Como um alto-falante destruído e um acidente de fábrica ajudaram a criar o heavy metal
Por Bruce William
Postado em 16 de outubro de 2026
Entre a explosão da beatlemania, em 1964, e o surgimento do Black Sabbath, poucos anos depois, o rock passou por uma transformação impressionante. As guitarras ficaram mais agressivas, os amplificadores ganharam potência e os riffs começaram a ocupar um espaço cada vez maior nas composições. Essa evolução não aconteceu de uma hora para outra: envolveu músicos em busca de novos sons, experiências com equipamentos e até acidentes que acabariam influenciando o nascimento do heavy metal.
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Um dos episódios mais conhecidos aconteceu com Dave Davies, guitarrista dos Kinks. Insatisfeito com o som de seu pequeno amplificador Elpico, o músico resolveu danificar o cone do alto-falante, usando uma lâmina. Depois, conectou o equipamento a um Vox AC30, obtendo uma distorção agressiva que se tornaria uma das marcas de "You Really Got Me", lançada em 1964. A música, construída sobre um riff simples e poderoso, ajudou a estabelecer uma linguagem que seria amplamente explorada pelo hard rock e pelo heavy metal.
Ao mesmo tempo, músicos como Pete Townshend, do The Who, queriam tocar cada vez mais alto. Essa necessidade levou ao desenvolvimento dos amplificadores Marshall de 100 watts e das enormes caixas acústicas que se tornariam presença habitual nos palcos. Em entrevista à Vintage Guitar, o próprio Jim Marshall recordou o pedido de Townshend: "Acho que foi em 1965, quando Townshend disse que precisava de cabeçotes de 100 watts. Fizemos os três primeiros para ele". A solução incluiu grandes conjuntos de alto-falantes que permitiam às guitarras competir com baterias cada vez mais poderosas.
Os Beatles também participaram dessa busca por sonoridades mais pesadas. Em 1968, durante a gravação de "Revolution", John Lennon queria uma guitarra particularmente suja e agressiva. O engenheiro Geoff Emerick conseguiu o efeito conectando os instrumentos diretamente à mesa de gravação e sobrecarregando dois pré-amplificadores. O resultado foi uma distorção tão intensa que existia o risco de danificar o equipamento. No mesmo ano, "Helter Skelter" mostraria Paul McCartney explorando uma abordagem igualmente barulhenta, com guitarras saturadas e vocais gritados.
Bandas como Cream e Led Zeppelin levaram adiante essas experiências, combinando o blues com amplificadores potentes, guitarras distorcidas e riffs que muitas vezes eram acompanhados pelo baixo. Mas o Black Sabbath acrescentaria um elemento fundamental: uma atmosfera sombria, alimentada por andamentos arrastados, melodias ameaçadoras e intervalos musicais dissonantes. O trítono usado no riff da faixa "Black Sabbath", por exemplo, ajudou a estabelecer uma identidade bastante diferente daquela do rock britânico de poucos anos antes.
O guitarrista Tony Iommi também precisou adaptar sua maneira de tocar depois de perder as pontas de dois dedos da mão direita num acidente de trabalho. Ele passou a utilizar próteses improvisadas e cordas mais leves, além de experimentar afinações mais graves. Numa entrevista à Guitar World, realizada ao lado de Eddie Van Halen, explicou: "Nos primeiros tempos, quando fizemos 'Master of Reality', baixei a afinação porque tocar na afinação padrão costumava doer". A mudança, perceptível em músicas como "Children of the Grave" e "Into the Void", também contribuiu para tornar o som do Sabbath ainda mais pesado.
O heavy metal, portanto, nasceu de um processo que já estava em andamento havia anos, envolvendo artistas que nem sequer pertenciam ao gênero. Dos experimentos dos Kinks e Beatles à busca por volume do The Who, passando pela força dos riffs do Led Zeppelin e pelas soluções encontradas por Iommi, diferentes caminhos acabaram convergindo para uma nova maneira de tocar rock.
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