Matthew Hopkins, o terror do "Witchfinder General" e o seu legado no Heavy Metal
Por Maicon Leite
Postado em 07 de novembro de 2026
O século XVII britânico abrigou um dos episódios mais sombrios de histeria coletiva, fanatismo e carnificina liderados por uma dupla impiedosa: Matthew Hopkins e John Stearne. Sob o autoproclamado título de Witchfinder General (General Caçador de Bruxas), a dupla aproveitou o colapso social para instaurar um reinado de terror. O rastro de sangue deixado por eles transpassou os séculos, cravando-se na cultura do horror, na literatura fantástica e tornando-se um alicerce temático e visual para o Heavy Metal.
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O cenário, o vácuo de poder e o estopim
Na década de 1640, a Guerra Civil Inglesa causou o colapso do sistema judiciário regular. Os juízes profissionais (os assizes) não podiam viajar em segurança, deixando a lei nas mãos de tribunais locais amadores e propensos ao pânico. Foi nesse cenário que Matthew Hopkins emergiu. Filho de um clérigo puritano, ele era um homem de posses modestas, atuando como um advogado inexpressivo e lidando com estágios avançados de tuberculose. A ignição da carnificina, contudo, veio de seu sócio mais velho, John Stearne.
Em março de 1644, na cidade de Manningtree, a perseguição teve seu início trágico com Elizabeth Clarke. Ela era o alvo ideal para o pânico moral: uma viúva idosa, pobre e que possuía apenas uma perna. Hopkins e Stearne a mantiveram acordada e sob vigilância por noites seguidas. Em completo delírio pela privação de sono, Clarke confessou ter relações com o Diabo e foi forçada a nomear outras mulheres locais, gerando um efeito dominó de acusações que banharia a Inglaterra de sangue.
O alvo perfeito e o lucro sobre a miséria
A cruzada transformou a vulnerabilidade social em uma máquina de extorsão. O terror raramente mirava em pessoas poderosas. A esmagadora maioria das vítimas era composta por mulheres idosas, marginalizadas ou sem proteção política. Enquanto o salário de um trabalhador agrícola era de parcos 6 pence por dia, estima-se que a dupla tenha acumulado cerca de £1000 cobrando taxas extorsivas. Algumas cidades precisaram instituir impostos especiais apenas para bancar os honorários da matança.
Demônios familiares e vítimas animais
O fanatismo punia até mesmo os animais. A crença ditava que bruxas controlavam demônios familiares, e Hopkins executava cães, gatos, furões e até sapos das acusadas, inventando nomes bizarros para esses supostos demônios, como Vinegar Tom (descrito como um galgo com cabeça de boi) e Pyewackett.
Os métodos de tortura extrema
Entre 1644 e 1647, a dupla enforcou cerca de 300 pessoas - mais execuções por bruxaria do que nos 160 anos anteriores somados na Inglaterra. As confissões eram extraídas por meios implacáveis:
A picada (Pricking): Usando agulhas (algumas retráteis, para fraudar o teste), perfuravam marcas nas acusadas. Se a vítima não esboçasse dor ou não sangrasse, a marca do Diabo estava comprovada.
Privação de sono e exaustão: Amarradas e forçadas a caminhar por dias ininterruptos, as acusadas entravam em colapso físico, gerando falsas confissões.
O teste da água: Atiradas em rios amarradas, as que flutuassem iam para a forca; as que afundassem eram inocentes, frequentemente morrendo afogadas no processo.
A oposição de John Gaule e a queda
O declínio de Hopkins não ocorreu por justiça divina, mas por oposição interna da Igreja. Em 1646, John Gaule, o vigário da paróquia de Great Staughton, percebeu a extorsão. Gaule publicou o panfleto Select Cases of Conscience touching Witches and Witchcrafts, onde expôs e condenou publicamente os métodos de tortura sádicos e a fraude financeira da dupla, virando a opinião pública e os magistrados contra eles.
Enfrentando essa oposição, Hopkins tentou justificar seus atos publicando o panfleto The Discovery of Witches (1647). A capa dessa publicação trazia uma xilogravura rústica dele cercado por bruxas e animais bizarros - uma imagem que se eternizaria séculos depois. Contrariando a lenda de que teria sido enforcado, o inquisidor faleceu em sua cama, vitimado pela tuberculose avançada em 12 de agosto de 1647.
O legado no cinema e na cultura pop
A crueldade consolidou-se na cultura através do cinema em 1968, com o clássico Witchfinder General (no Brasil, O Caçador de Bruxas). Dirigido por Michael Reeves, o filme foi uma co-produção de baixo orçamento (100 mil libras) da Tigon British Film Productions e American International Pictures.
A atuação magistral de Vincent Price e o excesso de sadismo garantiram o status "cult" à obra. Nos Estados Unidos, o filme foi rebatizado de The Conqueror Worm numa tentativa de associá-lo à série de adaptações de Edgar Allan Poe dirigida por Roger Corman, embora o roteiro não tivesse relação com os contos do autor.
Na literatura, o medo supersticioso virou alvo de sátira. No livro Belas Maldições (Good Omens, 1990), Neil Gaiman e Terry Pratchett ironizam a histeria criando o inútil "Exército dos Caçadores de Bruxas".
O inquisidor no panteão do Heavy Metal
Foi no Heavy Metal, contudo, que a figura encontrou devoção absoluta. A história de Hopkins e a estética do filme de 1968 forneceram o combustível definitivo para a música pesada:
Estética e samples no Doom Metal: A banda pioneira Witchfinder General formou-se em 1979 adotando o nome da obra. A icônica xilogravura da capa do panfleto de 1647 tornou-se um padrão visual inesgotável para estampas de camisetas, patches e encartes no Black e Doom Metal. Décadas depois, o Electric Wizard adotou a prática de utilizar samples de áudio direto do filme com a voz de Vincent Price nas introduções de suas faixas.
O relato clássico: O Cathedral registrou a hipocrisia em "Hopkins (The Witchfinder General)" (1995), com a letra impiedosa: "Matthew Hopkins witchfinder general / Your soul condemned to hell". O Saxon escancarou a falácia do afogamento na veloz "Witchfinder General" (2007): "Trial is by water; no one can win / Drowned and you're innocent, guilty you swim".
O pioneirismo no brasil: O grupo paulista Vírus foi pioneiro no Metal nacional, gravando "Matthew Hopkins" para a cultuada coletânea "SP Metal" (1984).
A continuidade do terror com o Phantom Star
A tradição de converter essa violência histórica em Heavy Metal segue firme e atual. Formada em Curitiba no ano de 2024, a banda de Heavy Metal Phantom Star mantém viva a história com o single "Witch Hunt", lançado em maio. Carregando influências declaradas de medalhões como King Diamond e Savatage, o sexteto não romantiza a figura do inquisidor, mas documenta o clímax desesperador da perseguição religiosa. A letra da música resume o império do medo: "The Witchfinder general purges the land witch terror / Marked by the fate he is the unholy emperor / She Burn's into the fire"

Após os "Touch of a Curse" e "I Am the Storm", a faixa "Witch Hunt" serviu como o principal pilar de aquecimento para o lançamento do álbum de estreia autointitulado do grupo. O disco chegou ao público no dia 20 de junho, com lançamento oficial pelo selo Classic Metal Records.
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