Quando os shows do Led Zeppelin passaram a ser criticados por algo que antes era só elogio
Por Bruce William
Postado em 20 de outubro de 2026
O Led Zeppelin construiu sua reputação nos palcos com apresentações intensas, improvisações e músicas que frequentemente ganhavam versões muito diferentes das gravações de estúdio. Mas, em 1977, quando o grupo realizou sua última grande turnê pelos Estados Unidos, aquela liberdade musical começou a incomodar uma parcela da crítica e até alguns fãs. Os concertos ultrapassavam três horas de duração e reservavam espaços enormes para solos individuais, acompanhados por efeitos de luz, fumaça e lasers.
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A situação chegou a um ponto curioso: assistir ao Led Zeppelin significava, em determinados momentos, acompanhar meia hora de improvisações de John Paul Jones nos teclados durante "No Quarter", outras tantas dezenas de minutos com John Bonham na bateria em "Moby Dick" e uma longa apresentação individual de Jimmy Page, que utilizava um arco de violino enquanto era cercado por uma pirâmide de lasers verdes. Para os admiradores, era a oportunidade de testemunhar músicos extraordinários explorando seus instrumentos. Para os críticos, havia momentos em que a música parecia ficar em segundo plano.
Uma resenha publicada pela revista britânica Record Mirror, em junho de 1977, depois de uma apresentação no Madison Square Garden, não demonstrou muita paciência com o espetáculo. Sob o título "O dirigível pesado volta a trombar", o texto reclamava que o grupo havia passado mais de três horas exercitando seus egos, com um solo de bateria interminável e intervenções de guitarra consideradas excessivas até para um músico da categoria de Page.
O New York Times também apresentou ressalvas àquela temporada em Nova York. Embora reconhecesse a qualidade de músicas como "Kashmir", o jornal criticou a dependência de efeitos visuais e considerou que havia excessos desnecessários. A opinião estava longe de ser unânime: outras resenhas da mesma turnê elogiaram a capacidade do quarteto de alternar momentos acústicos, improvisações e passagens de enorme intensidade.
Um relato preservado no site oficial do Led Zeppelin, referente ao show de 26 de junho de 1977, em Los Angeles, ajuda a compreender a divisão. O autor recordou que alguns espectadores já demonstravam impaciência com a quantidade de improvisações e preferiam ouvir mais músicas. Um amigo que havia assistido à banda em 1975 chegou a comentar que gostara mais daquela turnê justamente porque o grupo tocava um número maior de canções.
Havia também uma mudança no cenário musical. Enquanto o Led Zeppelin investia em espetáculos cada vez mais grandiosos, bandas como Ramones e Sex Pistols ajudavam a popularizar o punk, com músicas curtas e uma proposta que rejeitava boa parte dos excessos associados aos grandes nomes do rock. Os concertos do Zeppelin acabaram simbolizando, para alguns críticos, uma geração de grupos que parecia distante daquela simplicidade defendida pelos novos músicos.
A turnê de 1977 ainda foi marcada por apresentações irregulares, problemas nos bastidores e pelo desgaste dos integrantes, embora tenha produzido noites consideradas extraordinárias por muitos admiradores. Sua interrupção definitiva aconteceu em julho, após a morte de Karac, filho de Robert Plant. O Led Zeppelin retornaria aos palcos em 1979, mas a discussão sobre os excessos daquela fase permanece. O que para alguns era uma demonstração de liberdade musical, para outros havia se transformado num exercício de paciência.
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