Izzy era o coração frio da alma quente do Guns N' Roses
Por Nacho Belgrande
Fonte: Playa Del Nacho
Postado em 04 de junho de 2014
Na nova edição da revista inglesa CLASSIC ROCK, cuja capa repassa o ano de 1989 na carreira do GUNS N’ ROSES clássico, o ex-empresário – e um dos grandes catalisadores do sucesso da banda – ALAN NIVEN é bastante sucinto quando discorre sobre a dinâmica da estrutura do grupo, e como o guitarrista e compositor IZZY STRADLIN era a mola musical propulsora da banda.
O que segue abaixo é a tradução do texto de Niven.
[...]
Aquela banda era de Izzy… pelo menos esse é o meu entendimento.
Iz se mudou pra cidade grande primeiro. Ele fez a mala e foi forjar a pedra fundamental de uma banda. Couro de cascavel ou não, você sabe que aquela mala estava gasta e fedida, não lustrosa, como uma Halliburton novinha de Tim Collins.
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Axl seguiu Izzy tão logo ele estivesse instalado em Los Angeles – uma mamata fácil. Ele então voltou para Lafayette. Ele não tinha as manhas para Los Angeles, de acordo com Iz. Ele ficara aliviado. Ele me disse depois que ele não queria lidar com Axl, que ele conhecia desde o ensino médio. Axl não sabia lidar com cidades pequenas tampouco, então ele se mudou pela segunda vez, carregado como um trem [‘loaded like a freight train’] com toda sua bagagem. Iz não ficou nem um pouco animado. E assim ficou. Na terceira parada da primeira turnê nacional do grupo, abrindo para o The Cult, Izzy bateu à porta do meu quarto de hotel. Ele passou por mim e se jogou no sofá.
"Aquele filho da puta torna nossa vida miserável todo santo dia", ele grunhiu.
Axl nunca foi fácil, mas ele tinha aquela voz, uma voz que cheirava a revolta e raiva do jovem branco do meio-oeste. Ele tinha aquela postura que exaltava ao individualismo e a todo ser humano. Especialmente a ele próprio. Se isso era o que Axl trazia à mesa, com o que é que Izzy contribuía? Ele contribuiu com ‘Nightrain’, ‘Mr. Brownstone’, com a doce levada de ‘Jungle’. Quando Mike Clink chegou ao limite, exausto das sessões de ‘Appetite’, um Tom Zutaut preocupado pediu que eu checasse as gravações.
"Mike não sabe consertar uma mixagem. Você acha que as fitas estão boas, Niv?"
Eu pedi a ele que me mandasse ‘Brownstone’, de Izzy. Michael Lardie e eu preparamos a mesa de som no Total Access para fazer uma mixagem nas coxas. Colocamos a fita de duas polegadas. Tava lá. A levada, a pegada. Conseguimos arrumar uma mixagem em quatro horas. Clink estava com a fita na mão. Estávamos tranquilos.
A primeira vez que vi Izzy foi no palco do Troubadour. Ele tinha uma graça natural no modo em que segurava sua Gibson. Ele tocava suas partes de base com uma indiferença perfeita, sabendo exatamente quando ele deveria deixar um espaço, desacelerar a levada. Eu tenho uma foto em minha parede de Izzy tocando com Keith Richards e Ronnie Wood. Eles na só tocam de modo parecido, eles parecem filhos da mesma mãe. Imaginem os Stones sem Keith.
Izzy tinha a sabedoria casual de não se inserir na obediência cega da vida de um conformista. Por mais que C.C. Deville ou o Bon Jovi possam ter forçado a barra para parecerem foras-da-lei do rock n’ roll, izzy nasceu assim. Suas letras possuíam uma veia que não soava artificial, com termos usados nas ruas. Quando o Guns ficou acertado de abrir para o Aerosmith, Izzy veio até mim preocupado.
"Niv, isso pode parecer meio estranho, mas eu vendia heroína para Joe e Steven."
"Não se Preocupe, Iz. Se você não falar nada, eu tenho total certeza que eles também não dirão."
Izzy saiu do GN’R três meses depois de eu ter sido dispensado por Axl. Iz me achou, de algum modo, quando eu estava com o The Whites em Winterthur, Suíça.
"Eu não aguento mais aquilo", ele disse. Um tumulto quase havia ocorrido em um show do Guns na Alemanha. Rose tinha saído do palco por alguma razão, e Izzy ficou apavorado com a ideia de policiais quebrando crânios à pauladas. Ele tinha arrepios. A pressão calcinante e a exposição e a expectativa e a fama, as ansiedades que Rose gerava, não valiam a pena pra ele. Aquilo o estava consumindo. Ele ia pedir as contas ali. Ele não queria tocar no show de encerramento da turnê no estádio de Wembley.
"Você não pode desapontar aos fãs e aos outros desse jeito, Iz. Você não é o vilão da história. Não seja visto como tal."
Eu reservei e paguei por uma suíte no hotel Hilton do Estádio de Wembley onde Izzy poderia descansar, longe da coxia, e esperar pra ver se Axl ia aparecer. Foi só quando ele soube que Axl estava no local que ele se juntou aos outros para sua última apresentação como membro da banda que foi, em sua maior parte, construída a partir de uma visão sua, suas músicas e seu estilo.
Era a porra da banda do Izzy. Izzy era o único no qual eu podia confiar para tomar uma posição em um segundo – a dele sempre se baseava no ponto de vista incontroverso que melhor servia à banda. Ele os mantinha com os pés no chão com sua postura rock n’ roll irrepreensível habitualmente mantida em seu modo de tocar e compor. Izzy tinha dado coração gelado para a alma quente da banda.
Quando a banda foi agraciada com o Rock n Roll Hall Of Fame, Izzy marcou uma reunião com Axl em um hotel de Los Angeles. Ele queria chegar a um acordo para que a banda original tocasse por uma última vez – fazer a porra da reunião ali naquele momento e depois dizer, ‘obrigado, tenham uma boa noite’. Depois de esperar por duas horas por Axl, ele foi de carro para sua casa em Ojai. Axl não deu as caras e tornara sua vida miserável mais uma porra de vez.
Uma banda é como uma molécula química. Nem todos os elementos são do mesmo tamanho, força ou energia, e a percepção nem sempre define a significância, mas remova o menor grão dela e a molécula entra em colapso. Quando Steven pirou e foi demitido, isso afetou a pegada da seção rítmica, o barato acabou, mas quando Izzy saiu, aquilo significava que a banda não era mais o Guns N’ Roses que eu conhecia e amava,a banda na qual eu me viciei. Era só como [na música] ‘Dust N’ Bones’ – ‘Just fuckin’ gone. ’
Como eu disse, se era de alguém, a banda era do Izzy.
[...]
Para ler conteúdo complementar sobre o envolvimento de Alan Niven com o Guns N' Roses até 1991, clique no link abaixo:
http://tinyurl.com/AlanNivenGNR
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