Mayhem: Satanismo, backdrop e a banalização do certo e do errado

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Por Diego Baldraco
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Na última semana, a banda norueguesa Mayhem passou pelo Brasil em sua mais recente "Latin American Tour". Esta tour levou ao público a execução do clássico "De Mysteriis Dom Sathanas" na íntegra. O álbum, lançado em 1994, é considerado um dos mais influentes álbuns do Black Metal e do metal extremo no geral. Ter a chance de ver a execução do álbum do início ao fim foi uma oportunidade única na vida de quem pode comparecer aos 3 shows que a banda fez, sendo o primeiro dia em Curitiba, PR (07/10), Rio de Janeiro, RJ (08/10) e São Paulo, SP (09/10).

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Um fato marcante aconteceu no último show de São Paulo. A banda publicou às 22:11, um pouco depois do show a seguinte frase em sua fan-page no Facebook: "Salute to the fucking idiot that stole one of our backdrops tonight at the São Paulo show. A real winner. Seu cuzão do caralho!!!", traduzindo: "Saudações ao idiota que roubou um dos nossos cenários esta noite, no show de São Paulo. Um verdadeiro vencedor..."

Imediatamente, uma enxurrada de comentários começou a surgir nesta postagem. O número de respostas passa de várias centenas, Além de outras tantas centenas de compartilhamentos. O que chama mais atenção em tudo isso é o fato de existirem alguns comentários criticando a banda, favorecendo assim, a ação de quem furtou o objeto de palco, inclusive de gente do próprio cenário do Heavy Metal.

Na mesma noite, um usuário do Facebook postou uma foto do suposto indivíduo que furtou. A descrição da imagem dizia: "Filho do camarada com a bandeira do show do Mayhem". Depois da imagem ser veiculada na postagem que a banda tinha feito, esta mesma foto recebeu outras inúmeras respostas com críticas e ameaças. No outro dia, a postagem original já tinha outra descrição: "Filho do Varg Vikernes com a bandeira do show do Mayhem", fazendo alusão à história do Mayhem com o ex-integrante e criador do Burzum. Destaca-se que em alguns momentos, a pessoa tenta se justificar, uma hora dizendo que achou a foto no site de pesquisa Google e em outra hora dizendo que recebeu pelo aplicativo WhatsApp e não sabe de onde veio.

O fato é que houve o furto cometido por alguém que estava no show. Falha da produção, da organização ou da segurança? Não se sabe, mas conforme o Art. 155 do Código Penal, "Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel" é crime. E quem comete crime é criminoso, ou mais vulgarmente "ladrão".

Mais uma vez, chamo a atenção de alguns comentários na postagem do Mayhem no Facebook:

"Só porque roubaram um pedaço de pano, as madame é NOOOOOOOOOOOSSA!"

"QUEM NUNCA PEGOU BALAO DE ENFEITE EM FESTA DE ANIVERSÁRIO QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA"

"Tão falando pra caralho pagando de true mas num aguenta o roubo de um backdrop. Vai chorar na europa porra."

"Isso aqui é brasil porra. Noruega eh o caralho. Nórdicos o caralho. Se veio pra cá pagando de mal e satanista. Aguenta."

"Esse pessoal chora demais, quando roubaram o crânio MELISSA do KING DIAMOND foi em AMSTERDAM, até hoje não acharam. E o país não ficou queimado também."

"Absurdo! Eles não tiraram foto do coleguinha morto pra botar na capa do disco e usar partes do crânio dele como adorno pra vir alguém e roubar o paninho no show!!!"

"O Mayhem é a definição do que podemos chamar de satanistas fanfarrões."

"Os cara queimava igreja e taí nessa viadagi por causa de uma bandeirinha".

No rock, estamos acostumados a ouvir diversas histórias envolvendo bandas e músicos. Algumas delas bem inacreditáveis e de todos os tipos.

O Mayhem é uma banda emblemática dentro do seu estilo. A sua história é recheada de situações envolvendo suicídio, assassinato, violação de patrimônio e outras que acabaram influenciando, podemos dizer, na sua referência no cenário, abrindo espaço para a mídia propagar o seu nome e colocando-os no status de "ícones" do Black Metal. É claro, sem citar o fator da qualidade musical.

Independente de ser uma banda de Black Metal, com todos os seus "defeitos", poderia ser uma de Metal Melódico, ou até mesmo uma de Pop Rock ou de qualquer outro estilo, não se justifica o fato de alguém ter o direito de prejudicar um artista pelo seu bel-prazer. Pior ainda, os que justificam o ato pela história da banda, como vimos em alguns comentários inflamados acima. Estes são cúmplices que não sabem distinguir também o certo ou o errado. Tenho pena dos filhos destas pessoas, se tiverem. O futuro do Brasil.

A sociedade vive um momento onde o errado é certo, ou é bonito, ou é "cool". Assassinar não é legal, mas também não é legal e nem te dá o direito de assassinar esta pessoa que cometeu o ato. Queimar Igreja, independente de religião não é legal, assim como roubar um objeto da banda que queimou uma (ou várias) Igreja(s). E também não é legal ameaçar o cara que roubou o backdrop do Mayhem. É justo a banda fazer aquela postagem? Sim! Eles foram lesados, assim como quando alguém é lesado e fica p da vida. Seria legal pegar o cara e dar uma coça? Não! Seria legal apresentar a pessoa a polícia e fazer com que ela pague pelo erro que cometeu.

Está na hora da sociedade parar e pensar um pouco mais. Precisamos de mais empatia, aliás, poucas pessoas sabem o significado desta palavra. Parar de justificar o seu ou o erro dos outros ou de cometer erros como se fossem a coisa mais legal do mundo e ainda se autoproclamar como alguém que conseguiu algo extraordinário e que deve ser considerado um mito. A história será eterna, o mito está criado, mas para pessoas que realmente pensam, para os fãs e para a banda não passa de um mito onde o ser não passa de alguém que agiu de forma muito errada.

Particularmente tive a oportunidade de ter alguns uma breve conversa com a banda depois do show, onde foram extremamente gentis, se dispuseram a dar autógrafo e tirar fotos. Coisa que todo público quer fazer com os artistas que gosta. Na terra onde alguns acreditam que Deus e Satã travam uma luta pelas almas no além, eu tive contatos com pessoas normais, músicos, cansados depois de um show e que mesmo assim se dispuseram a estar junto das pessoas que admiram o seu trabalho.

A minha conclusão é a de "velho de guerra": sou de uma época onde eu respeitava pai e mãe, mais velhos ou qualquer outra pessoa igual ou diferente de mim. Eu admirava e ainda admiro os artistas que gosto e mesmo tendo a oportunidade de os conhecer, me coloco na minha posição. O que é meu é meu, o que não é meu, não me dá o direito de ter sem a permissão do seu respectivo dono. Não tenho a obrigação de aceitar a opinião ou a ideologia de ninguém, mas tenho o dever de aceitar que aquela pessoa é diferente e que merece respeito, assim como eu mereço ser respeitado. Vitimismo? Mimimi? Não, apenas a definição do que é certo ou errado!



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Sobre Diego Baldraco

Carioca, pai, esposo, trabalhador, aprendiz de músico e entusiasta na internet. Baterista da banda Skullbillies a qual tem uma relação de amor e ódio.

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