As cinco músicas eternas que completaram 60 anos, segundo Regis Tadeu
Por Gustavo Maiato
Postado em 21 de agosto de 2026
Regis Tadeu dedicou um vídeo a cinco canções que completaram seis décadas de existência - todas lançadas em 1965 e todas com status de clássico absoluto. Mais do que listar, o jornalista detalhou histórias de bastidor que explicam como cada uma nasceu.
Melhores e Maiores - Mais Listas
"(I Can't Get No) Satisfaction" - Rolling Stones
O riff mais famoso da banda nasceu de um sonho. Durante a terceira turnê americana, num quarto de hotel na Flórida, Keith Richards acordou no meio da noite com uma sequência de três notas na cabeça e teve presença de espírito para gravá-la num gravador cassete antes de voltar a dormir. Segundo Regis, a fita continha cerca de 15 segundos do riff e quase 30 minutos de ronco pesado.
Mick Jagger já tinha a frase-título na cabeça e completou a letra à beira da piscina do hotel - um texto que critica o consumismo, a alienação da vida moderna e a frustração sexual. A ironia maior está na sonoridade: Richards odiava o som distorcido do pedal fuzz e queria substituí-lo por uma seção de metais. Foi voto vencido pelo empresário Andrew Loog Oldham e pelo engenheiro David Hassinger. A gravação foi finalizada numa sessão de 18 horas ininterruptas no estúdio da RCA em Hollywood, e a faixa se tornou o primeiro número um internacional da banda.
"Yesterday" - The Beatles
Também nasceu de um sonho. Paul McCartney acordou com a melodia completa na cabeça num quarto nos fundos da casa da então namorada, Jane Asher, em Londres, e correu para o piano. Convencido de que havia plagiado alguém inconscientemente, passou meses perguntando a John Lennon, George Harrison, Ringo Starr e a qualquer um que cruzasse seu caminho se conheciam aquela melodia. Ninguém conhecia.
O título provisório era "Scrambled Eggs" - ovos mexidos - com uma letra descartável. A versão definitiva só veio em 1965, durante as filmagens de "Help!" na Escócia. Regis aponta que, embora McCartney negue, estudiosos dos Beatles associam a temática da perda à morte precoce de sua mãe, Mary, quando ele tinha 14 anos.
A gravação tem outro detalhe notável: John, George e Ringo não participaram. "'Yesterday' é, na verdade, uma faixa solo do Paul McCartney lançada num disco dos Beatles", observou Regis. Lennon ficou irritado e, anos depois, apontou o episódio como um dos estopins do desgaste entre os dois. O quarteto de cordas foi sugestão do produtor George Martin, que escreveu o arranjo em tempo recorde e gravou os instrumentos muito próximos dos microfones, criando a sonoridade intimista da faixa.
"I Got You (I Feel Good)" - James Brown
Para Regis, é a definição de funk antes que o mundo soubesse o que era funk. A música teve uma versão anterior gravada em 1964, chamada "I Found You", sem a urgência que a transformaria em clássico. A sessão definitiva aconteceu em maio de 1965 nos estúdios da RCA em Hollywood.
O jornalista descreve James Brown como cantor, dançarino, maestro, arranjador e "ditador" no estúdio, comandando os Famous Flames com gestos e gritos. O que diferencia a gravação é a economia de notas e a primazia do ritmo - guitarra arranhada, baixo encorpado, bateria quebrada e metais pontuando cada "I feel good". Os gritos e uivos característicos não são efeito de estúdio, mas energia bruta aprendida com os pregadores das igrejas batistas da Geórgia. A ênfase no primeiro tempo do compasso, segundo Regis, é o que pavimentou a base do funk.
"My Generation" - The Who
Escrita por Pete Townshend em 1965 a pedido de fãs da cena mod de um clube londrino, que pediram algo que representasse aquela geração. O verso "espero morrer antes de ficar velho" sintetiza a raiva de ser jovem e ignorado. Townshend já declarou que foi o único comentário social realmente bem-sucedido que fez na música.
Sobre a gagueira no vocal de Roger Daltrey, Regis apresentou duas versões: a de que o vocalista foi instruído pelo empresário a exagerar um traço que já tinha, para soar como um mod chapado de anfetamina; e a de que aconteceu por acidente, porque ele estava nervoso e não ouvia a própria voz nos fones. A BBC chegou a banir a música por considerar que ofenderia pessoas gagas. A faixa também traz um dos primeiros solos de baixo da história do rock, executado por John Entwistle, e a bateria de Keith Moon, que Regis descreve como alguém tentando destruir o estúdio.
"Quero Que Vá Tudo Pro Inferno" - Roberto Carlos
A representante brasileira da lista. Em 1965, o país vivia o auge da Jovem Guarda, com repertório dominado por versões de músicas estrangeiras. Roberto Carlos e Erasmo Carlos precisavam de material original com apelo universal, e a ideia da letra partiu de Erasmo.
O problema era a palavra "inferno". Em um Brasil conservador e sob ditadura militar, o título era um risco real de censura. Roberto bateu o pé - queria o impacto e a publicidade gratuita que a polêmica geraria. Deu certo. A música foi proibida em várias rádios, o que só aumentou a procura. Gravada nos estúdios da CBS no Rio de Janeiro, combina batida pop simples com arranjo de cordas e metais quase cinematográfico. Para Regis, é a prova de que um clássico não precisa reinventar a roda - basta saber lubrificá-la.
Confira o vídeo completo abaixo.
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