G.G. Allin: o extremo dos extremos

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Por Bruno Cahu
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Vida de jornalista tem dessas coisas. Nem sempre é possível dominar o assunto sobre o qual nos debruçamos. O cinema sempre foi uma prioridade, o que me fez deixar muita coisa boa de lado. Curiosamente, foi através do cinema que cheguei até essa pauta. Nas minhas navegadas pela internet, descobri um documentário chamado Hated – G.G. Allin and The Murder Junkies. O vídeo trata de uma figuraça punk dos anos 80 chamado G.G. Allin. A breve sinopse da fita despertou meu interesse de cara.
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Imaginem um cantor que perambulava pelas cidades dos Estados Unidos feito um mendigo, maltrapilho e drogado. Seus shows, realizados da forma mais precária possível, tinham propaganda boca a boca e acabavam em menos de dez minutos. A razão? Num mundo onde G.G. Allin vivia, Marilyn Manson ou mesmo o velho Ozzy, seriam apresentadores de programa infantil na TV Globo. Para aumentar minha surpresa, também descobri que não faço parte de um pequeno grupo. Até mesmo dentro da comunidade “roqueira” pouca gente ouviu falar nele. Os que conhecem, preferem ignorar, tamanho seu extremismo e obscenidade.

No final de sua carreira, Allin era o completo porralouca. Adentrava o palco nu, completamente drogado e/ou alcoolizado. Como de costume, defecava no palco, ingeria parte das fezes e arremessava o restante contra a platéia. Não satisfeito, se arrebentava todo durante a apresentação. Automutilação era algo corriqueiro. Pedaços de madeira, instrumentos e até o próprio microfone, que não raro era introduzido no ânus do cantor, eram utilizados numa pancadaria fenomenal. A polícia era chamada para acalmar os ânimos e levava Allin pro xadrez. Festinha divertida essa, não?

Outro aspecto interessante das lendárias apresentações era a relação do músico com a platéia. O público também participava e geralmente saia no braço com ele. Em outros momentos, costumava apontar aleatoriamente um indivíduo e incitava uma agressão generalizada contra o infeliz. Pois é, tinha gente pagando para ser espancado por uma multidão enfurecida.

Por outro lado, G.G. Allin foi o maior exemplo da verdadeira atitude punk. Ele era o que queria ser, não importando a opinião dos outros. O modo niilista como levava a vida suscitou várias dúvidas quanto a sua sanidade mental. O mundo não estava pronto para alguém como ele, que certamente é um nome forte na lista negra da música nos anos 90. Não que fosse muito barulho por nada. Afinal, ligar o rádio e escutar músicas do calibre de I Wanna Fuck Myself, Hard Candy Cock, I Wanna Piss On You e Kill Thy Father, Rape Thy Mother não era nada instrutivo.

A jornada apocalíptica de Allin terminou no dia 28 de junho de 1993, quando após um show, saiu correndo pelado pelas ruas de Nova York. Chegando na casa de um amigo, deu continuidade ao que mais tarde seria diagnosticado como uma overdose de heroína. Durante seu enterro, G.G. Allin que trajava uma jaqueta com a expressão “Fuck Me” gravada, teve seu caixão usado como cinzeiro pelos amigos e fãs. Isso é o que se pode chamar de final punk. Onde quer que esteja, Allin deve estar orgulhoso.

Abaixo, destaco trechos interessantes do texto The G.G. Allin Mission. Uma espécie de manifesto terrorista escrito por ele enquanto cumpria pena na penitenciária de Jackson State. Atentem para a convicção do cara. Mesmo dentro de sua loucura, ele mantinha uma estrutura de pensamento linear e coerente. Uma lógica Perturbadora.

“Se você acredita no verdadeiro rock'n'roll underground, então é hora de fazer alguma coisa. A hora é agora de derrubar a situação e declarar guerra às gravadoras, estações de rádio, publicações, bares e qualquer um que promova a chamada "cena" que existe atualmente. Precisamos destruir tudo e tomar de volta o que está nas mãos de empresários idiotas e conformistas. Mas a ação deve começar agora e sangue poderá ser derramado. (...) Quando nasci em 1956, o rock'n'roll estava começando a existir. Por quê? Porque eu o criei. Eu criei Elvis. Eu fiz tudo acontecer. Mesmo antes de nascer eu já estava comandando. Mas através dos anos as pessoas deixaram a coisa desandar. É por isso que estou pronto para tomar conta de tudo novamente. Ninguém mais teria culhões. Todos me decepcionaram. O dinheiro e o comercialismo fizeram todos se venderem. Até Iggy me decepcionou. Os Sex Pistols me decepcionaram. Sid me decepcionou quando se apaixonou (é por isso que estão mortos). E hoje temos os Ramones elogiando bandas como o Guns n' Roses, que representam tudo que devíamos destruir. Mas agora estamos em 1991. Esta é a década para a derradeira mutilação sangrenta. Hora de tirar o rock'n'roll das mãos das massas e devolver às pessoas que não aceitariam conforto e conformidade a nenhum custo. Então eu cometerei suicídio em pleno palco e o sangue do rock'n'roll se tornará o veneno do universo para sempre. Olhe ao redor e veja o que está acontecendo. Gravadoras invertebradas beijando o c* do sistema, pressionadas pela grana da mídia e pelos políticos. (...) Devemos sabotar as gravadoras não comprando seus produtos. Um boicote. Se quiser um disco, roube-o. Assim não ficarão com o seu dinheiro. Nós precisamos parar de alimentá-los. Seu apoio deve agora convergir para mim - G.G. Allin, o comandante líder e terrorista do rock'n'roll. Por quê você acha que estou na prisão? Porque eles sabem que eu sou e temem minha verdade. Nossa sociedade quer parar minha missão. Eles querem é fazer uma lavagem cerebral em você e mantê-lo ligado na MTV, em seus estagnados e seguros mundos. É necessário destruir o rock'n'roll. Eu sou o salvador. É por isso que sou considerado uma ameaça à sociedade.”


Esta matéria foi originalmente publicada na coluna Vitrolaz do Whiplash!. Informação para quem gosta de cultura. O Vitrolaz é uma revista eletrônica que fala de música, cinema e literatura. A proposta é apresentar sempre críticas, resenhas e entrevistas onde o que é novidade se mistura com o que fez história. O site, que tem uma equipe de jornalistas dividida entre Recife e Curitiba, também abre espaço para enquetes, comentários e promoções.

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