Blackbriar chega a sua maturidade em "A Thousand Little Deaths"
Resenha - Blackbriar - A Thousand Little Deaths
Por Maicon Leite
Postado em 23 de outubro de 2026
Quando o Blackbriar decidiu se isolar na mesma mansão onde gravou o videoclipe de "Until Eternity" (música do EP de estreia de 2015) para compor seu terceiro disco, o recado estava dado: o grupo precisava dar uma olhadinha em suas próprias raízes antes de dar o próximo grande passo. E faz todo sentido, pois longos dez anos já tinham se passado e muita coisa havia mudado. O sexteto construiu uma base de fãs muito boa de forma totalmente independente e na raça - chegando a arrecadar 70 mil euros em um financiamento coletivo para seu primeiro disco de estúdio -, até chamar a atenção da gigante Nuclear Blast. O fruto desse retiro na mansão é "A Thousand Little Deaths" (2025, lançado aqui no Brasil pela Shinigami Records), um trabalho que escancara uma banda inspirada.

Confesso que me surpreendi com a qualidade do grupo. Até então, havia acompanhado a banda de "canto do olho", sem me aprofundar muito em seus discos, afinal, é praticamente impossível dar atenção para tudo o que é lançado. Ciente do hype alcançado, ouvi o álbum diversas vezes para compreender as razões desse sucesso. O fato é que "A Thousand Little Deaths" é um daqueles discos gostosos de ouvir, justamente por encontrar um equilíbrio entre as partes mais pesadas e os momentos mais leves. Para quem acompanhou aquela efervescência do Gothic e do Symphonic Metal entre a segunda metade dos anos 1990 e o início dos 2000, com nomes como Dreams of Sanity, Lacuna Coil, Nightwish, After Forever e Theatre of Tragedy, é uma boa surpresa conferir o Blackbriar.
Trabalhando novamente ao lado de Joost van den Broek - produtor holandês que já trabalhou com nomes como Epica, Ayeron, Star One, Blind Guardian e After Forever -, o Blackbriar encontra o ponto exato entre arranjos elaborados e momentos mais, digamos, agressivos ou pesados. O produtor ajudou o grupo a evitar a armadilha do excesso de orquestrações, tão comum em bandas mais modernas, focando em uma sonoridade encorpada, na qual as orquestrações ampliam as músicas sem atropelar guitarras, baixo e bateria. As guitarras de Bart Winters e Robin Koezen ganharam muito mais destaque, dividindo a condução das músicas com o baixo de Siebe Sol Sijpkens e a bateria de René Boxem. Fechando o pacote, os teclados de Ruben Wijga costuram as faixas na medida certa, mantendo o clima noturno sem engolir os outros instrumentos.
No centro de tudo, Zora Cock segue brilhando. Sem apelar para malabarismos vocais cansativos, a vocalista funciona quase como uma sereia, utilizando a voz como um fio condutor para hipnotizar o ouvinte. Que voz mais linda... O título do disco não foi escolhido ao acaso: durante as sessões, a banda percebeu que o tema da morte e do luto se esgueirava de forma recorrente por quase todas as letras. A interpretação de Zora transita assustadoramente bem entre a fragilidade e os picos de intensidade, algo que dita as regras logo de cara na imponente faixa de abertura, "Bluebeard's Chamber". Poderíamos até dizer que existe um acento Pop em algumas composições, como em "A Last Sigh of Bliss", com ótimas orquestrações e piano. Em "Green Light Across the Sky", Zora rouba a cena de imediato, com um arranjo mais "angelical", para em seguida os riffs irromperem e guiarem a condução da música.
Em seus 42 minutos e dez faixas, "A Thousand Little Deaths" deixa um pouco de lado as viagens mais excêntricas dos EPs antigos para apostar de forma inteligente na estrutura musical. A banda foca em refrãos marcantes e grandiosos, criando um Dark Metal sinfônico - ou seja lá como você prefere definir a banda - direto e acessível. É um disco realmente inspirado, mostrando o Blackbriar em sua melhor forma ao equilibrar contos de fadas às avessas com riffs potentes.
E exatamente um ano após o álbum, a banda lançou um novo EP, intitulado "A Long Cursed Sleep", que será tema de outra resenha.
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