"Lucifer III" ganha nova vida em edição brasileira em vinil
Por Bruce William
Postado em 11 de outubro de 2026
Há discos que envelhecem porque pertenciam demais ao momento em que foram feitos. "Lucifer III" seguiu pelo caminho inverso: quando apareceu, em 2020, já parecia ter escapado de alguma prateleira esquecida dos anos setenta. Seis anos depois, essa sensação continua intacta - e talvez até combine melhor com a nova edição brasileira em vinil splatter verde e preto lançada pela Melômano Discos, limitada e acompanhada de encarte.

O terceiro trabalho do Lucifer também ocupa um ponto particularmente interessante na discografia. O peso carregado de doom do primeiro álbum havia sido amenizado em "Lucifer II", que abriu mais espaço para hard rock, psicodelia e melodias imediatas. Em "III", os dois mundos parecem finalmente encontrar um acordo. Não é uma volta ao começo nem uma repetição do antecessor: é um disco mais seguro daquilo que quer ser, equilibrando escuridão e refrões pegajosos sem parecer que está tentando provar alguma coisa.

"Ghosts" abre o disco praticamente como uma declaração de intenções. A bateria de Nicke Andersson empurra a música com um balanço que ele próprio descreveu para a Metal Hammer, curiosamente, como uma tentativa de juntar Motown e Lynyrd Skynyrd. Talvez ninguém chegasse a essa combinação sozinho ouvindo a faixa, mas ela explica bem a maneira como o Lucifer trabalha: referências antigas entram na panela sem virar simples reprodução. Por cima disso está Johanna Sadonis, cuja voz continua sendo o elemento que imediatamente impede a banda de parecer apenas mais um exercício de nostalgia.
"Midnight Phantom" é ainda melhor nesse sentido. Um riff que Nicke diz ter começado quase como death metal desemboca numa música cheia de melodia e até cravo, com clima de filme de horror barato assistido de madrugada - e digo isso como elogio. "Leather Demon" (youtube), guardada desde as sessões de "Lucifer II", puxa novamente o disco para regiões mais sombrias, enquanto a faixa "Lucifer" acelera as coisas com uma bateria na qual Andersson assumiu sem cerimônia que tentou misturar Lee Kerslake e Bill Ward.
Essa coleção de referências poderia transformar o álbum num jogo cansativo de "descubra a influência", mas felizmente as músicas funcionam sem manual de instruções. "Pacific Blues" tem a sombra do Blue Öyster Cult tão evidente que Nicke nem fez questão de escondê-la. "Coffin Fever", também recuperada de ideias antigas, traz um riff mais ameaçador e aquela combinação de peso e elegância que o Lucifer domina muito melhor quando evita exagerar na encenação ocultista.
"Flanked By Snakes" é uma das que mais me chamou a atenção no lote e talvez a mais divertida. O ponto de partida foi "Starstruck", do Rainbow, banda que Andersson admite ter aprendido a apreciar melhor com o tempo. A influência aparece mais no espírito do que na cópia: guitarras ágeis, melodia imediata e uma energia que impede o álbum de ficar soterrado no próprio clima sombrio. Logo depois, "Stay Astray" traz outra coincidência curiosa: alguém avisou Johanna e Nicke que a introdução parecia muito com uma música do Rush que nenhum dos dois conhecia. Eles foram conferir e descobriram que realmente parecia. A história resume bem como funciona um gênero construído sobre décadas de riffs que inevitavelmente começam a conversar entre si.
O encerramento com "Cemetery Eyes" é inteligente justamente porque desacelera tudo. A faixa cresce aos poucos, ganha dimensão nas guitarras e fecha "Lucifer III" sem necessidade de uma explosão final. É uma das músicas em que fica mais evidente como a banda havia amadurecido desde o primeiro trabalho: as referências continuam antigas, mas os arranjos já não dependem apenas delas para se sustentar, no que confirma o caráter mais amplo e seguro do álbum, sem abandonar a identidade retrô construída anteriormente.
Johanna e Nicke estavam no centro criativo do Lucifer naquele período, com Martin Nordin e Linus Björklund nas guitarras e Andersson acumulando bateria, baixo e outros instrumentos em estúdio. A capa de Graham Humphreys - artista conhecido por seu trabalho ligado ao cinema de horror - completa um pacote que praticamente implora por uma edição física. No Brasil, "Lucifer III" já havia sido lançado em CD pela Hellion Records em 2020. Agora, a Melômano Discos recoloca o álbum no catálogo nacional em vinil splatter verde e preto, limitado a 300 cópias.
Se "Lucifer III" não reinventava o hard rock quando saiu, também nunca pareceu interessado nisso. Sua qualidade está justamente em saber como manipular uma linguagem antiga sem tratá-la como peça de museu. Sabbath, Blue Öyster Cult, Rainbow, psicodelia, doom e rock setentista estão todos espalhados pelo caminho, mas o disco continua soando como Lucifer. E, seis anos depois, essa talvez seja sua maior virtude: não precisa de contexto de época para funcionar. Basta colocar a agulha no sulco.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O que realmente significa quando um álbum é lançado em versão remasterizada?
A música que o Black Sabbath escreveu para "A Hora do Pesadelo 3"
Amanda Somerville se manifesta após diagnóstico de tumor cerebral agressivo
Rockstar Games divulga rádio de GTA 6 com Kerry King e Tom Araya
A música contra o capitalismo desenfreado que rendeu milhões para a banda
Como seria o Pink Floyd se Syd Barrett tivesse permanecido na banda?
Rolling Stones voltam ao estúdio apenas três meses após lançar novo álbum
Amigo revela que Mike Love (Beach Boys) enfrenta sérios problemas de saúde
Teria o movimento punk zoado o Black Sabbath por pertencer a um "mundo antigo"?
Dave Lombardo ainda escuta thrash metal? O próprio responde
Johnny Ramone: o guitarrista que revolucionou o rock com três acordes faria 78 anos
Tobias Forge (Ghost) reativa sua banda de death metal, Repugnant
Dregen nega que saída do Hellacopters tenha ocorrido em comum acordo
O clássico de Chuck Berry que Marc Bolan usou para criar um hino do glam rock
"Lucifer III" ganha nova vida em edição brasileira em vinil






