Resenha - Para Todas - Os Pedras
Por Mário Pacheco
Postado em 12 de maio de 2004
"Os piores discos são aqueles que gostaríamos de ter produzido."
Eu tinha 10/11 anos e aos domingos cantava fora do tom na missa. Meu tio ouviu aquele disparate e pensou que eu estava propositalmente avacalhando o vocal...

Magoado mesmo fiquei quando o Zezé me pediu pra fazer mímica no coro de Lucy in the Sky, pois umas gatas iam aparecer pra ver o ensaio...
Nos anos 70, elegemos um Lp do Jo Jo Gune como o pior da década. Nos anos 80, o eleito foi Rikki and the Last Days. E nos anos 90 e milênio caçadores ao título de o pior disco de rock continuam aparecendo entre eles vários filhos-da-puta de donos de gravadoras cantando inglêis...
Jamais ousaria menosprezar o esforço contundente de qualquer atividade que de maneira atávica tenha trazido à tona todas essas amarguras que eu vivi. E ouvindo o Cd "Para todas" (o mais recente de uma trilogia) dos Pedras estas experiências marcantes afloraram.
"Para Todas" é uma colagem de sons ritmos e programações e denúncias. André Pedra atropela a métrica e versifica o seu recado pacifista anarquista.
A faixa "Borboletinha" ficaria muito bem na voz da Xuxa; "Detranco", um líbelo contra a máfia dos pardais fiscalizadores de trânsito, poderia ser gravada pelo Gugu. Isso é o lado falcatrua do rock’n’roll. "É tombar ao chão" é uma balada tão contundente que o mestre Franz Krajcberg ficaria emocionado com este hino ecológico. É claro que há o espírito de Renato Russo, uma pegada do Marciano Sodomita, até Ian Curtis. E uma guitarra maníaca apoiada num pedal fuzz o tempo todo.
Fazem duas semanas que venho ouvindo este Cdr. André Pedra que veio da Paraíba para Brasília, é performer, poeta e pedreiro e acredita que o seu disco é um clássico. Ele começa o dia ouvindo o seu disco duas vezes em seguida, são 20 faixas! De esperança, amargura e rimas tolas: "mi sol girassol". Em "Arco-íris" (a faixa que mais gostei) André não economiza em mostrar a grandeza de quem possui uma alma infantil e no entanto, luta contra os inimigos, as máfias, os canalhas, os safados, o desmatamento e Bush que se foda!
Está recuperado o espírito zombeteiro do rock’n’roll. Corta essa de aula de canto porque um milhão tentaram e os Pedras acertaram em cheio na vidraça do establishment, essa é a mensagem de "Não importa o que digam". Um som parecido com as pedras.
"Para Todas" poderia tocar na sua alma, no carro, na repartição pública, na Rádio do Senado, mas o establishment quer rock de academia de escola de gravadora de faz de conta.
"Chega de caô de papo furado"
"A mulher tem vagina e o homem procura a rima".
Tô perplexo. Esta cidade que produziu Afonso Brazza agora tem a sua versão musical trashmaníaca.
Faixas:
Pegadas
Mãe Terra
Oceano de pensamentos
Concreto
Tigreza
Miragem
Planeta dos Macacos
Aurora
Pedras para que te quero
Na Espanha... Brasília, sei lá!
Dança do Saddam
Mundo Melhor
Mel
É lei tombar ao chão
DETRANCO
Mulher versos homem
Não importa o que digam
Desce outra
Arco-íris
Borboletinha
Formato: Cdr
Contato: [email protected] ou (61) 81232206
Os Pedras:
André Pedra: vocal
Marcelo Pedreira: guitarra e voz
Ricardo Ned Pedra: guitarra
Tatá Batera: bateria
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