Confessori traz um trabalho moderno, técnico e ambicioso em seu álbum solo de estreia
Por Gleiner Ambrosio
Postado em 03 de novembro de 2026
Após o conturbado encerramento da terceira formação do Shaman em 2023, cada membro da banda tomou rumos bastante distintos desde então: Luis Mariutti lançou o excelente e sombrio álbum solo "semi-instrumental" denominado "Unholy" (2023) e o polêmico "The Game of Us" (2025), da Ready to Be Hated; Hugo Mariutti lançou seus dois álbuns solo "The Last Dance" (2023) e "This Must Be Wrong" (2025); Alírio Neto (finalmente) ingressou no Angra; Fábio Ribeiro passou a compor a banda de apoio do ex-vocalista do RPM, Paulo Ricardo, e Ricardo Confessori, por fim, acaba de lançar seu primeiro álbum solo.
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Dentre aqueles que trouxeram novos trabalhos solo, no entanto, Confessori trouxe aquela que talvez seja a abordagem mais ousada e desafiadora dentre eles: produzir um álbum de prog/power com toda técnica e peso característicos do gênero, mas com um distanciamento sonoro tanto de seu trabalho pretérito com Angra e Shaman como, também, de seu prévio trabalho como baterista e compositor.
Produzido pelo próprio baterista, Realm Breaker (2026) é um álbum que já se diferencia por sua longa gestação: com um total de 12 faixas gravadas entre 2023 e 2026, buscando se afastar dos apertados prazos de composição de suas antigas bandas, Confessori decidiu lançar as primeiras faixas do álbum em formato de single, começando com "Where The Eagles Fly" (2023) e finalizando com a faixa-título, "Realm Breaker" (2026).

Tal independência também se refletiu na estratégia de contar com diferentes vocalistas para cada faixa: no todo, o trabalho reúne participações dos convidados Dan Vasc, Bruno Sutter, Mizuho Lin, Guilherme Hirose, Carlos Zema, Daniel Pinho e Fabio Caldeira, mantendo fixos, além do baterista, Affonso Junior nas guitarras e Thiago Larenttes em uma série de funções, que vão da produção musical, mixagem e masterização até gravação de guitarras, baixo, piano, teclados, sintetizadores, programação e orquestrações – além do excelente e recém-efetivado tecladista do Mastodon, João Nogueira, o "Rasta", que contribui com solos de teclado em "Magic Sprouts of Hope" e "The Dark Passenger".
Conceitualmente, o álbum se desenvolve parcialmente como uma narrativa de ficção científica sobre o choque entre o instinto humano e a inteligência artificial. Longe de tratar a tecnologia como mero pano de fundo, a história percorre um caminho que vai da esperança e da descoberta até a dependência e o controle, chegando, por fim, à possibilidade mais sombria de todas: a de que as ferramentas criadas pela humanidade passem, em algum momento, a ditar as próprias regras globais.
O disco, logo de cara, já entrega a sonoridade que vinha sendo concebida desde os primeiros singles: um som moderno e encorpado, com orquestrações grandiosas, elevado número de notas na guitarra e no teclado, e, por fim, uma bateria que se mantém em picos de BPM em quase todas as faixas.
Ainda que, conforme ressaltado, esses elementos sejam bastante comuns ao prog/power e a uma série de faixas gravadas e compostas por Confessori no passado, as semelhanças param por aí: em primeiro lugar, ainda que o álbum solo seja de um baterista, surpreendentemente, não estamos falando de um álbum que possa ser tratado como "baterístico". Isso porque nenhuma das faixas surgiu da percussão, mas sim da guitarra (com exceção de "Black Mirror", que foi concebida, inicialmente, no teclado). Não é segredo para ninguém que Ricardo, como compositor, já havia trazido composições a partir de outros instrumentos além da bateria desde a fundação do Shaman (sobretudo pelo teclado, remetendo ao seu primeiro instrumento de estudo: o piano). Aqui, porém, tal abordagem foi ainda mais intensa, com riffs e solos bem virtuosos.
Em segundo lugar, a abordagem baterística também traz consigo elementos muito diferentes em quase todos os sentidos, seja na sonoridade do instrumento, seja na construção de suas próprias linhas: quanto ao som, exceção feita aos primeiros singles, estamos falando de um álbum executado e construído por meio de um método de gravação muito peculiar: enquanto os tambores foram todos gravados em uma bateria eletrônica, os pratos foram todos gravados de forma acústica e inseridos na mix em substituição às versões eletrônicas. Com isso, ao mesmo tempo em que o álbum tem um som limpo e sem vazamentos, a sonoridade dos pratos trouxe um elemento mais orgânico ao álbum, unindo praticidade de gravação com a preservação do elemento orgânico que haveria em uma gravação acústica de estúdio. Sinceramente, à primeira "vista", há um choque, pois Ricardo quase sempre prezou por um som quase que 100% orgânico em seus trabalhos anteriores (até mesmo por fugir do uso de triggers, algo bem comum de ser usado por bateristas de heavy metal nos bumbos). Mas é inegável que foi uma bela sacada! Deixo, abaixo, o vídeo em que ele explica a metodologia de gravação por ele empregada:
Quanto à construção das linhas, há outro grande choque: foram praticamente limadas as influências de música brasileira e latina. Aqui, ainda há rudimentos rápidos e desafiadores, mas que apostam mais na velocidade do que em seus tradicionais grooves "abrasileirados" de bateria – o que, de acordo com o baterista, foi algo deliberadamente feito com o intuito de se afastar daquilo que havia feito até então e não se repetir.
Passando para as faixas, temos aqui 8 composições tradicionais acompanhadas por 4 faixas orquestrais de introdução e fechamento, o que trouxe mais corpo e grandiloquência à atmosfera geral do álbum.
No início, temos a dupla "Parmi Les Ruines Naissent L'Espoir et Le Trésor" e "Black Mirror", com Mizuho Lin nos vocais da última. Nela, merecem destaque as orquestrações da primeira e a construção de uma criativa linha de teclado na segunda, que é sucedida por vocais operísticos que ornam perfeitamente com a construção proposta.
Logo após, entra "Into Dark Matter", que surpreende tanto pelos vocais rasgados de Guilherme Hirose quanto pelos complexos e velozes rudimentos de bateria em diversos trechos, com destaque para as viradas nos tons e o uso do pedal duplo antes de chegar ao refrão. Na ordem de lançamentos, talvez essa tenha sido a primeira faixa a investir de forma mais pesada nas orquestrações, que são muito bem acompanhadas por um "interlúdio" de piano.
Em seguida, "Magic Sprouts of Hope" apresenta um dos refrãos mais bem construídos do disco, elemento tremendamente favorecido pela escolha do vocalista, Daniel Pinho, que consegue alcançar notas agudas na medida certa, e pelo riff principal de guitarra.
Em "Ösel Solis", a faixa instrumental do álbum, as virtuosas linhas de guitarra criadas por Thiago Larenttes são perfeitamente acompanhadas, nota por nota, pela bateria de Confessori, culminando em uma das faixas mais técnicas de todo o repertório – tamanho o número de viradas! Tematicamente, o mantra do título ("viver com clareza interior e agir com energia luminosa"; Ösel, do tibetano, "luz clara", e Solis, do latim, "do Sol", conforme explicado por Thiago) representa um interessante contraste atmosférico e temático com a dupla de faixas seguinte.
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