Badlands: a "treta impressa" entre Ray Gillen e Jake E. Lee na Kerrang
Por Igor Miranda
Postado em 04 de dezembro de 2016
O Badlands surgiu como um dos supergrupos mais promissores do hard rock oitentista. A banda tinha uma verdadeira escalação de craques: Ray Gillen (ex-Black Sabbath e Phenomena) nos vocais, Jake E. Lee (ex-Ozzy Osbourne) na guitarra, Greg Chaisson no baixo e Eric Singer (ex-Black Sabbath e futuro integrante do Kiss e Alice Cooper) na bateria.
Apesar de competentes, os músicos também tinham egos fortes. Os problemas começaram a surgir quando o disco de estreia, lançado em 1989, não teve o desempenho esperado pela gravadora Atlantic. Eric Singer saiu da banda e Jeff Martin (ex-vocalista do Racer X) entrou como baterista.
Cientes de que a performance comercial do disco de estreia não foi tão boa, os músicos começaram a trabalhar em "Voodoo Highway", segundo álbum do Badlands. Foi aí que tudo piorou. A Atlantic pediu que músicas fossem feitas com compositores profissionais, como Desmond Child ou Holly Knight. Eles se negaram e entraram em conflito com a gravadora.
Nesse ínterim, Ray Gillen começou a falar diretamente com a Atlantic. Ele reclamou aos executivos que havia feito três ou quatro músicas que eram "hits em potencial", mas os demais músicos não queriam gravá-las. Jake E. Lee não levou na boa a atitude de Gillen e o clima ficou péssimo.
Ainda assim, eles continuaram a trabalhar juntos e "Voodoo Highway", enfim, foi lançado em 1991. O desempenho comercial do álbum foi ainda pior. O quarteto embarcou em uma curta turnê americana antes de partir para o Reino Unido.
Os desentendimentos só aumentaram, de modo que toda a banda estava contra Ray Gillen naquele momento. Até que, semanas antes da turnê partir para o Reino Unido - o primeiro show seria no Astoria, em Londres, Inglaterra -, Jake E. Lee concedeu uma polêmica entrevista à revista Kerrang!, publicada em sua edição 399.
O músico afirmou, durante a entrevista, que Ray Gillen havia sido demitido. Ainda segundo ele, a vocalista Debby Holiday, cantora de raízes soul da banda Stiletto, ocuparia o posto para a turnê europeia.
Jake E. Lee usou a maior parte da entrevista para disparar críticas contra Ray Gillen. O guitarrista disse que as composições que Gillen alegava serem "hits em potencial" eram apenas "uma cópia do Whitesnake" e que o cantor já havia forçado o cancelamento de um show graças a "uma bolha no pescoço".
Não localizei o scan completo da entrevista, mas a primeira página está disponível abaixo:
Entretanto, a curiosidade principal da entrevista é que Ray Gillen, aparentemente, não sabia que havia sido demitido. E, no fim das contas, a própria banda teve que recuar com a decisão de substituí-lo, visto que, segundo relatos, a rejeição dos fãs a qualquer cantor que não fosse Gillen era imensa.
No fim das contas, Ray Gillen fez o show com o Badlands no Astoria. E não foi nada legal: no meio da apresentação, Gillen pegou uma revista Kerrang!, com a entrevista de Jake E. Lee, e negou todas as acusações ali presentes, uma a uma.
Além disso, o clima durante o show era péssimo. Os músicos mal interagiram entre si - em especial, Ray Gillen, que se manteve isolado dos demais ao longo da performance. A própria Kerrang! publicou, em sua 400ª edição, uma resenha sobre o concerto, com o título "Electric funeral", em provável menção ao fim do Badlands que tão logo era previsto para ocorrer.
Na edição seguinte da revista Kerrang!, Ray Gillen deu a sua própria versão sobre todos os fatos explicitados por Jake E. Lee anteriormente. Além disso, aproveitou a ocasião para fazer novas acusações a Lee.
Gillen revelou que só fez os shows na Inglaterra porque o promotor do evento "implorou a ele". Disse, também, que a "bolha" no pescoço que fez outro show ser cancelado, no passado, era, na verdade, um cisto. Negou que tenha falado que suas composições eram "hits em potencial" - eram apenas "muito boas". E afirmou, ainda, que não foi demitido: ele mesmo quis sair.
O cantor ainda chamou Jake E. Lee de preguiçoso - "os outros guitarristas com quem trabalhei, Tony Iommi e John Sykes, queriam compor todos os dias e o sucesso deles explica o motivo pelo qual isso é bom". E, por fim, disse que canta muito melhor do que David Lee Roth, mas que Lee jamais conseguiria se equiparar a Eddie Van Halen - "se conseguisse, estaria fazendo boas músicas", comentou.
Ray Gillen cumpriu as datas restantes da turnê e, por fim, acabou demitido. John West (futuro Royal Hunt) foi convocado para seu posto, mas não vingou: o Badlands foi dispensado da Atlantic e decretou o seu fim em 1993. "Dusk", disco feito a partir de demos da banda registradas entre 1992 e 1993, foi lançado, somente no Japão, em 1998.
Jake E. Lee investiu em sua carreira solo em marcha lenta - foram somente quatro discos lançados entre 1996 e 2008 e nenhuma turnê. Só voltou aos holofotes após CD e turnê do Red Dragon Cartel, mas nada ao nível do passado. Greg Chaisson gravou um trabalho solo em 1994 e registrou participações em outros álbuns, mas saiu do mercado da música no fim da década e, hoje, é professor de educação física. Jeff Martin, por sua vez, reformou o Racer X entre 1999 e 2002 e migra por vários projetos.
A carreira que parecia mais promissora fora do Badlands era a de Ray Gillen. O músico entrou no Sun Red Sun, projeto capitaneado por Bobby Rondinelli. Gravou quatro faixas do álbum de estreia do grupo, mas sua saúde já estava debilitada: Gillen era portador do vírus HIV.
O rumor de que Gillen tinha HIV corria desde meados de 1990, mas foi, enfim, divulgado em 1993, quando o cantor estava perto da morte. Ele faleceu em 1° de dezembro de 1993, por complicações geradas em decorrência da Aids. Curiosamente, John West também substituiu Ray no Sun Red Sun.
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