Nenhum de Nós completa 40 anos e reafirma seu lugar na história do rock brasileiro
Por Sérgio Dall'Alba
Postado em 10 de outubro de 2026
De "Camila, Camila" aos mais de 2.500 shows, banda gaúcha construiu uma trajetória marcada por sucessos, reinvenção e uma conexão duradoura com diferentes gerações
Quatro décadas depois de subir pela primeira vez a um palco em Porto Alegre, o Nenhum de Nós chega aos 40 anos de carreira sem olhar apenas para o passado. A banda gaúcha celebra a marca em 2026 mantendo uma rotina de shows, revisitando canções que atravessaram gerações e mostrando que sua história continua sendo construída diante do público.

A primeira apresentação aconteceu em 5 de outubro de 1986, quando Thedy Corrêa, Carlos Stein e Sady Homrich ainda começavam a descobrir os caminhos que a nova banda poderia seguir. Quarenta anos depois, o grupo ultrapassou a marca de 2.500 apresentações ao vivo e se consolidou como um dos nomes mais longevos do rock brasileiro.
Um nome que nasceu entre amigos
A história começou em Porto Alegre, no efervescente cenário do rock gaúcho dos anos 1980. O nome Nenhum de Nós surgiu quase como uma brincadeira entre os integrantes originais, a partir das coincidências que existiam entre eles: nenhum enxergava bem, nenhum havia repetido de ano e nenhum havia prestado serviço militar.
A brincadeira acabou dando nome a uma das bandas mais importantes surgidas naquele período. O primeiro álbum, lançado em 1987, apresentou ao público uma banda que rapidamente encontraria sua identidade própria. E foi justamente uma música desse primeiro disco que mudaria tudo.
"Camila, Camila" colocou o Nenhum de Nós no mapa nacional
Lançada em 1987, "Camila, Camila" tornou-se o primeiro grande sucesso do grupo. A canção, inspirada em uma história real de violência contra uma mulher, chamou atenção não apenas pelo potencial radiofônico, mas também por abordar um tema que continua atual.
O sucesso levou o Nenhum de Nós para além do circuito gaúcho e abriu as portas para apresentações em outras regiões do país. A música também ganhou uma nova dimensão quando foi posteriormente gravada por Cazuza, embora hoje a canção na voz de Cazuza seja pouco lembrada. A que ficou foi a canção original.
Pouco depois, veio outro daqueles momentos que ajudam a explicar a permanência da banda na memória afetiva do público. Em 1989, o álbum Cardume trouxe "O Astronauta de Mármore", versão de "Starman", de David Bowie. A música tornou-se um dos maiores sucessos da carreira do grupo e ajudou a consolidar o Nenhum de Nós nacionalmente.
Mais do que uma banda dos anos 1980
Ser lembrado por grandes sucessos dos anos 1980 poderia ter transformado o Nenhum de Nós em uma banda presa à nostalgia. A trajetória mostrou justamente o contrário. Nos anos seguintes, o grupo continuou produzindo discos e experimentando diferentes sonoridades. Extraño, de 1990, aproximou ainda mais o rock da música gaúcha, enquanto trabalhos posteriores ampliaram o repertório e ajudaram a construir uma carreira que não ficou restrita aos primeiros hits.
Em 1994, o grupo lançou Acústico ao Vivo, gravado no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. O trabalho se tornou um marco na carreira e recebeu Disco de Ouro. Anos depois, outros registros ao vivo reforçariam uma característica que acompanha a banda desde o início: a força de suas músicas quando apresentadas diante do público.
Na segunda metade dos anos 1990, vieram álbuns como Mundo Diablo e Paz e Amor. Este último trouxe músicas que também se tornariam importantes na trajetória do grupo, entre elas "Você Vai Lembrar de Mim" e "Paz e Amor".
A partir dos anos 2000, o Nenhum de Nós continuou lançando trabalhos inéditos, discos ao vivo e projetos acústicos. A banda chegou a realizar uma das maiores turnês de sua carreira entre 2007 e 2010, com cerca de 350 apresentações pelo Brasil e também no exterior.
Quatro décadas e algumas mudanças
A longevidade também trouxe mudanças na formação. Veco Marques passou a integrar a banda ainda no início dos anos 1990 e se tornou peça importante na identidade sonora do grupo. Em 1996, João Vicenti foi oficialmente incorporado à formação, contribuindo com teclados e acordeom durante uma fase marcante da carreira.
A morte de João Vicenti, em março de 2024, representou uma perda especialmente significativa. Foi a primeira vez que a banda perdeu um integrante desde sua formação.
Depois de quase três décadas como quinteto, o Nenhum de Nós retomou o formato de quarteto, com Thedy Corrêa, Carlos Stein, Sady Homrich e Veco Marques, acompanhado por Estevão Camargo no baixo e vocais de apoio.
2.500 shows: uma marca que poucos alcançaram
Se os 40 anos já seriam suficientes para celebrar a história da banda, 2026 trouxe outro número impressionante: 2.500 shows.
A marca foi alcançada em junho, justamente em Belo Horizonte. No dia 12 daquele mês, o Nenhum de Nós subiu ao palco do BeFly Minascentro para uma apresentação especial que reuniu as comemorações das quatro décadas de carreira e do 2.500º show.
A escolha de Belo Horizonte para a apresentação de número 2.500 não foi por acaso. A banda já havia comemorado os números 1.000, 1.500 e 2.000 em outras cidades e decidiu transformar a capital mineira em cenário de mais um capítulo importante de sua história.
No repertório, sucessos como "Camila, Camila", "O Astronauta de Mármore", "Você Vai Lembrar de Mim", "Paz e Amor" e "Amanhã ou Depois" continuam funcionando como uma espécie de ponte entre diferentes gerações de fãs.
Uma história que ainda está sendo escrita
Chegar aos 40 anos não significa, para o Nenhum de Nós, encerrar um ciclo. A banda continua na estrada e mantém apresentações pelo Brasil em 2026, além de seguir celebrando a trajetória construída desde aquele primeiro palco de Porto Alegre.
A dimensão dessa história também pode ser medida pela distância percorrida. Ao longo das décadas, o grupo levou seu repertório para diferentes regiões do Brasil e também para outros países, incluindo apresentações no Japão e na China. Em 2024, mesmo diante da perda de João Vicenti, foram mais de 70 shows realizados, incluindo duas apresentações no Japão.
Quatro décadas depois, talvez o maior feito do Nenhum de Nós não seja apenas ter sobrevivido às transformações da indústria musical ou mantido sucessos dos anos 1980 vivos. É ter conseguido fazer com que músicas criadas em outra época continuassem encontrando significado em novas gerações.
Entre o rock gaúcho dos anos 1980 e os palcos brasileiros de 2026, o Nenhum de Nós construiu uma trajetória baseada em algo mais difícil do que simplesmente fazer sucesso: permanecer relevante.
E, aos 40 anos, a banda ainda parece ter muitos capítulos pela frente.
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