O ocultismo britânico ganhou novos contornos com "Woodland Rites" do Green Lung
Resenha - Woodland Rites - Green Lung
Por Maicon Leite
Postado em 22 de outubro de 2026
Antes de mais nada, devo confessar meu erro em não conhecer a fundo o Green Lung até ouvir "Woodland Rites". Não que eu não soubesse da existência da banda, mas, é impossível dar conta de ouvir tudo o que é lançado. Dentro do gênero da banda, que pode ser caracterizado como Doom Metal e até mesmo como o famigerado Occult Rock, temos uma série de formações que se destacaram de 2010 para cá, como o Ghost, Blood Ceremony, Orchid, The Devil's Blood e uma série de outras. Foi um autêntico frisson em cima do "rock das bruxas". Bons tempos!

Quando "Woodland Rites" chegou às prateleiras e plataformas de streaming em março de 2019, a cena europeia já estava abarrotada de bandas tentando emular os riffs arrastados do Black Sabbath em meio a temáticas ocultistas ou desérticas. O Green Lung, no entanto, olhou para a própria terra. O quinteto londrino trocou a areia de um possível Desert Rock pelo musgo e a psicodelia árida pelo folclore rural da Inglaterra, produzindo um disco de estreia que soa basicamente como uma velha fita cassete de Heavy Metal setentista encontrada em uma cabana de madeira quase apodrecida no meio da floresta. Dá até para sentir o cheiro.
O grande diferencial do álbum não é, obviamente, reinventar a roda, mas a forma como a banda trabalha as suas referências. O som característico do Doom está presente em cada compasso, cortesia da guitarra de Scott Black, sempre afiada e carregada de fuzz. Porém, a roupagem instrumental foge da lentidão excessiva e traz uma boa influência de Classic Rock e das guitarras dobradas da NWOBHM. Há também uma forte referência aos também ingleses do Cathedral em alguns riffs.
A adição do tecladista John Wright foi o acerto principal para essa sonoridade. O som do órgão Hammond permeia todo o disco, trazendo ecos diretos de Jon Lord no Deep Purple e Ken Hensley no Uriah Heep. Essa instrumentação cria uma atmosfera que envolve o ouvinte sem precisar apelar para o peso puro e simples. Tudo muito britânico, até agora.
A introdução instrumental "Initiation" prepara o terreno para a faixa-título, "Woodland Rites", que funciona como um cartão de visitas. O riff principal dá o tom, enquanto o refrão mostra a versatilidade do vocalista Tom Templar. Sua performance é limpa, teatral e cativante, atuando quase como um ator de um filme de terror clássico dos estúdios Hammer, outra grande referência para o estilo e, curiosamente, tambem nascida em solo inglês. Além disso, no decorrer do álbum e na própria busca por referências, temos alguns ecos dos contemporâneos estadunidenses do Acid Witch aqui e acolá.
A sequência traz "Let the Devil In", sem dúvida um dos destaques do disco. Com uma estrutura direta e um refrão feito para ser cantado em uníssono, a música soa puramente acessível. A temática aborda o paganismo e a bruxaria de uma forma mais festiva, abandonando o clichê sombrio para focar em uma espécie de libertação profana. A própria capa do disco mostra essa característica muito bem, cuja belíssima ilustração foi assinada por Richard Wells.
O miolo do disco mantém a seus destaques. "The Ritual Tree", que abre com um climão, tem um andamento cadenciado, linhas de baixo muito precisas gravadas por Joseph Ghast e uma letra inspirada no famoso mistério criminal não resolvido de "Bella in the Wych Elm", conectando a música com as lendas e a história real britânica. Logo depois, "Templar Dawn" despeja o riff mais pesado de todo o trabalho, abrindo com um sample de áudio do terror espanhol "A Noite do Terror Cego" e flertando abertamente com a crueza do Doom tradicional.
O ritmo do álbum muda com a chegada de "May Queen". A faixa pisa ainda mais no freio, retira a distorção das guitarras na maior parte do tempo e deixa os sintetizadores e a voz de Templar em total evidência. É uma espécie de balada calma e obscura, quase um Blues, tematicamente focada em rituais folclóricos que mostra a capacidade do Green Lung de trabalhar com diversas sonoridades.
No geral, "Woodland Rites" é um disco instigante, focado e deveras inspirado. São pouco mais de quarenta minutos muito bem amarrados, com uma produção orgânica que destaca cada um dos instrumentos de forma equilibrada. Após um EP e singles, o álbum marcou a entrada do Green Lung na indústria musical cravando uma identidade sonora fortíssima, provando que as lendas de feitiçaria e os riffs de guitarra pesados ainda formam uma combinação imbatível, por mais que tenham sido utilizadas a exaustão por uma tonelada de bandas. De lá para cá o grupo já lançou mais três álbuns, dentre eles recente "Necropolitan", lançado no dia 11 de setembro.

Outras resenhas de Woodland Rites - Green Lung
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Novo disco de Tony Iommi mantém acesa a chama do Sabbath, segundo resenha da Classic Rock
Moyses Kolesne manda recado a quem reproduz discursos de Lemmy sobre política
Devido à demanda, U2 anuncia data extra no Brasil
Overkill é anunciado como headliner do Overload Beer Fest, que será realizado em março
Como Jason Newsted criou o riff de "Blackened" do Metallica e a reação de James e Lars
"Nevermind" (Nirvana) ultrapassa "Back in Black" (AC/DC) e "Dark Side..." (Pink Floyd) em vendas
O roqueiro brasileiro que se queimou com Jô Soares após falar mal de Ayrton Senna
Rod Smallwood desconversa ao ser perguntado sobre planos futuros do Iron Maiden
As 5 melhores músicas do Iron Maiden com Paul Di'Anno nos vocais, segundo o Ultimate Guitar
Fleetwood Mac anuncia seu primeiro documentário oficial, "The Chain"
O lado mais egoísta da humanidade inspirou a história de um dos maiores clássicos de Dio
Ozzy sabia que estava morrendo, segundo Sharon Osbourne
A música dos Ramones que provavelmente seria "cancelada" nos dias atuais
"Stairway to Heaven" nem "Comfortably Numb"? O solo que Slash coloca acima de todos
Sharon Den Adel diz que próximo disco do Within Temptation é sombrio, pesado e emotivo
A Magia Ancestral do Green Lung: O Impacto Monumental de "Woodland Rites"
A única banda que Slash admite que consegue ouvir a qualquer hora; "ainda são meus favoritos"
Como foi a entrada de Melissa Reese no Guns N' Roses
Iron Maiden: os fãs mais insuportáveis em lista da MTV
Metallica: And Justice For All é um álbum injustiçado?
Fotos de Infância: Cliff Burton, do Metallica
O significado de "voz que gira bailando no ar" em "Tente Outra Vez" de Raul Seixas


