Guns N' Roses: conceito e história da polêmica capa de Lies
Por Nacho Belgrande
Fonte: Playa Del Nacho
Postado em 20 de novembro de 2012
Por RAMON MARTOS GARCIA do site PURE GRAIN AUDIO
Vamos comparar a primeira e meteórica metade da carreira do GUNS N’ ROSES com uma mão apta a ganhar em um jogo de cartas. Nós temos o arrasa-quarteirões que mudou as regras do jogo "Appetite for Destruction" [1987] e os gêmeos "Use Your Illusion" I e II [1991]. E entre os dois, temos o EP de 1988 "Lies", um tipo de carta bem colocada no meio de uma trinca de ases. Embora possa parecer de menor importância, este EP lançou uma das baladas acústicas, que perdura como um clássico do grupo, "Patience" assim como a altamente controversa "One in a Million". Ele também inclui as faixas gravadas [falsamente] ao vivo e uma capa com muito a dizer, ainda que não fosse verdade.
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"Pessoalmente, eu queria que parecesse ainda mais com o [tablóide estadunidense] Enquirer. Mas chegou perto o suficiente e nós passamos muito tempo em cima daquilo", diz Alan Niven, o empresário do Guns N´ Roses na época, em referência à capa de "Lies". Reproduzindo a primeira página de um tablóide de fofocas, a obra dedicava-se às histórias absurdas criadas sobre a banda. Naquele momento, as conseqüências de se tornar o centro das atenções, além da música e da indústria do entretenimento estavam pesando sobre o quinteto. Ironicamente, a capa do EP tornou-se uma representação clara dos efeitos da reputação de uma das bandas essenciais do hard rock estadunidense.
O conceito, inicialmente criado pelo vocalista Axl Rose e pelos outros membros do grupo, fora um aviso sobre o estado dos meios de comunicação modernos e da desvantagem de se tornar uma celebridade. "Eu via aquilo como uma provocação com os meios de comunicação, que estavam mais interessados na superfície do que na substância. Coisas do tipo: ‘Vamos atrás de saber de Axl namorando com Erin Everly ao invés de ser curioso sobre como sua criatividade funcionou para compor as letras’", diz Niven. "Ou vamos falar do vício de Slash" – ele continua –" ao invés de compreender a personalidade e a maneira de ele tocar. Ou ignorar Izzy, embora ele seja o elemento mais importante e que formou o caráter e a postura da banda original."
É justamente desse tipo de especulação sensacionalista que a arte gráfica do encarte se originara. Todos os tipos de manchetes de se cair o queixo e mini-matérias as [em referência feita aos títulos das músicas e créditos das gravações] foram colocados juntos em uma espécie de capa de jornal. Entremeio a tudo isso, as histórias prosaicas e polêmicas, intituladas: "Homem processa a esposa – ela pegou minha porra sem permissão", "Elefante dá luz a um anão" ou "Padre gay no horror da curra em grupo". "Todos se divertiram inventando essas coisas", diz Niven. "O mais estranho veio dos responsáveis pelo departamento de direção de arte da [gravadora] Geffen Records". Ele provavelmente refere-se à Deborah Norcross e Wintner Leslie que projetaram o encarte usando técnicas diversas se manipulação manual.
Diversão à parte, algumas das idéias provaram ser um pouco voláteis demais para serem impressas – por exemplo: "Senhoritas, bem-vindas à idade das trevas" e, especialmente, "Bater na esposa já é praticado faz 10.000 anos." Eventualmente, ambas foram substituídas com frases menos provocativas. Alan Niven diz que "os textos foram alterados na última hora. Axl tem um pouco de dificuldade em ceder. Mas o lance de bater em mulher era algo que eu sugeri que, dada a inconstância de seu relacionamento com Erin, seria imprudente e poderia explodir na própria cara dele mais tarde. Eu acho que, depois do processo de divórcio deles, ele viu que eu agi com bom senso quanto a isso."
Outro reflexo das idéias pouco comuns do Guns N’ Roses fora a inclusão do projeto gráfico original – assim como do conteúdo fonográfico de "Live Like a Suicide". Originalmente lançado em 1986, o EP havia sido usado para outros fins. Alan disse: "A demo usada foi gravada no Pasha Studios e mixada por mim e Hans Peter Huber. Nós adicionamos o som de plateia para criar um registro falso de um show. ‘Live Like a Suicide’ me permitiu fazer um trabalho de divulgação preparatório antes do lançamento de ‘Appetite for Destruction’".
Até certo ponto, a origem dessas quatro músicas "ao vivo", apesar de peculiar, não é tão surpreendente. O que é surpreendente é a tenacidade necessária para pegar o projeto do EP original e integrá-lo com novos elementos visuais no novo lançamento. Se a idéia principal por trás da capa de ‘Lies’ era criticas as duvidosas manobras da mídia, então esse tipo de jogada ambígua não contradizia tal postura do grupo? "Não", garante Niven "Se aquela arte tivesse implicado isso, não teria ido adiante. Foi a nossa forma de alertar para o fato de que era uma gravação ao vivo falsa, usada para levantar fundos com os quais fomos capazes de ir para a Inglaterra, como eu havia feito antes com outras bandas independentes, como o Mötley, Berlin, Great White, etc…."
No final, o que realmente importa é que a capa de "Lies" não é como ela foi produzida [digitalmente ou manualmente], ou o quanta diversão e polêmica se originaram de cada manchete inventada. Seu significado é muito mais profundo e intrinsecamente ligado a uma realidade inegável: não acredite em tudo que você lê ou vê, especialmente quando se trata do mundo do entretenimento. Nem toda mentira acaba sendo exposta e nem toda verdade vê a luz do Sol. É uma mensagem que ainda ressoa, hoje mais do que nunca, em uma sociedade seduzida por atuações questionáveis, como a realidade demonstra, fontes falsas de matérias e avatares artificiais na internet. Como conclui Alan Niven: "Foi uma boa capa, por assim dizer, com muita desinformação … era realmente verdade?"
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