O verdadeiro traidor do movimento que fez um dos primeiros hits do rock nacional anos 80
Por Gustavo Maiato
Postado em 24 de julho de 2025
Chamar alguém de "traidor do movimento" é uma acusação séria — principalmente quando se trata de um movimento como o punk, que nasceu da repulsa à ordem estabelecida, da negação ao sistema, da recusa à fama. Mas quem decide quem pertence ou não a esse movimento? Quem tem autoridade para expulsar um artista da cena que ele ajudou a construir?
Essa é a provocação que o jornalista e criador de conteúdo Júlio Ettore faz em um dos vídeos mais completos de seu canal, ao revisitar a trajetória de Kid Vinil. O youtuber reconstruiu passo a passo a ascensão, a ruptura e a reinvenção de um dos personagens mais marcantes da história do rock brasileiro.
"Esse sim traiu o movimento. Um punk que se vendeu pro sistema", afirma logo no início do vídeo. "O primeiro traidor do movimento punk", completa, antes de explicar que muitos talvez conheçam Kid Vinil apenas como VJ da MTV ou locutor de rádio — e nem imaginem que ele foi responsável por um dos primeiros grandes hits do rock nacional dos anos 80.

Ao longo do vídeo, Júlio Ettore traça o retrato de um artista complexo: amado por uns, odiado por outros. Idolatrado nas festas da new wave e atacado pelos punks que o consideravam "vendido". E o mais interessante: Kid não se defendia — ele aceitava esse rótulo.
Quem foi Kid Vinil?
Kid Vinil nasceu Antônio Carlos Senefonte, no interior de São Paulo, em 1955. O vídeo lembra que ele chegou a querer ser padre, mas trocou a batina pelo rock and roll quando descobriu Beatles e Rolling Stones na escola. Nos anos 70, mergulhou de cabeça na cena cultural paulistana e passou a se interessar pela estética provocativa do punk.
Foi numa loja, no centro de São Paulo — hoje conhecida como Galeria do Rock — que comprou seu primeiro compacto do Sex Pistols, "God Save the Queen". A partir dali, passou a se envolver com o movimento punk nascente. Segundo Ettore, ele formou a banda AI5, com letras barulhentas e roupas rasgadas, mas nunca teve real identificação com a ideologia radical do punk. "Eu gostava da música punk, mas o discurso não me dizia nada", diz Kid em um trecho citado do livro "Dias de Luta", de Ricardo Alexandre.
Enquanto fingia pertencer à rebeldia do underground, Kid trabalhava como locutor de rádio, apresentando músicas new wave na Excelsior FM. "Na rádio, ele era locutor. Na rua, ele circulava com os punks. Mas ele sabia que não era um deles", narra Ettore. Muitos punks queriam revolução socialista, combatiam a grande mídia e não toleravam qualquer flerte com o sistema. "Sempre me cobraram uma posição política, mas eu queria entretenimento, ritmo, riff."
Traidor do movimento
Em dado momento, a revista Veja fez uma matéria sobre o punk paulistano. Kid, que vinha se destacando como divulgador do gênero, aceitou ser entrevistado. E foi esse gesto — dar voz ao movimento dentro da grande mídia — que acabou com sua reputação no underground. "Não necessariamente pelo que ele disse, mas só pelo fato de ter falado com a grande imprensa", explica Ettore. A partir dali, passou a ser chamado de traidor.
O rótulo foi selado numa noite tensa de 1983, durante um show da sua nova banda, Verminose, no Teatro Lira Paulistana. A plateia, composta por punks mais radicais, começou a vaiar, insultar e, logo depois, invadir o palco. "Coitado, não tinha pra onde fugir. Quebraram tudo. Foi o último show da Verminose", narra Ettore. O próprio Kid, anos depois, assumiu: "Eu fui o primeiro traidor do movimento punk."
A banda Magazine
O vídeo mostra que, após ser escorraçado do punk, Kid encontrou abrigo onde sempre se sentiu mais à vontade: na New Wave. "Eu me sentia muito mais confortável junto às bandas new wave. Até porque eu não era jurado de morte", declarou. A Verminose deu lugar ao Magazine, grupo com estética colorida, som dançante e letras inspiradas no cotidiano urbano.
Em 1983, lançaram "Sou Boy", um dos primeiros grandes hits do rock brasileiro dos anos 80. A música, segundo o vídeo, foi escrita por um verdadeiro office boy chamado Agnaldo Rodrigues, descoberta por Tico Terpins (do Joelho de Porco) e repassada a Kid por meio do produtor Pena Schmidt. "Quando ouviu, o Pena pensou: ‘É disso que a gente precisava’", narra Ettore. O compacto vendeu mais de 120 mil cópias, entrou em trilhas de novela e levou Kid aos programas de auditório. Para os punks, era a prova final da traição.
Mas Kid não recuou. Pelo contrário. Seguiu com mais um sucesso: "Tic Tic Nervoso", também levada à TV. A Warner cobrava mais hits, mas ele só queria se divertir — e regravar clássicos da Jovem Guarda. "A gravadora nos via como uma banda de hits, não como uma banda de carreira. Isso me incomodava", disse.
O vídeo de Júlio Ettore também destaca as outras facetas do artista. Kid foi VJ da MTV entre 1999 e 2001, lançou o livro Almanaque do Rock, fundou a banda Heróis do Brasil, voltou com o Magazine nos anos 2000, atuou como DJ e apresentador, e teve sua biografia (Um Herói do Brasil) lançada em 2015. Morreu em 2017, vítima de complicações após um ataque cardíaco.
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