Mayhem: O melhor show da banda no Brasil dos últimos tempos

Resenha - Mayhem (Clash Club, São Paulo, 09/10/2016)

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Por Miguel Júnior
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“Seu cuzão do caralho!” – Foi assim, em alto e bom português, que o MAYHEM, em sua página oficial na principal rede social do momento, horas depois do show, se referiu àquele brasileiro visto em foto num dos metrôs paulistas com um tecido estampado surrupiado da lateral do palco da noite de ontem. Show que celebrava o álbum na íntegra “De Mysteriis Dom Sathanas”, intenso, com boa resposta do público, terminou ainda com mais porradas.

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Era para ser o álbum na íntegra, mas foi muito mais. Tinha todo o ritual, tinha a pausa, o interstício, o suspense, a fumaça, as frases em latim, a maldição e a explosão do som que vinha para fazer a roda eclodir. Quando “Funeral Fog” começou, a tensão era tanta que o público não sabia se gritava “Mayhem, Mayhem” ou se esperava o vocalista Attila aparecer, o único ainda a não subir no palco. O começo da faixa de abertura tem pelo menos 1:30 sem vocais, o que foi suficiente para uma roda violenta já no primeiro instante de show. Quando Attila aparece, muitos levantam os braços e cantam junto, letra a letra, até o refrão.

Fim da primeira faixa. Mais suspense. Sons ritualescos, satanismo. A voz da gravação clássica do ex-vocalista Dead vem bem alto pelas caixas de som: “When it’s cold, when it’s dark, the freezing moon can obsess you” (quando está frio, quando está escuro, a lua congelante pode te obcecar). Mesmo com o fato de todos nós já sabermos de cór e salteado o álbum nas nossas cabeças, ali tudo tinha um pacto, um rito, um thriller, que ia aos poucos dominando o espaço e o ar. “Freezing Moon” é um dos pontos altos já marcando o show logo de cara, com o solo belíssimo envolto pela fumaça na iluminação azul que fez lembrar a capa do álbum. Estonteante performance no vocal também a de Attila, ainda entregando muito bem esta faixa até hoje.

Sempre, ao final de cada faixa, uma breve pausa, escuridão, sons obscuros. A ideia parecia não entregar abruptamente a obra prima de uma vez, mas fazer nós todos apreciá-la aos poucos, aos pedaços. “Cursed in Eternity” marcou a velocidade da bateria de Hellhammer, ao lado do ótimo baixo de Necrobutcher, ambos da formação original que davam o tom ainda mais histórico da apresentação. Foi aí que veio “Pagan Fears” para mostrar que o passado está vivo, botando a casa toda para gritar “the past is alive”, gritando junto com o Attila, e para todo mundo ali que quisesse ouvir.

Há quem diga que as faixas desse álbum são em sua maioria fáceis de tocar, e que não deve ter sido difícil para os guitarristas novos da turnê aprenderem, mas podemos dizer que não é isso o mais importante, e sim o peso e a história que este material representa, de tudo o que aconteceu lá nos anos 90, e de tudo o que foi criado a partir deles. Assim, nada melhor do que dizer “Life Eternal” ao MAYHEM. E essa foi a paulada seguinte. Frases dessa faixa como “I am a mortal but am I human? (seria eu mortal, mas sou pelo menos humano?) foram gritadas em conjunto, num caótico contexto infernal que seguia rumo à bateria rápida propícia às rodas.

Rodas. Rodas. Rodas. Necrobutcher se mostrava até mesmo satisfeito em nos ver na pancadaria e deve ser por isso que nos reservou algumas boas surpresas ao final. Depois de “From the Dark Past” e “Buried by Time and Dust”, tocadas com excelência, a faixa derradeira, que encerra o disco, caracterizada por um uso de canto mais elaborado, teve um Attila um pouco mais trabalhado, mas não menos brutal. Era a faixa título “De Mysteriis Dom Sathanas”. E quem pensava que iria acabar ali, estava terrivelmente enganado.

Depois de um breve hiato, e uns gritos de “Mayhem, Mayhem”, a banda volta ao palco e toca nada mais, nada menos que três faixas do seu EP ultra clássico Deathcrush, realizando algo que não fez em nenhum show dessa turnê do disco, apenas para nós, paulistas. “Deathcrush”, sozinha, já foi suficiente para derrubar a casa, mas ainda veio “Chainsaw Gutsfuck”, de velocidade terrível, e a quase inaudível e matadora “Pure Fucking Armageddon”. Definitivamente, não poderia ter terminado da melhor forma, o melhor show do MAYHEM no Brasil dos últimos tempos.

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Sobre Miguel Júnior

Paulistano, não tem banda porque não sabe tocar, exceto tirar trechos de black metal no violão. Escreve basicamente resenhas de shows que assiste, e deve ter uns 50 ingressos de show já assistidos guardados. Ouve metal mais pelo som, permitindo-se ouvir bandas cuja ideologia não inteiramente concorde. Quer escrever sobre todos os shows extremos e sinceros que acontecem em São Paulo.

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