O show nojento que Lemmy lembrou como um dos piores do Motörhead
Por Bruce William
Postado em 21 de junho de 2026
Lemmy sempre teve pouca paciência para separar o Motörhead em gavetas arrumadinhas. Para muita gente, a banda era metal. Para outros, tinha alma punk. Para ele, o importante era volume, velocidade, atitude e aquela sensação de que a música precisava bater antes de pedir licença. Só que essa proximidade com o punk nem sempre tornava os shows mais tranquilos.
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No fim dos anos 1970, a cena britânica vivia uma mudança violenta. O punk havia transformado clubes e casas de show em espaços de descarga elétrica, onde a raiva social, a provocação e o desejo de confronto faziam parte do pacote. Isso podia gerar noites memoráveis, mas também criava plateias hostis, imprevisíveis e, muitas vezes, insuportáveis para quem estava no palco.
O Motörhead ficou preso no meio dessa confusão. A banda conversava com o público punk pela velocidade e pela brutalidade, mas também atraía fãs de hard rock e metal. Em alguns lugares, essa mistura não produzia comunhão nenhuma. Produzia guerra de trincheira com jaqueta de couro, garrafa voando e saliva atravessando o ar.
Lemmy lembrou em uma fala publicada na Far Out um show no Roundhouse, em Londres, com The Damned e The Adverts. A ideia podia parecer ótima no papel: três bandas barulhentas, ligadas a públicos jovens e agressivos, ocupando o mesmo espaço. Na prática, segundo ele, a noite virou uma demonstração de como a convivência entre tribos podia desandar rápido.
"Eu não gosto de colocar rótulos nas coisas, mas, em termos de música e atitude, nós sempre fomos mais uma banda punk do que metal", disse Lemmy. "O respeito mútuo só ia até certo ponto. Fizemos um show no Roundhouse com The Damned e The Adverts, em que nossos fãs jogavam garrafas neles, e a turma deles cuspia na gente."
A lembrança piorava quando Lemmy conectava aquele tipo de comportamento a outra história envolvendo Joe Strummer, do Clash. "Pouco depois disso, algum desgraçado cuspiu direto na garganta de Joe Strummer, e ele pegou hepatite C", afirmou. A frase resume bem o nível de nojo que ele associava a certos shows punk daquele período.
A cusparada virou quase um símbolo grotesco daquela fase. Para parte do público, era provocação, rejeição ao estrelismo e quebra da distância entre artista e plateia. Para muitos músicos, era só uma porcaria mesmo. Angus Young, do AC/DC, também detestava esse comportamento e dizia que, quando alguém era atingido, a reação da banda podia ser partir para cima.
No caso do Motörhead, a situação era ainda mais irônica porque Lemmy não via sua banda como inimiga do punk. Ele reconhecia afinidade de atitude, energia e simplicidade. Mas havia uma diferença entre tocar com urgência e aceitar qualquer tipo de agressão como se fosse parte nobre da revolução.
Aquela noite no Roundhouse ficou como retrato de uma época em que os limites estavam sendo testados o tempo todo. O Motörhead podia sobreviver ao barulho, à velocidade, ao excesso e à sujeira. Mesmo assim, para Lemmy, havia shows em que a selvageria deixava de ser espírito rock and roll e virava apenas uma noite nojenta que ninguém precisava romantizar.
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