Jamiroquai - Rock, funk, soul, disco e muito groove em São Paulo
Resenha - Jamiroquai (Nubank Parque, São Paulo, 13/09/2026)
Por André Gomes da Silva
Postado em 18 de setembro de 2026
O último domingo, 13 de setembro, foi de Rock, funk, soul, disco e muito groove em São Paulo. Depois de oito anos, o Jamiroquai voltou à capital paulista e encontrou um público disposto a curtir e dançar do começo ao fim, ainda que chuva não tenha parado de cair por qualquer instante.

Com Jay Kay à frente, a banda apresentou um setlist de duas horas com 12 músicas que percorreu diferentes momentos da carrreira, começando com "(Don't) Give Hate a Chance", passando por "Little L", "Seven Days in Sunny June", "Space Cowboy", "Alright" e "High Times", até chegar à sequência matadora formada por "Canned Heat", "Cosmic Girl", "Love Foolosophy" e "Virtual Insanity". O repertório equilibrado mostrou que o Jamiroquai ainda consegue soar como uma banda viva, e não como uma atração presa aos anos 90.

Um dos momentos mais interessantes foi justamente "High Times", música tocada pela primeira vez desde 2018. Já "Space Cowboy" veio acompanhada de uma brincadeira de Jay Kay sobre voltar a 1994, arrancandouma reação imediata da plateia. A partir daí, o show ganhou ainda mais força. "Canned Heat" e "Cosmic Girl" fizeram o público transformar o estádio em uma enorme pista de dança, enquanto "Love Foolosophy" preparou o terreno para o inevitável encerramento com "Virtual Insanity". A execução também mostrou por que o Jamiroquai sempre foi muito mais do que Jay Kay: a cozinha perfeita entre o baixo e bateria, teclados, guitarra e percussão funcionaram com uma precisão impressionante, mantendo aquele tipo de groove que parece simples até o momento em que se tenta reproduzi-lo.

Nesse conjunto, o brasileiro Fabio de Oliveira teve papel importante. Filho de brasileiros e criado em Londres, o percussionista integra a atual formação da banda e trouxe uma presença particularmente interessante para os shows brasileiros (inclusive em seu solo com uma pegada de escola de samba). Sua percussão acrescenta camadas e dinâmica aos arranjos sem transformar o instrumento em mero elemento decorativo. Em uma banda cuja música depende tanto de ritmo e balanço, seu trabalho ajuda a manter a pulsação do espetáculo que fica mais especial com a plateia brasileira. Não foi apenas uma participação simbólica por suas origens, Oliveira mostrou no palco a importância da percussão para o som do Jamiroquai (além de mostrar que os percussionistas brasileiros são admirados mundo a fora. Vide Paulinha da Costa, Airto Moreira e tantos outros ainda desconhecidos no Brasil).

Jay Kay também reservou alguns momentos para conversar diretamente com o público. Em determinado momento, agradeceu aos fãs que enfrentaram a chuva durante a apresentação e antes do final ainda fez um discurso que deu ao encerramento um peso diferente. O vocalista chamou atenção para um mundo em que políticos tentam exercer controle por meio de guerras e para os efeitos de um avanço tecnológico que muitas vezes parece escapar ao controle humano. A fala serviu como uma ponte direta para "Virtual Insanity", música lançada há 30 anos e continua dialogando com o presente, infelizmente. A letra e o conceito da canção, que já pareciam uma espécie de alerta futurista em 1996, ganharam outro significado diante de um mundo cada vez mais dominado por tecnologia, conflitos e uma realidade digital que há três décadas parecia ficção científica.

Jay Kay pode ter envelhecido e estar com barba e cabelos grisalhos, a formação pode ter mudado e o mundo ao redor mudou muito, mas o groove permanece intacto. O show em São Paulo foi, ao mesmo tempo, uma viagem pela memória e um lembrete de que algumas músicas conseguem atravessar gerações porque ainda têm algo a dizer. E no caso do Jamiroquai, felizmente ainda dá para pensar sobre o futuro enquanto se dança.
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