Algo sobre o "Tiny Desk à Cearense": Os ensaios musicais no Parque Araxá
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 20 de setembro de 2026
Circula nas redes sociais desde 15 de julho de 2026, já atingindo a cifra de quase 1,5 milhão de visualizações, mais um vídeo da banda de grindcore-death (ou deathgrind) NAPALM DEATH, lendário quarteto britânico que é referência na cena planetária de metal extremo. O registro da apresentação seria apenas mais um, entre tantos encontrados na internet, mas esse, em especial, "inaugura" – em se tratando de bandas adeptas aos gêneros mais pesados da música – a plataforma denominada Tiny Desk (em tradução literal, "pequena mesa").
Criado pela rádio estadunidense RPR, em 2008, cuja versão brasileira teve início em outubro de 2025, com show do cantor pernambucano João Gomes – seguido por nomes como Péricles, Céu, Metá Metá, Ney Matogrosso e outros –, o Tiny Desk trata-se de uma apresentação intimista, "descolada", registrada em estúdio que simula o ambiente de um escritório. Ou seja, a sonoridade, a performance nervosa e os vocais guturais do NAPALM DEATH não parecem muito propícios a lugares e cenários com tais características...
De 1994 a 1997, ou mais de uma década antes da iniciativa ianque, algo como o "tiny desk à cearense" ocorria todos os sábados, em Fortaleza, no escritório de advocacia do dr. Assis Mendonça, sediado na rua Azevedo Bolão, 733 – altos, com direito a happy hour nas dependências do prédio (na verdade, no térreo, digamos, onde funcionavam o Bar do Ney ou a Bodega do Gilson). E se a potência sonora, a virulência estética e a ambiência podiam parecer o recente vídeo do NAPALM DEATH, o evento no bairro da Parque Araxá, verdadeiramente informal, também reunia público seleto e cativo que se mobilizava para assistir aos ensaios do OBSKURE – à época, preparando-se para gravar o álbum individual de estreia, "Overcasting". Depois vieram os ensaios do SIEGE OF HATE (S.O.H.), reunindo as músicas que fariam parte da primeira demo-tape da banda, "Return to Ashes".
Dada a similaridade, podemos dizer que formatos como o Tiny Desk já aconteciam há mais de década no Ceará, porém, sem o impulsionamento e a mobilização marcante das redes sociais. A principal diferença, além da espontaneidade, residia no fato de que aquelas apresentações de pequeno porte do OBSKURE até poderiam alimentar o mundo virtual em esporádicos registros de vídeo, no entanto, tratavam-se, sim, de interação social à vera, não prescindindo de presença física, de contato humano, de fortalecimento dos afetos.
Lembrando que, naqueles anos, a internet engatinhava no Brasil, e a propagação de blogs, fotologs e coletivos digitais só se daria nos anos 2000 – depois viriam o Orkut, o Facebook e o Youtube e tudo o que conhecemos, hoje em dia, de mídias sociais. No caso do modelo Tiny Desk, ele foi amplamente utilizado e popularizado durante o período pandêmico, entre 2020 e 2022, com uma enxurrada de lives e festivais produzidos em todo o planeta exclusivos para a internet, sem a presença de público nos locais das gravações.

Como vivemos, atualmente, uma espécie de "plataformização" de nossas vidas, com (quase) tudo acessível na palma das mãos – vide os onipresentes smartphones e tablets –, a busca incessante por likes e views, a fim de direcionar os algoritmos a promover legitimação, validação e conquista de seguidores, virou modo de vida para cada vez mais pessoas. E se muita gente deixa de sair de casa para ir a um ensaio de um grupo musical ou teatral, uma roda de conversa ou de música, trocando essas possibilidades pelo vício digital, podemos entender que há mais um problema a enfrentar.
A torcida permanece para que o isolamento social, tão importante na contenção do contágio pelo vírus SARS-CoV-2 (responsável pela infecção respiratória aguda Covid-19) e que ajudou a nos manter vivos durante aqueles terríveis anos, seja apenas uma memória ruim e algo a evitar no futuro próximo. O complicado é que a pandemia e o subsequente pandemônio, agora, acontecem por engajamento, validação permanente e interação virtual (em detrimento da interação real). E esses males, ao que parece, vieram para ficar.
Amaudson Ximenes Veras Mendonça é fundador do OBSKURE e da Associação Cultural Cearense do Rock (ACR), sociólogo e pesquisador.

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