"From The Dark"; "apenas" um disco solo de Tony Iommi que evoca o Black Sabbath com Dio
Resenha - From The Dark - Tony Iommi
Por Bruce William
Postado em 23 de outubro de 2026
Rápido e objetivo: se você gosta da fase Ronnie James Dio no Black Sabbath, pode pegar "From the Dark" sem medo. É somente disso que você precisa saber. Mas, como estamos falando de Tony Iommi, seria uma injustiça encerrar a resenha aqui. Afinal, o guitarrista que ajudou a estabelecer as bases do heavy metal voltou aos 78 anos com um álbum que merece ser ouvido com atenção, mesmo que não apresente grandes novidades. Aliás, quem disse que precisa?
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Lançado em 23 de outubro de 2026 pela BMG, "From the Dark" é o primeiro álbum solo de Iommi desde "Fused" (2005), gravado com Glenn Hughes. Inicialmente, o guitarrista pretendia fazer um trabalho instrumental, chegando a desenvolver algumas composições nesse formato, conforme contou ao Full Metal Jackie. Mas ele mudou de ideia e convidou o norueguês Jørn Lande para assumir os vocais. A parceria funcionou tão bem que o projeto, antes imaginado com possíveis participações de diferentes cantores, acabou se transformando num trabalho de banda, completado pela baixista Becky Baldwin e pelo baterista Karl Brazil. A produção ficou a cargo do próprio Iommi e de seu colaborador de longa data Mike Exeter, que também contribuiu nas composições, nos teclados e nas orquestrações.
O disco começa com o excelente riff de "Over the Violent Sun", deixando imediatamente evidente o parentesco com o Sabbath da fase Dio. "Black Times" diminui o andamento e mergulha numa atmosfera mais sombria, enquanto "World Alone" recupera a energia, com riffs e solos que carregam a assinatura inconfundível de Iommi. São três músicas capazes de conquistar rapidamente quem tem "Heaven and Hell" (1980) e "Mob Rules" (1981) entre seus álbuns favoritos. A produção é limpa e encorpada, permitindo apreciar os detalhes das guitarras sem sacrificar o peso.
"Beyond the Dead" desacelera ainda mais, apostando numa ambientação lúgubre e grandiosa, enriquecida pelas orquestrações. É também um dos momentos em que Jørn Lande mais impressiona, cantando com alma e profundidade. A voz do norueguês tem Dio como referência evidente, mas há alguns toques aqui e ali de Tony Martin e até de David Coverdale. Não se trata simplesmente de encontrar alguém capaz de reproduzir os maneirismos do saudoso vocalista do Sabbath: Jørn demonstra personalidade suficiente para conduzir as composições, alternando potência e dramaticidade com a naturalidade de quem tem talento de nascença.
A segunda metade mantém o excelente nível. "Stormwatcher" tem algo da atmosfera de "Mob Rules", enquanto "Death Wake" começa de maneira profundamente climática e traz outra interpretação marcante de Jørn. No meio dela surge um solo cuja sonoridade chama imediatamente a atenção: é Brian May, amigo de Iommi há décadas, acrescentando sua guitarra à composição. "Return of the Arbalist" recupera um pouco da velocidade das faixas iniciais, sem abandonar o peso característico do disco. Em nenhuma dessas músicas há a sensação de que o repertório perdeu força depois de seus primeiros momentos.
Com aproximadamente sete minutos, "Legacy" encerra o álbum de maneira especialmente interessante. Seu começo arrastado e pesado remete a "The Sign of the Southern Cross", do Sabbath, mas a composição guarda uma surpresa: uma passagem acústica que se mistura ao desenvolvimento das guitarras elétricas. Iommi contou à Rolling Stone que resolveu experimentar algo inesperado, embora não goste particularmente de tocar violão e nem se considere muito bom nisso. Modéstia à parte, o resultado funciona muito bem e acrescenta uma textura diferente à música.
As letras, escritas por Jørn, acompanham a atmosfera das composições. Morte, medo, adversidades, cenários ameaçadores e reflexões sobre a existência aparecem ao longo das oito faixas, mas também há espaço para a esperança e a superação. Iommi deu liberdade ao cantor para desenvolver esses temas, assim como fazia com Dio. A combinação entre as palavras, as interpretações e os arranjos contribui para que "From the Dark" apresente uma identidade bastante coesa. Becky Baldwin e Karl Brazil, por sua vez, cumprem suas funções a contento: são atuações profissionais, sem grandes momentos de protagonismo, mas que oferecem a sustentação necessária para que guitarras e vocais brilhem.
A apresentação gráfica merece algumas linhas. A capa preta traz uma cruz vazada, através da qual podemos enxergar fragmentos de uma ilustração detalhada, povoada por criaturas monstruosas, esqueletos, ruínas e referências às músicas. A imagem completa aparece no interior da embalagem. Com direção de arte e ilustrações de Joseph Niet, o projeto visual combina perfeitamente com o conteúdo musical e com o título do álbum. Entre as edições em vinil duplo, cortadas a 45 RPM, estão versões em preto, branco e preto marmorizado e vermelho e preto marmorizado. Esta última é particularmente bonita, veja as fotos no Discogs.
É praticamente impossível escrever sobre Tony Iommi sem recorrer a algum clichê. A própria gravadora não resistiu e estampou Godfather of Heavy Metal no adesivo da embalagem. Mas o que fazer? Há muitos anos, um leitor do Whiplash.Net comentou num fórum que Iommi deveria ter direito a tudo de graça pelo resto da vida, pelos serviços prestados ao heavy metal. É um exagero, evidentemente, mas daqueles que provocam um sorriso de concordância. Talvez a música pesada tivesse seguido seu caminho mesmo sem ele, influenciando posteriormente outros estilos como o grunge. Dificilmente, porém, estes estilos teria adquirido exatamente as características que conhecemos. E o mais impressionante é que, depois de mais de meio século de carreira, Iommi continua criando riffs e solos que justificam toda essa reverência.
"From the Dark" poderia perfeitamente ser considerado um sucessor à altura de "The Devil You Know" (2009), último álbum de estúdio do Heaven & Hell. Se Ronnie James Dio ainda estivesse entre nós, não seria difícil imaginar um trabalho como este dando continuidade àquela trajetória. Naturalmente, alguns fãs prefeririam um ou outro, conforme suas afinidades. O importante é que Iommi não parece interessado em provar coisa alguma, muito menos em reinventar o heavy metal aos 78 anos. Este é "apenas" um disco solo de Tony Iommi que evoca o Black Sabbath com Dio, com oito ótimas composições, um vocalista excepcional e guitarras inspiradíssimas. E não precisa de mais nada.
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