como pianista extravagante e performer de palco, sabia muito bem de onde vinha uma parte dessa linguagem.
Por isso, a homenagem tem um peso especial. Ao chamar Little Richard de uma de suas grandes inspirações musicais "na vida e no nosso tempo", Elton não estava apenas reverenciando um pioneiro em abstrato. Estava falando de alguém que ajudou a tornar possível a figura do pianista roqueiro explosivo, capaz de transformar uma canção em espetáculo sem abandonar a música.
"The Power" talvez não seja a primeira faixa lembrada quando se fala em Elton John ou Little Richard. Mas, para Elton, ela guardou outra função: registrar o momento em que um artista consagrado pôde dividir o microfone com uma de suas fontes. Às vezes, a história do rock aparece assim, sem guitarra quebrada nem manchete escandalosa: um veterano entra no estúdio, outro veterano fica nervoso, e por alguns minutos a linhagem fica audível.
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