A última grande música de rock antes de o McDonald's perder as cores, segundo Rick Beato
Por Gustavo Maiato
Postado em 22 de outubro de 2026
Uma pergunta da filha de 13 anos sobre como eram os anos 60 levou Rick Beato a revisitar a própria infância. Nascido em 1962, em Rochester, no estado de Nova York, o músico contou em vídeo publicado em seu canal no YouTube que guarda na memória uma década de céu muito azul e cultura vibrante, das guitarras de Eric Clapton e Jimmy Page às roupas coloridas dos Beatles na época de "Sgt. Pepper's". A lembrança o levou a "O Mágico de Oz", de 1939, e à cena em que o filme salta do tom sépia para o technicolor, processo de cores saturadas que ele diz reproduzir na estética dos próprios vídeos.

O contraste, segundo Beato, está no mundo cinzento de hoje. Ele citou memes que comparam a escadaria vermelha de "Esqueceram de Mim", de 1990, à versão atual, de visual corporativo, e o antigo McDonald's de telhado vermelho ao redesenho sem personalidade. Mostrou ainda um gráfico de cores de carros desde 1990, cada vez mais dominado por branco, cinza e preto, e brincou com o próprio SUV, azul-marinho com reflexos roxos, o único daquela cor na loja. Para ele, a mesma tendência atinge a música há anos, no que chamou de morte da cor.
Por cor, Beato entende tudo o que escapa da escala: progressões de acordes incomuns, notas dissonantes e as extensões que o jazz chama de color tones (notas de tensão acrescentadas ao acorde), como nonas, décimas primeiras e décimas terceiras. Ele lembrou "God Only Knows", dos Beach Boys, e "Strawberry Fields Forever", dos Beatles, além da nona menor tocada por Roger Manning no sintetizador no refrão de "All the Small Things", do Blink-182, faixa que abriu sua série "What Makes This Song Great". Ao se perguntar quando esse tipo de detalhe sumiu das paradas, fez um diagnóstico do pop atual:
"Não estou dizendo que toda a música moderna está nessa escala de cinza, mas a maior parte da música popular está, porque, se é popular, foi homogeneizada. E isso acontece por causa da internet. É por isso que não existe mais monocultura, e por monocultura eu quero dizer músicas que todo mundo conhece, já que tudo é controlado por algoritmos. Sem monocultura, não há subculturas, porque não há nada contra o que se rebelar. Não existe uma disco para o punk rock se rebelar contra, não existe um hair metal para o grunge se rebelar contra. Qualquer coisa interessante se esgota rápido demais com a viralização, então o que se torna popular costuma ser incrivelmente sem graça."
A resposta para o momento em que a música voltou do technicolor ao sépia, na visão do youtuber, é "Everything in Its Right Place", do Radiohead. O disco "Kid A", lançado em outubro de 2000, não teve singles: a banda apostou em pequenos clipes que Beato compara aos shorts e vídeos de TikTok, marcando o começo do marketing viral. A faixa voltou à tona meses atrás, quando a cantora Victoria Canal viralizou ao tocar "Blackbird", dos Beatles, sobre a progressão da música, inspirando bateristas, baixistas e guitarristas a gravar por cima. Para ele, a sequência que parte de dó maior e passa por ré bemol com sétima maior e 11ª aumentada representa o auge da cor na música popular.
Beato também resgatou uma entrevista de Thom Yorke à revista Rolling Stone, em 2001, e disse que a letra soa profética hoje. Na conversa, o vocalista ligou a canção a um show em Birmingham, na Inglaterra, em 19 de novembro de 1997. "Saí no fim daquele show, sentei no camarim e não conseguia falar. Eu realmente não conseguia falar. As pessoas perguntavam 'você está bem?'. Eu sabia que estavam falando comigo, mas não conseguia ouvir nem falar. Eu simplesmente tinha chegado ao limite. E estava entediado de dizer que tinha chegado ao limite. Eu estava além disso", relatou Yorke, que rebateu quem considera a letra sem sentido: "Não é. Ela é totalmente sobre isso."
O calendário, segundo o youtuber, reforça a tese. Com o Napster circulando desde 1999, o ano 2000 marcou o pico de vendas da indústria fonográfica e o início de sua queda, que coincidiu com o ponto mais alto da harmonia nas canções que tocavam nas rádios. "Não consigo pensar em nenhuma música como essa desde então", concluiu Beato, que encerrou o vídeo convidando os seguidores a deixar sua opinião nos comentários.
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