O clássico do Judas Priest sobre a angústia de crescer: "Como eu me encaixo?"
Por Gustavo Maiato
Postado em 14 de setembro de 2026
Um dos épicos mais celebrados do Judas Priest tem muito mais de Rob Halford do que o público imaginava. Em entrevista à revista britânica Classic Rock, o vocalista revelou que "Beyond the Realms of Death", do álbum "Stained Class", de 1978, nasceu de sentimentos que ele carregava na época em que ainda escondia a própria sexualidade do mundo.
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Halford faz questão de dividir o mérito da faixa com o guitarrista Glenn Tipton. "Glenn é responsável por um dos solos mais gloriosos da história do metal nessa música. Mas, inconscientemente, tem muito de mim nela", afirmou. Na entrevista, o cantor chegou a recitar trechos da letra, que fala de um homem que chega ao limite e se refugia dentro da própria mente. Depois, explicou de onde vinha aquele sentimento.
"É sobre isolamento e rejeição, uma sensação de escuridão. Acho que, principalmente para os homens, existe essa angústia de crescer: como eu me encaixo? E você só quer se trancar no seu quarto. Essa é a história por trás de 'Beyond the Realms of Death'", contou.
Halford sabia que era gay desde a infância, e os colegas de banda aceitavam. Fora do grupo, o cenário era outro. No Reino Unido de 1977, a homossexualidade havia sido descriminalizada fazia apenas dez anos, e quase não existiam músicos assumidos. Foi nesse contexto que ele escreveu "Raw Deal", de "Sin After Sin", sobre bares gays de Fire Island, em Nova York, um lugar que nunca tinha visitado.
"Tudo veio da minha imaginação. Toda aquela história de entrar num bar, pedir um bourbon ao barman, dar um tapa na cara dele, os caras de couro, os caras de jeans...", relembrou, rindo. A letra termina com o provérbio "Love knoweth no laws" (o amor não conhece leis), que a Classic Rock atribui ao dramaturgo inglês John Lyly, do século 16. "É verdade, o amor não tem lei. Todo mundo na banda confiava tanto em mim que nunca questionou aquela letra. Eles só diziam: 'Aqui está a música, coloque umas palavras nela'", completou.
A mesma solidão aparece na balada "Here Comes the Tears", que Halford já descreveu como um retrato dele próprio, aos 26 anos, "chafurdando na autopiedade". Nas letras, porém, tudo ficava nas entrelinhas. "Embora houvesse esses pequenos passos em direção ao meu mundo e à minha identidade sexual, eu nunca tive uma agenda. Nunca tentei usar a banda para os meus próprios fins. A gente nunca discutia as letras nem o que elas significavam, só se funcionavam na música ou não. Ninguém mais sabia", ressaltou.
No fim dos anos 1970, o visual de couro preto e cota de malha adotado pela banda virou uniforme do heavy metal e permitiu ao vocalista se esconder à vista de todos. Décadas depois, Halford assistiu ao documentário "The Ballad of Judas Priest" ao lado do marido, Thomas, no Festival de Berlim. "Foi muito poderoso. Eu não sabia o que esperar, e vieram muitas emoções, risadas, lágrimas, todos os elementos que formam esta banda", disse.
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