A banda que a polícia chamava de "inimiga número um da família brasileira"
Por Gustavo Maiato
Postado em 07 de outubro de 2026
O rock carioca dos anos 80 ficou associado ao sol, à praia e ao bom humor da zona sul, com nomes como Paralamas do Sucesso e Lulu Santos no topo das paradas. Na década seguinte, o Planet Hemp apareceu para mostrar o outro lado da cidade, e pagou caro por isso. Em vídeo publicado no canal do Júlio Ettore no YouTube, a trajetória do grupo é reconstituída do lançamento do álbum de estreia, "Usuário", em 1995, até o cerco de juízes, delegados e promotores que transformou a banda em caso de polícia.

"Vamos falar a verdade: o rock carioca dos anos 80 era uma grande enganação. Não é nada contra a cidade. Eu trocaria São Paulo pelo Rio de olho fechado. Eu tô falando daquilo que ficou conhecido como o rock de bermudas, o rock da zona sul, alegre. Mas a realidade do Rio era outra. Levou anos até aparecer uma banda que falasse a verdade sobre o Rio, uma cidade maravilhosa, porém desigual e violenta, ainda mais para quem mora nas periferias", afirma o apresentador logo na abertura.

A história retoma o grupo após a morte de Skunk, fundador e agitador em torno de quem a banda se formou, em julho de 1994. Enquanto rodava festivais independentes como o Juntatribo, em Campinas, e o Abril Pro Rock, no Recife, o Planet passou a ser disputado por duas gravadoras: a Sony e a Banguela Records, criada por integrantes dos Titãs e pelo produtor Carlos Eduardo Miranda. Curiosamente, o próprio Miranda ajudou a fechar o negócio com a concorrente, ao enviar um contrato de mentira ao empresário da banda, Ronaldo Pereira, só para pressionar a multinacional.
Marcelo D2 era o mais resistente à ideia de assinar com uma grande gravadora, mas foi convencido pelo guitarrista Rafael Crespo. Na reunião final, segundo a biografia escrita por Pedro de Luna e citada no vídeo, o vocalista impôs as condições ao executivo George Davidson: "A gente produz o disco, vocês não mexem em nada. Também queremos um videoclipe e R$ 50 mil." Tudo foi aceito na hora. "Depois eu pensei: caramba, eu pedi pouco, velho", recordou D2.
O adiantamento bancou estúdio, equipamentos e o primeiro clipe. Com referências que iam de Lenny Kravitz e Living Colour a Beastie Boys e Defalla, o grupo gravou um disco cru, de 17 faixas, que trazia uma dedicatória a Skunk no encarte. O riff de "Mantenha o Respeito", criado por Rafael, lembra "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana. O primeiro single, porém, foi direto ao ponto: "Legalize Já". A imprensa elogiou a abordagem séria de temas como violência policial, racismo e chacinas, e a Folha de S.Paulo escreveu que o Planet não era apenas uma banda de chapados inconsequentes.
O problema veio com o crescimento. A MTV pediu ao Ministério da Justiça uma avaliação do clipe de "Legalize Já", que acabou liberado apenas depois das 23h. Em 1995, a polícia de Goiânia apreendeu camisetas e ingressos dias após um show. No ano seguinte, um juiz proibiu a apresentação em Vitória e, em Salvador, 60 pessoas foram presas na fila. Na volta à capital baiana, D2 escapou no porta-malas de um carro, e um delegado avisou ao empresário que aquela era agora "a inimiga número um da família brasileira". "Parece que estamos na época da ditadura. Toda essa celeuma por causa de um punhadinho de mato", reagiu BNegão à Folha.
O cerco seguiu em São Paulo, onde a Polícia Militar montou barreiras antes de um show no Olímpia, em 13 de agosto de 1996, e em Brasília, onde um promotor que havia assistido à banda em Fortaleza mandou apreender os CDs. "Fiquei muito chocado com o que vi. Entendi que a polícia devia agir aqui para evitar esse choque às famílias", justificou. Um delegado da capital chegou a encomendar um laudo para enquadrar as letras como apologia às drogas, e a gravadora avisou que não teria como defender o grupo. A prisão viria em 1997, já depois do segundo álbum e da entrada de Black Alien no lugar de BNegão.
Confira o vídeo completo abaixo.
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