O guitarrista de blues que foi muito além do gênero para Joe Perry
Por Bruce William
Postado em 25 de junho de 2026
Joe Perry passou a vida sendo identificado como guitarrista de hard rock, mas a base do seu vocabulário sempre esteve mais perto do blues do que da pirotecnia pura. O Aerosmith podia flertar com o pop, o hard mais vistoso, baladas gigantescas e até uma ponte improvável com o rap em "Walk This Way", ao lado do Run-DMC. Ainda assim, por baixo de boa parte da obra da banda, havia aquele velho esqueleto de blues e R&B segurando a casa.
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Isso vinha desde antes de Steven Tyler entrar na história. Perry e Tom Hamilton já trabalhavam ideias e riffs com essa formação musical nas costas, e os primeiros discos do Aerosmith deixavam isso bem claro. Havia Rolling Stones, Fleetwood Mac da fase Peter Green, James Brown, boogie, swing e uma forma de tocar que nem sempre dependia de velocidade ou exibicionismo. O peso vinha do balanço.
Por isso, chamar o Aerosmith apenas de banda de hard rock pode ser um atalho meio pobre. Muitas músicas do grupo funcionam quase como arranjos de blues acelerados, com mais volume, mais atitude e uma bateria empurrando tudo para o palco grande. Perry nunca pareceu interessado em se vender como o guitarrista mais técnico do mundo. Seu negócio sempre foi fazer aqueles acordes antigos respirarem com outro cheiro.
Esse é justamente o tipo de façanha que ele enxergou em Stevie Ray Vaughan. Nos anos 1980, quando a MTV ajudava a moldar uma estética mais colorida, plástica e muitas vezes distante do blues tradicional, Vaughan apareceu como alguém vindo de outro tempo. Chapéu, Stratocaster, postura de pistoleiro texano e um som que parecia carregar Albert King, Jimi Hendrix e bares esfumaçados dentro do mesmo amplificador.
O detalhe mais impressionante é que ele não ficou restrito ao culto de guitarristas. Stevie Ray Vaughan conseguiu colocar blues no rádio e na televisão em uma década que não parecia exatamente desenhada para isso. "Pride and Joy" e "Cold Shot" tinham raízes profundas, mas também eram canções com gancho, presença e uma confiança que passava do instrumento para o ouvinte sem pedir licença.
Perry destacou justamente essa capacidade de fazer algo novo dentro de um território limitado, conforme relembrou a Far Out: "É difícil trabalhar num espaço tão finito e fazer algo novo e interessante. Acho que é por isso que não existem tantas músicas novas de blues que soem frescas. Mas você não pode ter medo de tentar. Acho que Stevie Ray Vaughan foi um dos melhores guitarristas a tirar algo novo daquele espaço. Ele conhecia seus recursos, obviamente, e também tinha pago suas dívidas. Mas também escreveu muitas músicas legais que cruzaram para o território do rock."
A escolha de palavras importa. Perry não estava elogiando apenas a técnica de Vaughan, embora técnica ali sobrasse. O ponto era outro: transformar uma linguagem conhecida em algo vivo outra vez. No blues, onde as estruturas são antigas e os caminhos podem parecer estreitos, a diferença está em como o músico pisa no chão, ataca a nota, segura o silêncio e encontra uma canção dentro de três acordes que todo mundo já conhece.

Os dois primeiros discos de Vaughan mostram bem essa mistura. "Texas Flood" apresentou o guitarrista como uma força impossível de ignorar, enquanto "Couldn't Stand the Weather" confirmou que havia mais ali do que fogo instrumental. Mesmo faixas feitas para impressionar guitarristas conviviam com músicas capazes de alcançar um público maior. "Cold Shot", por exemplo, tinha groove, ironia e uma simplicidade que ajudava a furar a bolha.
Para Perry, isso provavelmente tinha valor especial porque o Aerosmith também construiu sua carreira em cima dessa ponte. A banda pegava elementos do blues e do R&B e os levava para um rock mais barulhento, sexual e radiofônico. Vaughan fez outro caminho, mantendo o blues mais à frente, mas com força suficiente para atravessar a fronteira do rock sem parecer visitante.
O blues podia ser uma linguagem antiga, mas não precisava virar peça de museu. Nas mãos certas, ainda podia soar perigoso, elegante e popular. Vaughan foi uma dessas mãos. E Perry, que sabia muito bem de onde vinha o próprio som, reconheceu quando alguém conseguiu fazer aqueles velhos acordes voltarem a morder.
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