Niilismo: algumas de suas influências na música moderna pesada

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Por Felipe Resende
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Parte 2 – Reverberações do Niilismo na música moderna pesada

Ao tratarmos da influência do Niilismo na música moderna pesada de acordo com o que eu havia postado na primeira parte, percebemos que não podemos realizar uma abordagem simplista. Não existe uma leitura simples de sua influência, pois vai-se da violência extrema à desorientação extrema. Existe – por assim dizer – um rica dialética do Niilismo. Nos parágrafos que se seguem, não procuro esgotar ou afunilar de maneira alguma a significação das canções. Estamos falando de arte afinal: fonte de interpretações e reflexões infindas. Não pretendo aprofundar meus pensamentos nas músicas que abordarei. Cada observação é apenas uma chave interpretativa para o leitor pensar mais profundamente a respeito do problema.
Vejamos primeiramente uma das minhas bandas preferidas: Katatonia. Em sua lírica e temática sonora existe um rol bem variado de situações niilistas. Em "The future of speech", por exemplo, experienciamos a crise aguda do significado da linguagem pelo desvanecimento da verdade e da racionalidade da história. Há uma perda de mundo causada por algum evento nefasto não identificado. Paira um clima de descrença no próprio amanhã, os homens temem pelo seu futuro. Este veio a se turvar na névoa da incerteza quando o rumo da história nada tem a nos revelar de profundo ou prodigioso. E pior: não há como reaver o que foi perdido nesse processo de desintegração da substância das coisas. Nem a Razão nem a religião são mais capazes de oferecer uma interpretação reconfortante do curso do mundo; a verdade e a falsidade estão reduzidas a critérios volúveis, corroídas pela exacerbação do perspectivismo (afinal, nada teria valor "em si" – NADA). Sem critérios universais (justiça, verdade e bondade, por exemplo) compartilhados massiva e continuadamente por indivíduos de um mesmo sistema social para guiar a ação ética, estes não conseguem substancializar satisfatoriamente o que está à frente, ou seja, materializar o futuro de acordo com uma causa comum.

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[My prospects have become less promising
I find it hard to believe in anything
Seems I lost my world and so I lost my faith
And I can't go back to where I've been]
[I have no lies or truth in what I say
there is no meaning
the words are numb and I am so afraid
there is no meaning]

Na soturna "Buildings" há a sutil crítica ao progresso técnico irrefletido (enquanto parte integrante do Niilismo [responsável por violentar a natureza]). O processo de dominação universal da natureza se cristalizou triunfalmente no poder-construir-para-habitar. Em seus primórdios, esse processo de poder-construir revelava ao homem (como modus operandi predominante) a natureza como um horizonte de possibilidades de manipulação técnica capaz de satisfazer uma intenção. "Habitar", assim, no sentido primordial, é mais que construir algo para abrigar-se contra as intempéries naturais. É também construir para pertencer ao lugar ("Lar, doce lar"), criar laços comunitários com as pessoas. E esse construir se expande aos monumentos culturais da humanidade. O homem constrói templos sagrados para pertencer espiritualmente à eles, por exemplo. As cidades pré-modernas eram lugares habitáveis próximos a esse sentido pleno.

Na era da civilização ocidental burguesa, entretanto, as sombras das estruturas de concreto são o símbolo de um mal-estar na civilização. O aglomerado de prédios nas metrópoles traz consigo um desencanto estranho. Pertence o homem plenamente à sua cidade? As fotos das auras melancólicas ou claustrofóbicas dos ambientes urbanos parecem denunciar a sua alienação ante seu próprio ambiente de vivência. O indivíduo se vê perplexo e paralisado porque não consegue habitá-lo satisfatoriamente, não consegue manter laços comunitários-afetivos, não se vê naquilo que está à sua frente (aliena-se em sua cidade, daquele "habitar"). O avanço desmedido da técnica, de algum modo, desumanizou o ambiente no qual o homem vive, retirou o seu significado, porque o poder-construir não mais necessariamente preenche uma intenção – e teríamos infindas derivações dessa nova situação que não caberia explorar aqui. Mas não é inquietante, aliás, a interminável construção de templos religiosos que de modo algum consegue aplacar a demanda de preenchimento dos homens de seu vazio existencial? Além do fato dos ambientes sagrados estarem sob processo de dessacralização (Vejam uma possível explicação em cinegnose.blogspot.com.br/2014/08/o-templo-de-salomao-da-igreja-universal.html). Acompanhemos a descrição da nostalgia e do desamparo, da angústia de se saber que não é mais possível lutar contra tal processo e a consequente apatia que o sujeito vem a experienciar nesse estado de impotência social:

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[Think
Of the days when I had too much
Of the things we found
Resistance died down
Fell on frozen soil]
[On the concrete sky
I saw buildings rise
But keep our lights in shadow still
In the wind's eye
Where our reflection dies
Glass shrines of muted will]

Passemos para o Autopsy e Cannibal Corpse, em ordem respectiva. Aqui podemos perceber a vida que ri sem escrúpulos. Em "I Shit on you grave" (Autopsy), o eu lírico entoa um discurso que agora é "divertido" de ouvir em nossa época:

[I shit on your grave
I piss on your name
I puke on your headstone
Your mother I rape]
[Your infant I slaughter
Your home I will burn
Your funeral I blaspheme
I spit in your urn]

Desconectada de qualquer sacralidade, a morte não tem mais tanta importância simbólica, nem os nomes, nem os túmulos e nem o corpo. Como prova cabal desta situação surge o libertino (uma quantidade considerável de canções do Autopsy explora o espírito da libertinagem). Ele não se importa em escarnecer dos costumes civilizados e praticar barbárie. E aqui não se trata mais entre uma luta entre o bem e o mal no sentido tradicional, com todas as prestidigitações de um maluco ensandecido retirado dos filmes de terror e afins. Para o libertino, o verdadeiro mal é aquele praticado de maneira estóica, beirando uma "diversão asséptica". O estupro, assassinato e a profanação de túmulos estão inseridos na rotina de "coisas a fazer" como qualquer tarefa banal do dia – de um jeito maquinal. "Louvemos as crianças por me trazerem tanta alegria, com seus retalhos de pele pendurados em faces sem vida", ironiza o vocalista em "Praise the children".

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A corporeidade humana é reduzida a processos naturais narrados em termos técnicos - como um processo de gravação autopsial que tenta descobrir a causa mortis de alguém. Em "Frantic Disembowelment" (Cannibal Corpse) temos um claro exemplo:

[Intestines exposed
By violent thrusts
The innards removes
Dissecting the guts
To rip through the skin
Tissue and muscle
Cartilage shreading
Draining blood vessels]

A massificada curiosidade pelo grotesco é parte do desenvolvimento do Niilismo. O horror é transformado em material de consumo, objeto e objetivo de diversão para muitas pessoas. A grande questão é que não podemos enveredar nem em uma postura moralizante e nem em uma postura apologética a quem o produz e a quem o consome. Rotular o artista ou o consumidor, por exemplo, como necessariamente "pervertidos", soaria ridículo. Há bandas que por trás de seu conteúdo lírico chocante exibem uma suntuosa técnica instrumental e organicidade musical. Mas também não devemos esquecer que a possibilidade das pessoas se encantarem ou edificarem termos como "brutal" tem o seu conteúdo problemático: existe aí um processo de regressão da sensibilidade estética. A dinâmica da cultura moderna é ambígua.

Eis que temos o Nevermore (arrisco a interpretação abaixo por saber que Warrel Dane é formado em Filosofia, Teologia e Sociologia). Em "Believe in nothing" testemunhamos o niilismo em toda a sua plenitude negativa. Nas estrofes abaixo, no interior de uma ácida crítica ao fanatismo religioso observamos ao menos dois pontos importantes: o sagrado abandonou o homem e, por isso, não é mais possível alcançar a redenção pessoal (não existe uma salvação das angústias humanas); sem a possibilidade de redenção, nada tem valor, nada é eterno. O que o homem aguarda é simplesmente o Nada (ou o Nada aguarda o homem...?). Toda a finalidade do mundo e da existência deixam de existir – e por conseguinte qualquer forma de esperança consistente:

[And I still believe in nothing
Will we ever see the shape of tomorrow?
Into the empty storm
Into the formless loss of hope
Where we can forget the game
...
Nothing is sacred when no one is saved
Nothing's forever so count your days
Nothing is final and no one is real
Pray for tomorrow and find your empty still]

Por fim, na dramática "Dead Heart in a Dead World" encontramos um gancho temático. A canção trata do endurecimento e desintegração das relações humanas em uma época na qual a Razão promete tudo ao homem, mas falha em fazê-lo. No refrão da canção são entoados os motes do Iluminismo, mas de modo ambíguo:

[Burn your gods and kill the king
Subjugate your suffering
Dead heart in a dead world]

Ao mesmo tempo em que a Razão desencantou o mundo para destruir a submissão humana a falsas formas hierárquicas, ela também empobreceu a relação dos homens entre si. Ela não consegue guiar o homem de modo pleno no mundo, e acaba até se convertendo em instrumento para a frieza. A caricatura do sujeito racional é aquela do indivíduo desprovido de emoções, que subjuga seu sofrimento através do exercício do endurecimento de sua alma. Um mundo morto, devastado pela razão, significa simplesmente que os homens devastaram a si próprios - o movimento de decadência das coisas é também o movimento de decadência da humanidade. Eis porque o eu lírico proclama o sentimento de traição:

[To see the emptiness as we decay
I see the world is dead, I am betrayed]
...
Emotions turned to cold dead wood
Can still have life once more
The door that slammed upon your heart
Torn away, torn away]

O que a Razão prometeu acabou por não cumprir. Como (e por onde) deveríamos recomeçar? Isso já seria tema para outro artigo. Finalizo este, deixando em aberto a imaginação do leitor para com tantas outras bandas que não pude mencionar.




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