A Tempestade (ou O Livro dos Dias): 30 anos da despedida
Resenha - Tempestade - Legião Urbana
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 10 de outubro de 2026
Nota: 8 ![]()
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Neste 11 de outubro completam-se 30 anos da partida de Renato Russo para o além vida, e resolvemos revisitar "A Tempestade ou O Livro dos Dias", o último álbum da LEGIÃO URBANA lançado com ele ainda entre nós. O disco chegou às lojas em 20 de setembro de 1996, pela EMI-Odeon, e Renato morreu três semanas depois. Gravado entre janeiro e junho daquele ano nos estúdios AR, no Rio, com produção de Dado Villa-Lobos, o álbum foi feito no ritmo que a saúde do vocalista permitia (a ideia original era um disco duplo, e as sobras viraram o póstumo "Uma Outra Estação", de 1997). Várias faixas saíram com vozes-guia (aquela gravação provisória que o cantor faz só pra banda se orientar no estúdio e que, normalmente, vai pro lixo antes do disco sair), porque não havia mais tempo nem força pra regravar. E dá pra ouvir isso.
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O disco inteiro não é melancólico, mas a enorme carga de dor, de tristeza e de uma depressão genuína dá o tom da obra. Não é a melancolia estilizada de quem escreve canção triste porque fica bonito. É coisa de verdade. Não por acaso, este é o único álbum da banda sem o lema Urbana Legio Omnia Vincit no encarte. Pelo jeito, naquela altura ninguém ali estava muito convencido de que a LEGIÃO URBANA vencia tudo.
Aqui também temos Dado e Bonfá experimentando por caminhos cada vez mais diferentes e mostrando que o tempo de violão ao redor do fogo ficou pra trás, bem pra trás (com todo o respeito a "Música P/ Acampamentos", que continua servindo muito bem a acampamentos). E Renato canta como nunca, mesmo na atonalidade da pesada "Natália" ou nos lamentos de "Longe do Meu Lado", "Mil Pedaços" e "Quando Você Voltar". Era pra ser rascunho, sim. Mas é voz de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
Quando dizemos que o álbum tem alguns poucos bons momentos, não estamos falando da qualidade das canções, mas de que há canções que não soam como feitas por quem está à beira da morte e quer morrer. "Soul Parsifal" é a campeã: uma legítima "Love Song" do THE CURE plantada no meio de um disco majoritariamente pra baixo. Robert Smith assinaria embaixo, e talvez até sorrisse (o que, convenhamos, já seria notícia). "Dezesseis", apesar do tema complicado, também se revela bonita. "Leila" e "1º de Julho" aparecem com letras pra cima e bons trabalhos de violão. Essa última é a cara da CÁSSIA ELLER, e não é coincidência, porque ela a gravou antes da própria LEGIÃO URBANA.
Instrumentalmente, o disco surpreende. "L'Avventura" é um achado, "Música de Trabalho" abre com uma introdução puxada no baixo que já diz a que veio, e em "Música Ambiente" Dado tenta (e consegue) soar como seu ídolo THE EDGE, com direito a todo aquele brilho de delay que a U2 transformou em marca registrada. "Soul Parsifal" volta a aparecer aqui, porque merece, assim como a abertura com "Natália" e a própria "Dezesseis". "O Livro dos Dias" tem Bonfá tentando algo diferente numa bateria eletrônica, e a intenção é boa, mas o resto da música não ajuda. Fica a tentativa.
Agora, o tal ponto realmente baixo que prometemos lá em cima: "Aloha". É boba. Simples assim. Num álbum de 67 minutos, que já pede fôlego do ouvinte, ela poderia tranquilamente ter ficado de fora (ou ido parar no disco seguinte, junto com as outras sobras). Não estraga o pega, mas é aquela parada no posto de estrada onde ninguém precisava parar.
No fim das contas, "A Tempestade" é um disco difícil, longo e doído, e é justamente por isso que funciona. Não é o álbum que você coloca pra animar o churrasco (a não ser que o churrasco esteja muito errado). É o registro de uma banda tocando em volta de alguém que estava indo embora, e de um cantor que, mesmo assim, entregou algumas das melhores interpretações da carreira. Trinta anos depois, continua pesado. Continua bonito também. "Bye, bye bye, Renato. Renato, bye bye. Bye bye, Renato".
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