Peter Hook conta como Joy Division foi do auge à estaca zero em poucos meses
Por Bruce William
Postado em 08 de novembro de 2026
No começo de 1980, o Joy Division atravessava um de seus melhores momentos. O álbum de estreia, "Unknown Pleasures", havia conquistado reconhecimento, o grupo preparava seu segundo trabalho e uma turnê pelos Estados Unidos estava nos planos. Os músicos estavam tão satisfeitos com o que faziam que, segundo o baixista Peter Hook, chegavam a olhar para as outras bandas com certo desprezo. Poucos meses depois, entretanto, tudo mudaria com a morte do vocalista Ian Curtis.
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Em entrevista à revista Classic Pop, replicada na Far Out, Hook recordou como o sucesso crescente havia influenciado a maneira como os integrantes do Joy Division enxergavam seu próprio trabalho. "No começo de 1980, éramos convencidos, confiantes e quase arrogantes. O Joy Division era tão bom que, quando olhávamos para nossos concorrentes, caíamos na risada", contou.
A situação mudou radicalmente em 18 de maio daquele ano, quando Curtis morreu, aos 23 anos, um dia antes da viagem que daria início à primeira turnê americana da banda. Hook, Bernard Sumner e Stephen Morris decidiram continuar fazendo música, mas o recomeço seria muito mais difícil do que imaginavam. "Quando Ian morreu, escorregamos pela serpente e fomos parar lá embaixo, como New Order. Tínhamos uma atitude diferente, um pouco mais humilde. Não tínhamos cantor, então não tínhamos nada em nosso arsenal. Foi um período sombrio", explicou o baixista.
A expressão utilizada por Hook faz referência ao jogo de tabuleiro Snakes and Ladders, no qual o participante pode subir rapidamente por escadas ou perder praticamente todo o progresso ao cair numa serpente. Era assim que ele enxergava a passagem de uma banda que parecia pronta para conquistar o mundo para outra que precisava descobrir como funcionar sem seu principal vocalista e letrista.
O baixista contou que a convivência entre os músicos ajudou a enfrentar aquele período. Eles continuaram frequentando o mesmo local de ensaios, compondo e saindo juntos, tentando preservar alguma normalidade. Mas a ausência de Curtis afetava profundamente o processo criativo. "Com Ian, éramos sempre nós quatro compondo juntos. Assim que ele deixou de estar lá, tudo ficou obviamente 25% mais difícil. Mas nossa eficiência nem sequer chegava a 75%, porque agora precisávamos fazer dois trabalhos: nos concentrar em cantar e tocar nossos instrumentos."
A possibilidade de recrutar outro vocalista chegou a ser considerada. Hook mencionou Kevin Hewick e Simon Topping, do A Certain Ratio, entre os nomes cogitados, mas reconheceu que substituir Curtis teria sido uma tarefa ingrata. "A pressão e a expectativa de substituir Ian Curtis, se tivéssemos continuado como Joy Division, teriam acabado com qualquer um", afirmou. A solução foi transformar o grupo em New Order, com Sumner assumindo os vocais e Gillian Gilbert posteriormente completando a formação.
O recomeço ficou registrado em "Movement", álbum de estreia do New Order, lançado em 1981 e ainda bastante próximo da sonoridade sombria do Joy Division. Com o tempo, a banda encontrou uma identidade própria, incorporando elementos eletrônicos e alcançando grande sucesso com músicas como "Blue Monday" e "Bizarre Love Triangle". Para Hook, entretanto, aquela transformação esteve longe de ser simples: os músicos precisaram reconstruir sua confiança justamente quando pareciam ter perdido tudo o que haviam conquistado.
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