O ídolo que Pete Townshend preferia não ter conhecido do jeito em que ele estava
Por Bruce William
Postado em 06 de setembro de 2026
Conhecer um ídolo nem sempre melhora a imagem que construímos dele à distância. Pete Townshend descobriu isso de maneira particularmente amarga quando finalmente encontrou Marvin Gaye, um dos músicos que mais admirava desde muito antes de o cantor lançar "What's Going On."
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O encontro aconteceu em Londres, no começo dos anos 1980, quando o The Who trabalhava em "Face Dances". O produtor Bill Szymczyk havia escolhido o Odyssey Studios para as gravações, e foi ali que Townshend cruzou com Gaye, que também estava usando uma das salas do estúdio.
A lembrança, recuperada pela Far Out, não tem exatamente o tom de uma realização pessoal. "Marvin estava em péssimo estado - pior do que eu. Ele era meu herói, e foi difícil vê-lo daquele jeito", escreveu Townshend.
Na época, o próprio guitarrista também atravessava uma fase pesada envolvendo drogas e álcool. Ainda assim, o estado de Gaye o impressionou. Segundo Townshend, havia gente da alta sociedade londrina circulando em torno do cantor, numa situação que parecia beneficiar mais os acompanhantes do que o próprio músico.
Townshend contou ainda que assistiu Gaye negociando a compra de uma grande quantidade de cocaína e decidiu naquele momento dizer ao ídolo o que sua música significava para ele. "A letra vem da cabeça, a música vem do coração. Mas a voz, Marvin, essa vem de Deus", recordou. Gaye agradeceu e simplesmente voltou ao teclado.
A admiração musical, portanto, não desapareceu com o choque pessoal. Townshend considerava "Baby Don't You Do It" uma das maiores gravações já feitas pela Motown e dizia que a interpretação de Gaye era o que tornava a música tão poderosa. O próprio The Who chegou a incluir uma versão da faixa em seu repertório.
Pouco depois daquele período turbulento, Gaye conseguiu reorganizar parte de sua vida, mudou-se para a Bélgica e retornou às paradas com "Sexual Healing", em 1982. Dois anos depois, porém, sua trajetória terminou de maneira trágica, quando foi morto pelo próprio pai.
Townshend nunca deixou de considerar Marvin Gaye um gigante. O problema foi ter encontrado o homem real justamente numa das fases mais difíceis de sua vida - experiência que desmontou, ainda que por alguns instantes, a imagem quase idealizada que carregava havia tantos anos.
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