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Corrosion of Conformity encara perdas e mudanças em "Good God / Baad Man"

Resenha - Good God / Baad Man - Corrosion Of Conformity

Por
Postado em 31 de outubro de 2026

Enquadrar o Corrosion of Conformity em uma única gaveta sempre foi complicado. Quem conheceu a banda por "Eye for an Eye" (1984) e "Animosity" (1985) encontrou um dos nomes importantes do Hardcore norte-americano. Já o público que chegou por "Blind" (1991), "Deliverance" (1994) ou "Wiseblood" (1996) conheceu um grupo que havia acrescentado Heavy Metal, Doom, Blues e Southern Rock à sua base punk. É sempre interessante citar estas mudanças e facetas diferentes nas bandas, é como se existissem diversas bandas dentro de uma. Caso o leitor tenha percebido, gosto de fazer estas comparações entre as diferentes fases, e no caso do C.O.C., isso não é diferente. Todas essas mudanças poderiam ter deixado a discografia sem uma direção clara, mas aconteceu o contrário: o Corrosion of Conformity construiu justamente sua personalidade ao nunca permanecer muito tempo no mesmo lugar, ou seja, sempre mudando e trabalhando suas influências.

Corrosion Of Conformity - Mais...

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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Essa característica volta a aparecer em "Good God / Baad Man", décimo primeiro álbum de estúdio do grupo, lançado em abril pela Nuclear Blast e no Brasil pela Shinigami Records. O trabalho encerra um intervalo de oito anos desde "No Cross No Crown" e marca uma reorganização importante na formação. O baterista e fundador Reed Mullin morreu em 2020, enquanto o baixista Mike Dean, outro integrante original, deixou a banda em 2024. Com isso, Pepper Keenan e Woody Weatherman passaram a ocupar o centro das decisões musicais.

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Para completar o grupo, os dois chamaram Bobby "Rock" Landgraf para o baixo e Stanton Moore para a bateria. Landgraf já havia trabalhado com Pepper no Down, enquanto Moore não era exatamente uma novidade para os fãs: foi ele quem gravou "In the Arms of God", em 2005. Seu retorno para o álbum fez bastante diferença. A bateria é um dos elementos que mais chamam a atenção ao longo do disco, não apenas pela força, mas principalmente pela maneira como Moore trabalha as viradas e os acentos sem deixar as músicas engessadas. Moore, entretanto, apenas gravou o álbum, sendo substituído posteriormente por Nick Shabatura.

Pepper e Woody passaram cerca de dois anos compondo no Mississippi, gravando ideias em quatro canais e ouvindo velhas influências como Discharge, Motörhead, ZZ Top, Neil Young e Black Sabbath. As escolhas ficam evidentes quando as músicas começam a tocar. A velocidade herdada do Punk surge em "Gimme Some Moore", os riffs mais lentos denunciam a velha admiração pelo Sabbath, o balanço do ZZ Top atravessa boa parte da segunda metade e até o lado acústico de Neil Young encontra espaço próximo ao final. É uma salada musical e tanto.

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A produção, a engenharia e a mixagem ficaram sob responsabilidade de Warren Riker, com masterização de Ted Jensen. O álbum foi registrado no Blak Shak Studios, no Mississippi, no Dockside Studios, na Louisiana, e no estúdio particular de Barry Gibb, em Miami. O som conserva o vazamento entre os instrumentos e não procura esconder completamente os ruídos provocados por amplificadores tocados em alto volume. Isso permite ouvir melhor a interação entre os músicos, sobretudo quando uma guitarra acompanha a outra ou quando a bateria altera discretamente o rumo de uma passagem.

Dividido em duas partes, o álbum reúne 14 faixas e dura aproximadamente 67 minutos, quase como um épico. O bloco chamado "Good God" possui seis músicas e concentra boa parte dos momentos mais agressivos. "Baad Man", com oito composições, segue por caminhos mais ligados ao Southern Rock, ao Blues, ao Funk e à psicodelia. A separação ajuda a organizar o repertório, embora as duas partes não sejam completamente opostas. Há passagens lentas no primeiro bloco e músicas bastante pesadas no segundo. Quando vi a duração, confesso que imaginei que o Corrosion of Conformity poderia ter colocado músicas demais no disco. Álbuns longos costumam exigir uma atenção que nem sempre as próprias composições conseguem sustentar. Depois de algumas audições, minha impressão ficou dividida. Existem trechos que poderiam ser encurtados, mas a variedade impede que tudo comece a soar igual. O formato funciona melhor quando as duas partes são ouvidas separadamente, respeitando a divisão sugerida pelo grupo.

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"Good God? / Final Dawn" começa com uma introdução demorada, deixando o riff principal aparecer aos poucos. Quando a banda finalmente entra por completo, o que ouvimos é um Corrosion of Conformity pesado e muito bem conduzido pela bateria. A voz do quase sessentão Pepper está mais rouca e desgastada, algo natural depois de tantos anos, mas continua combinando perfeitamente com as guitarras graves e com a sujeira que acompanha a gravação. As linhas de guitarra são muito boas". "You or Me" investe no groove e alterna momentos mais diretos com passagens psicodélicas, dando a Stanton Moore liberdade para trabalhar fora de uma batida convencional. Há uma pegada meio Sabbath em sua parte final, novamente com as guitarras faiscando.

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O passado Hardcore reaparece com mais clareza em "Gimme Some Moore". A participação de Al Jourgensen e Monte Pittman nos vocais de apoio acrescenta agressividade, mas a grande qualidade da faixa está em sua simplicidade. O riff vai direto ao ponto, a bateria segue no ritmo e Pepper canta como se a música tivesse sido escrita em algum ensaio dos primeiros anos da banda. É uma das composições mais rápidas do trabalho. Muito boa! "The Handler" troca a velocidade por um riff mais lento. A presença do Black Sabbath é clara, tanto na maneira como as guitarras avançam quanto no uso do wah-wah. Mesmo assim, a música não parece deslocada ou presa aos anos 1970. Woody e Pepper já trabalharam esse tipo de influência tantas vezes que ela se tornou parte natural de sua maneira de compor.

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A curta e esquisita instrumental "Bedouin's Hand" prepara a entrada de "Run for Your Life", que ultrapassa nove minutos. O convidado Jason Everman, ex-integrante do Nirvana e do Soundgarden e posteriormente membro das Forças Especiais do Exército norte-americano, participa com um trecho falado. A música possui bons riffs e solos e o pique dela é mais Doom, arrastada.

A segunda parte começa com "Baad Man", que troca a seriedade do bloco anterior por uma levada mais, digamos, "debochada". O baixo assume uma função importante e as guitarras seguem uma linha próxima do Funk Rock dos anos 1970. Pepper utilizou na gravação uma Stratocaster de 1958 que pertenceu a Maurice Gibb e foi usada em "Jive Talkin'", dos Bee Gees. A curiosidade combina com uma música que dificilmente seria associada ao lado mais pesado do Corrosion of Conformity. A letra ironiza o sujeito que procura convencer todo mundo de que é perigoso, embora suas atitudes indiquem exatamente o contrário. Pepper interpreta esse personagem com malícia, sem exagerar na atuação. É uma faixa divertida e uma das que melhor aproveitam a proposta de "Baad Man".

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"Lose Yourself" se aproxima mais do período de "Wiseblood", principalmente pelo riff e pelo refrão fácil de acompanhar. Flannery Keenan participa dos vocais adicionais, criando um contraste interessante com a voz de Pepper. Entre as músicas da segunda metade, é uma das que chegam mais rapidamente ao ouvinte, sem depender de longas introduções ou partes instrumentais. Depois da curta instrumental "Mandra Sonos", aparece "Asleep on the Killing Floor", um dos grandes destaques do álbum. A faixa comprova que o lado "Baad Man" não abandonou o Metal. Bobby Landgraf e Stanton Moore conduzem uma cozinha forte, enquanto as guitarras entram com riffs curtos e bem marcados. Em meio a tantos discos plastificados e que soam artificiais, ouvir a bateria de Moore nesta faixa é uma benção.

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"Handcuff County" segue para o boogie e o Blues Rock, com ruídos de trem, sirenes e participação de Jenny Green McDaniel. É uma música simples e gostosa de ouvir, eficiente, sustentada mais pelo balanço do que pela agressividade. Entre todas as faixas, talvez seja uma das que mais claramente remetam ao trio ZZ Top. "Swallowing the Anchor" volta a passar dos seis minutos. O uso de fuzz, cowbell (more cowbell, please!) e riffs repetidos faz com que a música pareça saída de um ensaio prolongado. Novamente, a bateria tem grande destaque.

"Brickman" quebra essa sequência com pouco mais de três minutos de violão e voz. Não é uma balada tradicional e tampouco procura criar um grande momento dramático. Sua melodia é simples e chega na hora certa para impedir que a reta final permaneça presa ao mesmo tipo de groove. Pepper canta muito bem, e é a mais calma do disco. O encerramento fica por conta de "Forever Amplified", composta em homenagem a pessoas próximas da banda que morreram nos últimos anos. Entre elas estão Reed Mullin e o ator Rio Hackford, além de familiares falecidos durante o período de preparação do álbum. A participação de Anjelika "Jelly" Joseph, conhecida por seu trabalho com o Galactic, acrescenta elementos de Gospel à parte final. Há uma "montoeira" de riffs e solos dispersos pela música, que encerra o disco de forma deveras inspirada.

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"Good God / Baad Man" não é um trabalho perfeito, e creio eu, não deveria ser intenção dos músicos, afinal, depois de 40 anos, não há muito o que provar. Há músicas que poderiam ser um pouquinho mais curtas. Por outro lado, o disco possui ótimos riffs, uma bateria excelente, produção em cima e muita inspiração. A capa também merece um ótimo destaque, um belo trabalho de Scott Guion, representando muito bem a dualidade do "bem" e do "mal".

Provavelmente ouvirei mais vezes o álbum, dividido entre algumas faixas dos lados "Good God" e "Baad Man". A primeira oferece uma sequência mais pesada e agressiva; a segunda é mais solta e possui alguns dos melhores momentos do repertório. Pepper Keenan e Woody Weatherman continuam compondo bons riffs, enquanto Bobby Landgraf e Stanton Moore ajudaram a banda a seguir adiante sem apagar as diferenças trazidas pela nova formação. O disco possui qualidade suficiente para ocupar uma boa posição em uma discografia que já atravessa mais de quatro décadas.

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Sobre Maicon Leite

Maicon Leite é assessor de imprensa na Wargods Press, colaborador na revista Roadie Crew e um dos autores do livro Tá no Sangue! - A História do Rock Pesado Gaúcho, dentre outros projetos e publicações.
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