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Voivod - Música mutante para um futuro mutante

Resenha - Nothing Face - Voivod

Por
Postado em 31 de outubro de 2026

A edição nº 24 da revista alemã Metal Hammer, de novembro de 1989, trouxe um panorama vasto e dinâmico do Hard Rock e Heavy Metal daquele ano, cobrindo o retorno de bandas icônicas como Def Leppard e a nova fase de Yngwie Malmsteen, ao mesmo tempo que acompanha a ascensão de Skid Row, Overkill e Sepultura. A revista também publicou matérias sobre Venom, Driver e Morbid Angel, além de uma seção dedicada aos shows da temporada. Em destaque, uma entrevista de Mark Day com o Voivod, onde o baterista Michael Langevin discute o recém-lançado álbum "Nothingface", definindo-o como "Paranoia, Esquizofrenia, Depressão" e uma "música mutante para um futuro mutante".

Voivod - Mais Novidades

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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

No texto a seguir, vamos voltar no tempo e descobrir o que a banda pensava na época, tendo como base esta entrevista para a Metal Hammer, e elaborando também uma visão geral sobre a banda e o panorama metálico daquele final de década.

Esta edição da revista contextualiza perfeitamente o cenário de Heavy Metal do final da década de 1980, um período de ouro para o Thrash Metal. Bandas como Metallica, Slayer, Megadeth, Exodus e Testament haviam consolidado uma sonoridade mais rápida, técnica e agressiva, formando a espinha dorsal de um movimento global. A cena europeia fervilhava com nomes alemães como Kreator, Sodom, Holy Moses e Tankard, enquanto o Sepultura, do Brasil, provava a força do gênero fora do eixo tradicional. Contudo, mesmo em meio a essa explosão de agressividade e velocidade, o Voivod se destacava por sua abordagem única, parecendo habitar uma dimensão musical distinta e futurista.

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Originários de Jonquière, no Quebec, Canadá, os músicos Dennis "Piggy" D'Amour (guitarra), Jean-Yves "Blacky" Thériault (baixo), Denis "Snake" Bélanger (vocal) e Michel "Away" Langevin (bateria) nunca se contentaram em seguir fórmulas prontas. Embora tenham surgido na mesma época em que o Thrash florescia, o Voivod sempre se manteve em um território próprio, experimental e mutante. Sua música, marcada por dissonâncias, cadências imprevisíveis e atmosferas distópicas, parecia mais próxima de Killing Joke, The Swans, Public Image Ltd. ou Hawkwind do que dos sons mais tradicionais do estilo.

Essa postura tornou a banda uma das mais respeitadas "cult-bands" do Metal, admirada por sua ousadia estética e intelectualidade, mas sempre se mantendo distante dos holofotes que iluminavam outros nomes da cena. No geral, enquanto bandas como Queensryche utilizavam conceitos dentro de sua música, o Voivod invertia a lógica: usava o Metal como ferramenta para erguer seu próprio universo conceitual, inspirado por ficção científica, visões futuristas e pela arte visual criada por Away - primeiro em traços à mão e, mais tarde, com recursos de computação gráfica.

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TEMPOS TURBULENTOS

O final da década de 1980 não foi fácil para o grupo. Após quatro discos lançados pelo selo independente Noise Records, a banda decidiu mudar de rumo e assinou contrato com a Mechanic Records, braço da MCA voltado ao Metal, que também abrigava a brutalidade da Vio-lence e os então promissores Dream Theater. A decisão de migrar para um selo maior foi recebida com expectativas, mas também trouxe incertezas sobre

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NOTHINGFACE – UMA VIAGEM INTERIOR

Foi nesse contexto que surgiu "Nothingface", quinto álbum de estúdio, lançado em 1989. Diferente de tudo o que o Metal havia produzido até então, o disco levou a música do Voivod a novos territórios. As distorções tradicionais ficaram de lado, mas as dissonâncias permaneceram, agora expostas em sua essência. O ouvinte podia, talvez pela primeira vez, perceber plenamente a complexidade dos músicos, em estruturas que se desenvolviam como espirais sonoras, com tempos implacáveis e hipnóticos.

O conceito do álbum mergulhava na psique do próprio Voivod, explorando paranoia, esquizofrenia e depressão. Away explica: "É como uma viagem pelo cérebro do Voivod. Mas não é uma história contínua do começo ao fim, como foi em "Dimension Hatröss". São, na verdade, oito diferentes atmosferas do Voivod. Para expressá-las, contamos pequenas histórias, que se ligam apenas pelo fato de tratarem de depressão ou estados de ansiedade".

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As letras materializam esse mergulho em versos que soam como fragmentos de delírios: "sua tranquilidade será perturbada quando seu reflexo o examinar minuciosamente" ("X-Ray Mirror"), ou ainda "a lógica pinga dentro de uma célula quadrada, que está de cabeça para baixo" ("Into My Hypercube"). No caso da faixa-título, "Nothingface", descreve-se "a frustração de um homem tentando escapar de um estado congelado em sincronia".

Longe de parecer forçado, o conceito se harmoniza com a estética da banda. Se em outras mãos poderia soar artificial, no Voivod é natural, sustentado por uma inteligência artística que sempre os afastou da mediocridade. Enquanto alguns grupos transformavam temas conceituais em caricatura - como o "piratismo" de Running Wild -, o Voivod produzia ficção científica sonora digna de nomes como Isaac Asimov ou Arthur C. Clarke.

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O PASSADO E O FUTURO

Gravado em Montreal, no estúdio Victor, o álbum contou com produção de Glen Robinson e um processo mais cuidadoso do que em trabalhos anteriores. Away relembra: "Queríamos gravar aqui em Montreal. A ideia era não gastar tanto dinheiro com hotéis e passagens aéreas, mas investir mais no trabalho de estúdio. Produzimos o álbum junto com Glen Robinson e nos demos tempo para isso. Também tivemos muito tempo para ensaiar. Quando entramos em estúdio, as músicas já estavam no ponto. Nos outros álbuns, chegávamos no estúdio ainda tendo que trabalhar no som, porque antes não tínhamos tempo suficiente. No novo álbum isso não foi necessário - tudo já estava pronto".

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A maturidade do processo refletiu-se em uma sonoridade cristalina, capaz de realçar os arranjos complexos da banda. Foi também em "Nothingface" que o Voivod ousou homenagear o Pink Floyd, gravando um cover de "Astronomy Domine", clássico da fase Syd Barrett. A escolha não foi aleatória: ao optar pela obra lisérgica do fundador do Floyd, em vez das composições introspectivas de Roger Waters, a banda deixou clara sua afinidade com a visão psicodélica e experimental. "Para nós, Barrett sempre será um homem visionário", admitiu Away, ecoando o fascínio do Voivod por artistas que ousaram olhar para além do óbvio.

UMA BANDA SEM LIMITES

O Voivod sempre resistiu a ser rotulado, mesmo após assinar com uma grande gravadora. A mudança levantou questionamentos sobre sua acessibilidade e se isso significaria um alargamento de público. Away falou sem rodeios: "Acho que sempre seremos uma banda underground. Seria frustrante terminar como o Van Der Graaf Generator - eu achava essa banda genial. Permaneceram como cult-band e nunca ficaram realmente conhecidos. Não podiam ser tão populares quanto o Genesis ou o Yes porque sua música era muito mais sombria. Acho que sempre seremos uma banda underground, mas lamento que não mais pessoas tenham nos ouvindo. Não me importo de sermos uma cult-band do underground, mas para continuar nossa evolução precisamos de algum dinheiro. Não quero que o fator financeiro acabe nos freando".

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Com o apoio da Mechanic, pela primeira vez os canadenses puderam se dedicar integralmente ao projeto Voivod. Antes, na época de "War and Pain", chegaram a trabalhar catalogando livros em uma escola para garantir a sobrevivência. Hoje, finalmente, concentram toda sua energia na criação artística, inclusive explorando novas fronteiras visuais. Away contou: "Ontem tivemos uma reunião sobre o novo clipe e estamos trabalhando com pessoas cheias de ideias. Queremos investir mais dinheiro no lado criativo da nossa música. No passado, conseguimos bons efeitos sem gastar nada; com algum capital, o resultado deve ser ainda melhor. Comprei novos programas para meu computador, para que eu possa criar animações para os vídeos, que também poderão ser exibidas nos shows ao vivo".

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O LUGAR DO VOIVOD NO METAL

Se, por um lado, o Thrash seguia padrões cada vez mais definidos, por outro, o Voivod mostrava que havia espaço para experimentação e ruptura. Sua música era pesada, mas não se limitava a isso: era mutante, psicodélica, distópica. Em 1989, enquanto muitas bandas já davam sinais de desgaste, "Nothingface" mostrava que o Voivod ainda tinha o futuro pela frente.

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Em um tempo em que a velocidade e a agressividade eram vistas como medida de autenticidade, o Voivod ousou desacelerar, torcer harmonias, mergulhar em atmosferas esquizofrênicas e reimaginar o Metal como um espaço para ciência, arte e ficção. Por isso, embora nunca tenham sido uma banda de massas, conquistaram o respeito de músicos e fãs que viam neles algo além do entretenimento imediato: um vislumbre de um amanhã sonoro. "É como uma viagem pelo cérebro do Voivod", sintetizou Away. Uma viagem que, mais de três décadas depois, continua reverberando como um dos nomes mais ousados dentro do Metal.

Fonte:
METAL HAMMER. Nr. 24. [Alemanha]: Internationales Hardrock & Heavy Metal, [1989]. 48 p. 6. Jahrgang.

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Sobre Maicon Leite

Maicon Leite é assessor de imprensa na Wargods Press, colaborador na revista Roadie Crew e um dos autores do livro Tá no Sangue! - A História do Rock Pesado Gaúcho, dentre outros projetos e publicações.
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