Dois discos do Pink Floyd que parecem feitos por bandas diferentes - qual é o melhor?
Por Bruce William
Postado em 08 de outubro de 2026
Poucas bandas chegaram ao ponto de lançar dois discos com o mesmo nome na capa e, ainda assim, soar quase como projetos de grupos diferentes. Com o Pink Floyd isso aconteceu de maneira particularmente clara em "The Final Cut", de 1983, e "The Division Bell", de 1994. Entre um e outro estão a saída de Roger Waters, batalhas judiciais, mudanças de comando e uma reconstrução que alterou profundamente a dinâmica interna do grupo.
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"The Final Cut" nasceu num momento em que Waters já dominava praticamente todo o processo criativo. O álbum, inicialmente pensado a partir de material relacionado a "The Wall", acabou transformado pela Guerra das Malvinas e pelo desencanto de Waters com a política britânica. O próprio site oficial do Pink Floyd descreve o trabalho como um disco de forte mensagem antiguerra, dedicado também à memória de seu pai, morto na Segunda Guerra Mundial.
A situação dentro da banda, porém, estava longe de ser saudável. Richard Wright já não fazia parte do grupo e David Gilmour e Nick Mason tiveram participação criativa bastante reduzida. Anos depois, Waters resumiria para Pink Floyd Z as gravações de maneira pouco romântica: "Fazer 'The Final Cut' foi uma miséria. Nós não trabalhávamos juntos. Tive que fazê-lo mais ou menos sozinho." Porém, mesmo nesse ambiente, o disco chegou ao primeiro lugar no Reino Unido e ao sexto nos Estados Unidos.
Onze anos mais tarde, "The Division Bell" nasceu praticamente do movimento contrário. Waters já estava fora havia anos, e Gilmour, Mason e Wright voltaram a trabalhar a partir de improvisações e ideias desenvolvidas em conjunto. O site oficial do Pink Floyd destaca justamente a participação renovada de Wright, que novamente ajudou a construir e desenvolver as músicas desde o começo.
Gilmour chegou a dizer na época que o álbum lhe dava uma sensação muito diferente dos trabalhos anteriores. "Eu, Rick e Nick nos juntamos e funcionamos bem como uma unidade de uma maneira que não acontecia havia muitos, muitos anos", afirmou em entrevista à Guitar World. Para ele, "The Division Bell" tinha caráter de esforço coletivo muito maior do que "A Momentary Lapse of Reason". Wright também lembraria que a intenção inicial era justamente recuperar uma "sensação de banda" que havia desaparecido nos anos finais com Waters.
Essa diferença aparece até na personalidade dos dois discos. "The Final Cut" é sombrio, político e profundamente pessoal, praticamente construído em torno das letras e da visão de Waters. "The Division Bell" aposta muito mais em atmosfera, guitarras, teclados e no tema da comunicação - com faixas como "High Hopes", "Keep Talking" e "Wearing the Inside Out". Comercialmente, também foi um enorme sucesso, chegando ao primeiro lugar no Reino Unido e permanecendo meses nas paradas.
Colocados lado a lado, os dois discos parecem registrar duas respostas completamente diferentes para a mesma crise. Em 1983, o Pink Floyd ainda tinha Waters, mas praticamente já não funcionava como banda. Em 1994, não tinha Waters, porém Gilmour, Mason e Wright faziam questão de recuperar justamente essa ideia de trabalho coletivo. Escolher o melhor, então, depende também do que cada ouvinte procura no Pink Floyd: a intensidade amarga e concentrada de "The Final Cut" ou o som expansivo e melancólico de "The Division Bell".
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