Burzum: Vikernes diz que não se arrepende de nada

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Por César Enéas Guerreiro, Fonte: Burzum - Official Website, Tradução
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O "Conde" não se arrepende de nada (04.07.2009)
por Rune Midtskogen

"Por pura malícia dizemos quase sempre o oposto do que os outros dizem, seja lá o que for, só para nos distanciarmos deles. Foi por isso que acabamos nos chamando de Satanistas, apesar do fato de que não éramos, de forma alguma. Não havia um único Satanista em toda a cena Black Metal da Noruega em 1991-92. Nós nos chamávamos de Satanistas porque, em geral, os músicos de Death Metal sempre foram socialmente responsáveis e tinham uma reação muito negativa em relação ao Satanismo.

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Eu enfatizei para o tribunal que eu não era, nunca fui e nunca seria um Satanista mas isso não era, é claro, um detalhe que os repórteres queriam revelar ao povo norueguês. Eles queriam que eu fosse um Satanista, então me apresentaram como um Satanista. O ambiente simplesmente era Satânico porque o foco da mídia era o Satanismo".

[Do livro ainda não publicado de Varg Vikernes].

Telemark, Junho de 2009

Estamos dirigindo por uma densa floresta, com altas montanhas e vales nos dois lados da estrada. O sol brilha no céu claro, está quente e úmido. Quando passamos por um posto de gasolina, o celular toca. É Varg Vikernes, também conhecido como "Conde". Ele que saber se estamos chegando.

20 minutos mais tarde paramos o carro numa parada de bonde. Em nossa frente está um homem alto, de boa aparência, educado, nativo de Bergen, usando calças de moletom, suéter e tênis. Partimos então para sua nova casa.

A pequena fazenda, que foi comprada por um membro da família há alguns anos, possuía uma localização idílica, tendo a natureza como seu vizinho mais próximo. Para ele e sua esposa francesa, que está grávida, e seu filho de 1 ano, a fazenda possui bastante espaço para brincadeiras e plantações.

"Comprar este lugar foi alto totalmente aleatório para nós. Queríamos um local quieto e tranqüilo, com uma paisagem bonita, fora da cidade. É muito bonito. Aqui podemos ser auto-suficientes. Mas dá muito trabalho manter todas as construções, a grama e o jardim. Eu gosto de consertar coisas e sempre gostei do trabalho braçal. Não há problema em arranjar tempo pro trabalho", - diz Vikernes.

Faz apenas algumas semanas desde que o homem, que nos anos 90 era um dos mais temidos da Noruega, foi solto - após passar quase metade de seus 36 anos atrás das grades.

Ele tinha apenas 21 anos quando, em 16 de maio de 1994, foi sentenciado à mais severa pena da Noruega - 21 anos de prisão pelo assassinato premeditado de seu colega músico Øystein Aarseth (25) [N.: Euronymous], três incêndios de igrejas e vários roubos a residências.

O julgamento, a publicidade, e os jornalistas, fizeram com que o jovem de Bergen atingisse um status quase mítico, tanto na Noruega quanto no exterior.

A revista "Dagbladet" teve acesso ao livro ainda não publicado de Varg Vikernes. O livro, que Vikernes escreveu durante seu período de quase 16 anos na prisão, é a sua versão do que aconteceu desde a formação da comunidade Black Metal na Noruega, em 1991, até a sua condenação por assassinato e incêndios de igrejas três anos depois.

No trecho abaixo, Vikernes descreve o que aconteceu quando ele foi solto após seis semanas em custódia, em 1993 - suspeito de estar por trás de vários incêndios de igrejas, pelos quais seria condenado depois.

"Fiquei muito surpreso quando saí da prisão e vi o retrato que a mídia havia pintado da situação. Havia páginas e mais páginas sobre o 'Count' [Conde], um apelido que os jornalistas conheceram através de Øystein, que me chamava assim porque eu usei o pseudônimo 'Count Grishnack' no álbum de estréia. Eu li de tudo, desde entrevistas com doentes psiquiátricos até os auto-intitulados 'especialistas' em Satanismo, embora eu tenha usado o termo Satanismo somente para provocar ou para significar 'contra o Cristianismo' pois 'Satã', afinal, é uma palavra que pode ser traduzida como 'adversário'. O Satanismo sobre o qual eu li na mídia não servia para me entender e não tinha nada a ver comigo ou com qualquer outra pessoa da comunidade".

"Eu não sou o 'Conde' que foi apresentado pela mídia. Isso foi simplesmente triste. Aqueles que me conheciam de longa data não acharam que aquilo que foi escrito sobre mim era a verdade. Mas eu tenho minha parcela de culpa, porque eu e os que pertenciam ao círculo Black Metal nos apresentamos assim. É por isso que escrevi este livro, que espero publicar. Depois desse lançamento terei encerrado minha tarefa e esquecerei o passado. Começarei uma nova fase em minha vida," - diz o homem de 36 anos.

Sentamos sob a maior árvore da fazenda. Sobre a mesa há uma garrafa de café e duas grandes tigelas com suspiros.

"Eu adoro esta árvore e este lugar. Gosto de sentar aqui e relaxar. É silencioso e tranqüilo."

É sua esposa que cuida da pequena família.

"Eu nunca pedi ajuda. Também nunca precisei," - diz Vikernes.

No dia ensolarado de verão em que Varg Vikernes foi libertado, ele já tinha quatro pedidos de condicional negados. O motivo alegado pela comissão de condicional para a rejeição foi que ele não estava pronto para a vida em sociedade. Agora - sob condicional - ele tem o dever de se apresentar a cada duas semanas durante os primeiros três meses e, durante os nove meses seguintes, uma vez por mês. Se ele cometer um crime, vai direto para a prisão.

"Claro, foi bom sair da prisão e voltar para casa e para minha família. É maravilhoso podermos finalmente estar juntos todos os dias."

Ele passa a mão pelo cabelo.

"Eu apertei o botão de pausa quando estava na prisão e apertei novamente quando saí. As pessoas conseguem se adaptar. Eu escrevi, me exercitei, me alimentei de forma saudável e me adaptei muito bem à vida na prisão."

"Mas não tenho nada de bom a dizer sobre o sistema prisional da Noruega. Não há ordem jurídica nas prisões norueguesas."

"Eu só seria provocado por Knut Storberget [N.: Ministro da Justiça norueguês], que diz que eles levam a sério o problema das drogas. Isso é besteira. Até porque eu nunca toquei em álcool ou drogas."

Quem é realmente o homem que chamamos de "Conde"?

Ele nasceu em Bergen e foi criado lá. Ainda criança, ele era muito ativo, curioso e alegre. Além disso, era muito criativo, adorava ler, ia bem na escola e tinha a habilidade de se entreter com várias coisas. Ele era membro de um clube de tiro, praticava esportes e lutas - e desde cedo foi um amante de música, especialmente clássica e folclórica, mas nunca ouvia pop.

Aos 14 anos ele ganhou uma guitarra e esse seria o começo de sua carreira musical.

"É irônico pensar que eu nunca sonhei com fama ou notoriedade. Pelo contrário, quando comecei minha banda de um homem só, eu queria permanecer anônimo. Eu usei um pseudônimo no disco, usei uma foto pela qual ninguém conseguiria me reconhecer e não queria fazer shows, nem ser publicamente relacionado à música".

Vikernes participou de várias bandas e, com somente 17 anos, foi membro do grupo Old Funeral - uma banda de Death Metal sediada fora de Bergen, em Oslo. No ano seguinte, ele fundou uma banda de um homem só chamada BURZUM - que hoje é considerada uma das pioneiras do Black Metal e que permanece como uma das mais famosas bandas do gênero.

O número de discos vendidos é desconhecido, mas estamos falando provavelmente de centenas de milhares, de acordo com estimativas feitas por especialistas da indústria musical.

"O BURZUM foi um sopro de ar fresco durante os anos 80, que foram caracterizados pela intensidade e agressão. O BURZUM introduziu uma atmosfera intensa, que era uma página que faltava na história da música," - diz um dos membros fundadores e baterista de uma das mais bem sucedidas bandas norueguesas de Black Metal, Gylve "Fenris" Nagell, do DARKTHRONE.

Vikernes já terminou de escrever nove músicas para um novo álbum do BURZUM, que ele espera publicar no próximo ano. Ele diz que várias gravadoras estão interessadas em lançar seu primeiro álbum em onze anos.

"Quero ter bastante tempo para que eu possa fazê-lo do jeito que eu gosto. É metal e os fãs podem esperar o verdadeiro BURZUM," - diz.

Em 6 de junho de 1992, a Noruega acordou com a notícia de que uma das mais populares atrações turísticas de Bergen, a igreja Fantoft, foi completamente destruída por um incêndio. Num período de seis meses, outras três igrejas de madeira norueguesas foram totalmente queimadas. A polícia fez grandes esforços para encontrar a causa do incêndio, mas demoraria ainda oito meses para agir contra Varg Vikernes.

"Quando a igreja Fantoft foi queimada em 1992, Øystein pôs na cabeça que tinha sido eu quem estava por trás, porque tivemos uma conversa algumas semanas ou meses antes sobre queimar igrejas, depois que uma igreja tinha sido queimada devido a um raio. Ele estava muito interessado em usar aquilo para promover o Black Metal norueguês e assustar 'os moleques babacas modistas que usam calças de moletom' e outras pessoas de personalidade fraca. Ele espalhou o boato de que eu tinha queimado a igreja Fantoft e isso acabou se tornando algo bem conhecido no underground. Todos 'sabiam' que eu tinha queimado a igreja Fantoft, eles acreditaram, porque Øystein tinha espalhado esse rumor. Eles não se preocuparam em me perguntar se aquilo era verdade quando me encontraram, então eu não me preocupei em tentar desmentir os rumores. Eu não levei aquilo muito a sério, e nem pensei que algo mais aconteceria por causa daquilo. É surpreendente que ninguém das bandas consideradas 'true' foi indiciado ou processado por estar por trás dos incêndios, com exceção de mim, é claro. Por que queimaríamos igrejas ou faríamos algo extremo quando já éramos considerados 'true'? Havia outros, normalmente pessoas mais jovens, que estavam por trás dos incêndios das igrejas e eles as queimaram simplesmente porque queriam ser aceitos e respeitados po Øystein, nós e pelos outros".

- Você sabe quem queimou as igrejas?

"Eu sabia, mas não tive interesse em informar isso pra ninguém. Eles tiveram bastante sucesso em condenar a si próprios sem minha ajuda. Eu não cheguei a falar com a polícia, porque eu não confiava neles. Eles não tinham interesse em revelar a verdade, apenas em me condenar."

Vikernes foi acusado de cinco incêndios e o tribunal de Eidsivating considerou-o culpado de três: da capela Holmenkollen em Oslo, da igreja Skjold em Vindafjord e da igreja Åsane em Bergen. Além disso, ele foi condenado pelo incêndio da torre do sino de Storetveit em Bergen. Vikernes foi julgado com base nos relatos de testemunhas oculares que pertenciam ao círculo Black Metal. Várias delas também foram condenadas como cúmplices em alguns dos incêndios.

Ele descreve essa época no livro da seguinte maneira:

"Quando tivemos a chance de dar uma entrevista para um grande jornal norueguês em janeiro de 1993, nós a aproveitamos. Øystein e eu concordamos que eu deveria dar uma entrevista com a qual eu assustaria as pessoas e promoveria o Black Metal. Pensamos que aquilo ajudaria a promover a 'Helvete' ('Inferno'- a loja de discos de Øystein Aarseth em Oslo que vendia Black Metal), e assim ele conseguiria mais fregueses. Com muita teatralidade e atuação, eu encontrei um jornalista cristão e, conforme tinha combinado com Øystein, disse que satanistas de uma fictícia organização estavam por trás dos incêndios.

Eu expliquei para a polícia que eu não tinha queimado igreja alguma e quando me perguntaram se eu sabia quem tinha feito eu disse que sim, talvez eu soubesse, mas não tinha a intenção de contar a eles. Como um ingênuo e influenciável jovem de 19 anos, eu fiquei desapontado, surpreendido e assustado com o interrogatório da polícia. Eles mentiram nas perguntas, inventaram testemunhas que supostamente tinham me visto em lugares nos quais nunca estive e até disseram que tinham me filmado perto das igrejas queimando. A polícia também usou deliberadamente a mídia numa tentativa de me pré-julgar".

"A mídia procurou a polícia, me entregou e foi por isso que eles souberam de mim," - diz Vikernes.

- Você se arrepende de suas decisões?

"Não!"

- Quem é você hoje?

"Eu ainda não sou a pessoa sobre quem as pessoas nas ruas acham que sabem algo."

O custo total da reconstrução das igrejas foi, na época, estimado em 45 milhões. A dívida do seguro para Vikernes era de 19 milhões, mas ele diz que nunca pagou coisa alguma. Ele deve à cidade de Oslo 23 milhões pelo incêndio da capela Holmenkollen. Ele disse muitas vezes nos últimos anos que recebeu uma notificação para pagar vários milhões de dólares em um curto prazo.

"Minha renda é zero e nunca serei capaz de pagar o que devo. A única saída é a falência. Depois talvez eu possa ganhar meu próprio dinheiro em cinco anos."

- O que você pensa hoje sobre os incêndios das igrejas?

"Nada em especial. Eu não gastei meu tempo pensando sobre isso durante muitos, muitos anos."

Tendo obtido mandados para investigar a casa de Vikernes em Bergen em 1993, a polícia encontrou 150 quilos de explosivos e aproximadamente 3000 balas de vários calibres. A mídia especulou que ele planejava explodir a catedral de Nidaros.

"Absurdo. Eu juntei tudo aquilo para defender a Noruega caso fôssemos atacados a qualquer momento. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética podiam ter decidido nos atacar. Não temos motivos para confiar no governo, na família real ou nos militares por causa do que aconteceu da última vez que fomos atacados. Temos que cuidar de nós mesmos," - disse.

Vikernes cerra os olhos enquanto olha para o sol forte e pega um pedaço de suspiro. Está quente e faz silêncio na fazenda e, ao longe, ouve-se o som de um carro. Próximo a Vikernes está seu filho, brincando com carros de brinquedo. Ao seu lado está sentada sua esposa francesa, grávida, que ele conheceu quando estava na prisão. Ano passado eles se casaram na cidade de Skien, numa cerimônia simples e privada. Faltam apenas algumas semanas até o bebê nascer.

"É divertido estar com crianças. Esperamos ansiosamente por elas, - diz ele, pai de duas crianças, tocando carinhosamente a cabeça do mais novo."

- Você conversará com seus filhos sobre o seu passado?

"É claro. Minha filha (17 anos) está estudando música em uma escola de Bergen, e todos lá sabem. Isso nunca foi um problema," - diz ele.

"Eu aceitei bem quando Varg estava preso mas, é claro, foi difícil. Viver numa pequena fazenda com um bebê pequeno exigiu muita responsabilidade. Agora estamos felizes," - diz a esposa de Vikernes, falando em norueguês com sotaque carregado.

No final do verão de 1993, o relacionamento entre Øystein Aarseth e Vikernes se deteriorou. De acordo com Vikernes, Aarseth havia perdido seu papel de líder e pôs a culpa em Vikernes, que estava recebendo mais atenção.

No dia oito de agosto daquele ano, aconteceu o seguinte, segundo Vikernes: em seu apartamento em Bergen, ele recebe uma ligação de um amigo seu e de Øystein Aarseth. Vikernes fica sabendo que Aarseth realmente planejava matá-lo. E isso apesar do fato de que Vikernes e Aarseth tinham acabado de negociar um contrato com a gravadora underground de Aarseth, Deathlike Silence Production.

"Ele queria se livrar de mim, eu deveria desaparecer. Ele usaria uma arma de choque para me derrubar. Depois ele iria me amarrar, jogar no porta-malas de um carro e me levar para uma floresta, onde iria me amarrar a uma árvore e me torturar até a morte".

Vikernes escreve em seu livro que, no dia seguinte a esse telefonema, ele recebeu uma carta de Aarseth, que a polícia confiscou mais tarde. A carta pedia para que Vikernes viesse a Oslo para que pudessem assinar contratos. Na mesma tarde Vikernes decide viajar até Oslo - de acordo com ele, com a intenção de assinar os contratos. Com seu amigo, ele faz a longa viagem pelas montanhas. Eles se revezaram dirigindo e dormindo durante a noite.

"Eu entregaria os contratos a ele imediatamente, assim não haveria mais razão para nos encontrarmos. Não tínhamos mais nada a fazer juntos e seriam apenas aqueles contratos que poderiam dar a ele um pretexto para chegar perto de mim novamente".

De acordo com Vikernes, eles estacionaram o carro por volta de três ou quatro da manhã perto de Tøyengata em Oslo, onde Aarseth vivia. Vikernes toca a campainha.

A seguir, um trecho da dramática noite da morte de Aarseth, conforme descrita no livro:

"Por causa do telefonema e da falsa carta, eu estava zangado com Øystein e, quando cheguei lá, ele pareceu ter percebido isso, porque ele parecia muito assustado. Isso ou ele pensou em seus próprios planos de me matar e se sentiu incomodado por eu ter aparecido de repente. Ele não teria mais nada a fazer, a não ser escrever outra carta ara mim. Eu não queria mais nada com ele. Enquanto eu falava, eu dei um passo para trás, o que deve ter parecido bastante ameaçador para Øystein. Ele deve ter entrado em pânico, porque ele subitamente me acertou um chute no peito, mas acertou o osso esterno, de forma que o ataque não me afetou. Eu puxei seu pé e atirei-o no chão. Ele olhou na direção da cozinha. Eu já havia estado em seu apartamento antes e sabia que ele tinha uma faca de cozinha lá, e vi que era isso o que ele estava procurando. Ele se levantou o mais rápido que pôde e correu até a porta da cozinha, que estava aberta. Ao mesmo tempo eu pulei na frente dele e puxei uma pequena faca que eu tinha no bolso. Era na verdade uma faca de bota com uma lâmina de aproximadamente dez centímetros. A faca não estava afiada, mas era pontuda, e acertei a cara dele. Foi a primeira vez que atingi alguém com uma faca e quase tive um ataque cardíaco. Senti que atingir outro homem na cara era algo muito estranho e errado.

Mas toda a aversão de esfaquear outro homem desapareceu com o primeiro corte. A barreira havia caído. Eu tive que lidar com uma pessoa que planejava me torturar até a morte e que sem dúvida tentaria executar seu plano. Øystein gritou por ajuda e parou para lutar. Eu evitei os golpes com sua faca, de forma que cada golpe acabou em um corte em seu braço ou no resto do corpo".

Aarseth foi encontrado morto vários andares abaixo de seu apartamento com 23 ferimentos de faca. Vikernes admitiu ser culpado de assassinato intencional, mas foi condenado por assassinato premeditado. Seu amigo, que tinha a mesma idade e havia viajado com ele até Oslo, foi sentenciado a oito anos de prisão como cúmplice, apesar do fato de Vikernes ter dito que ele era inocente. De acordo com Vikernes, seu amigo ficou fora do apartamento o tempo todo.

"Enquanto eu estava isolado na cela, a polícia iniciou sua campanha na mídia, ajudada pelo pessoal da imprensa. Eles apresentaram os fatos como se eu tivesse assassinado Øystein a sangue frio e que havia uma longa briga pelo poder entre nós, pelo controle da cena Metal. As pessoas tiveram a impressão que havia um tipo de organização satânica hierarquizada, que havia sido liderada por Øystein, e que eu havia tentado tomar a liderança assassinando ele. Eu não tinha interesse em ser o líder naquele ambiente. A música, para mim, era algo que eu fazia porque estava desiludido depois do fim da Guerra Fria e não sabia o que queria na vida. Ser um líder naquele ambiente era a última coisa que eu queria. Se a Noruega, naquele época, ainda tivesse o hábito de queimar bruxos na fogueira, eu com certeza seria queimado vivo, sem condenação e sem julgamento, naquele momento e local. Ao invés disso, eles tiveram que se contentar com o circo da mídia. Eles me pré-julgaram e exaltaram os ânimos em relação a mim de tal maneira que até mesmo os músicos 'durões' e 'casca grossa' do Black Metal quase fizeram fila do lado de fora das delegacias por todo o país para me condenar e jogaram em mim toda a culpa pelo que tinha acontecido. É evidente o que aconteceu: eu havia assassinado seu ídolo numa batalha pela liderança da organização fictícia de Øystein".

- Você se arrepende de tê-lo matado?

"Eu não posso me arrepender de ter tirado a vida de alguém que poderia me matar. Eu estava ameaçado pelos seus planos, mas eu nunca planejei matar."

- Você poderia matar novamente?

"Todas as pessoas podem matar. Mas há menos chances de que eu vá matar novamente, porque eu já estive naquela situação, então eu sei como lidar melhor com ela. Não é possível saber como agir em situações de ameaça sem antes estar numa dessas situações. Se eu enfrentasse a mesma situação hoje, eu entraria em contato com a polícia antes. As pessoas fazem escolhas simples quando são jovens. Havia um certo padrão de comportamento no ambiente no qual eu estava. Não é bom ser imprudente, é perigoso."

Vikernes cumpriu sua sentença em Oslo, Ringerike, Trondheim e Tromsø, onde, nos dois últimos anos, ele esteve num tipo de prisão aberta. Durante esses anos dizia-se que ele foi associado a grupos neonazistas e racistas.

"Eu nunca fundei ou fui membro de alguma dessas organizações. A única organização da qual sou membro é Riksmålsforbundet (Organização que se dedica a preservar o Riksmål como o padrão escrito da língua norueguesa)."

Durante sua estadia na penitenciária de Oslo, Vikernes escreve sobre o choque que teve:

"Dos 36 homens no departamento,havia, além de mim, somente dois outros noruegueses. Dos outros 33, havia poloneses e um alemão e o resto era formado por africanos, paquistaneses e árabes. Nos outros departamentos a situação era a mesma. Alguns dos paquistaneses não falavam nem mesmo inglês, somente urdu, e a prisão inteira fedia como um mercado árabe ou paquistanês. Isto é a Noruega? Isto é Oslo?".

Em 2003, Vikernes foi sentenciado a mais 14 meses de prisão por não ter voltado, após uma saída autorizada, para a prisão de Tønsberg. Quando a polícia o prendeu, eles encontraram entre outras coisas, um rifle automático AG-3, várias armas pequenas e aproximadamente 700 balas no carro.

"Nunca fui um nazista e não sou agora. É loucura dizer que eu comecei grupos de propaganda nazista. Se você sofre com a prisão você se torna frustrado, agressivo e impressionável por outras comunidades. O que eu fiz foi uma rebelião contra aqueles que achei que mais me ameaçavam. Aquilo foi simplesmente estúpido, mas naquele momento parecia certo. Você pode ficar realmente sozinho se você fica isolado todo o tempo e com tantas pessoas contra você."

Ele continua:

"Mas minhas posições são claras. Vejo que este país está indo pro inferno - e tento não ir pro poço junto com ele. Isto não é a Noruega. Estamos prestes a sermos trocados por estrangeiros, tanto culturalmente quanto religiosamente e geneticamente. Dê uma olhada na população hoje e compare com o que tínhamos há 50 anos."

- Você é racista?

"Sim. Mas não odeio ninguém. O ódio é irracional. Sou uma pessoa racional."

- Você é orgulhoso?

"Sim!"

- Você entende que as pessoas têm medo de você?

"Eu entendo isso, baseado na representação da mídia."

Andamos pela fazenda, coberta de flores e grama, e entramos na casa e no "espaço de trabalho". Aqui Vikernes compõe música e escreve livros. Ele planeja escrever livros de fantasia e de ficção científica; além disso, ele está trabalhando em um jogo tipo RPG. Ele já publicou dois livros que, entre outras coisas, foram traduzidos para o russo.

A família está sendo bem recebida na comunidade.

"Aqui temos tudo que queríamos. Minha família e eu adoramos."

Ele elogia o pessoal do campo e acha que são atenciosos.

"Eu não tenho mais amigos. Na prisão, eles conspiraram contra mim, não importava o que eu tenha feito nos anos que passei lá. Isso é o que eles chamam de reabilitação."

- Como você pode viver sem amigos?

"Pra mim, tudo bem. Tenho um bom relacionamento com minha família."

A revista entrou em contato com a família de Øystein Aarseth para perguntar sobre as alegações de Vikernes e sobre as novas informações presentes no livro. A família de Aarseth não quer comentar sobre o assunto.

O advogado Bjørn Soknes contesta as alegações de Vikernes de que ele foi pré-julgado e que a polícia extorquiu informações de testemunhas e forjou evidências.

"Isso é besteira," diz Soknes, que foi promotor no julgamento.

- O fenômeno do "Greven" [N.: "Conde" em norueguês] foi criado pela mídia?

"É claro que não. Ele desejava tornar-se nacionalmente conhecido."

A subchefe do departamento criminal da administração central, Elisabeth Barsett, tem a dizer o seguinte sobre as alegações de Vikernes de que ele foi pré-julgado:

"Não quero fazer comentários específicos sobre esse caso."

Anja Hegg cobriu o julgamento de Vikernes para a "Dagbladet".

- O fenômeno do "Greven" foi criado pela mídia?

"Não. Mas, em retrospecto, pode-se dizer com segurança que isso poderia ter sido feito de forma mais contextualizada."

- Ele foi pré-julgado?

"Eu não acho. Nós tentamos fazer um retrato mais contextualizado através de entrevistas com a equipe do advogado de defesa Tor Erling, comVikernes, com o pessoal do Black Metal e com seus amigos, sem sucesso..."

Autor: Rune Midtskogen ( 2009 Dagbladet)

Tradução para o inglês por Whitney Coleman



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Sobre César Enéas Guerreiro

Nascido em 1970, formado em Letras pela USP e tradutor. Começou a gostar de metal em 1983, quando o KISS veio pela primeira vez ao Brasil. Depois vieram Iron, Scorpions, Twisted Sister... Sua paixão é a música extrema, principalmente a do Slayer e do inesquecível Death. Se encheu de orgulho quando ouviu o filho cantarolar "Smoke on the water, fire in the sky...".

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