Mayhem: material inédito com Euronymous pode ser lançado

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Por Durr Campos
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O VENOM criou o black metal, mas o MAYHEM o apresentou ao diabo. Se passarmos pela coleção de polêmicas que envolveram esta banda norueguesa, é possível perceber a qualidade em sua arte. Muitos nomes não teriam sobrevivido nem metade de suas atribulações quiçá teria sanidade suficiente para continuar com o bom humor que lhe é peculiar. De volta ao Brasil pela terceira vez, a horda recebeu o Whiplash.Net para um bate-papo para lá de amistoso e divertido. Tanto Jan Axel Blomberg (aka Hellhammer) quanto Attila Csihar, baterista e vocalista, respectivamente, mostraram-se bastante interessados e responderam tudo sem rodeios, inclusive sobre assuntos mais delicados envolvendo o finado guitarrista e fundador Euronymous, assassinado há 20 anos por Varg Vikernes, da banda Burzum. Acompanhe.

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Perguntas elaboradas e conduzidas por Durr Campos
Agradecimentos ao Marcos César e Rock On Stage pelas fotos.

O último álbum da banda, "Ordo Ad Chao", foi lançado em 2007. Partindo do ponto de que o próximo já se encontra em fase de mixagem, podem nos dizer como está a sonoridade e quando estará disponível aos fãs?

Jan Axel "Hellhammer" Blomberg – Espero que em fevereiro do ano que vem. E como soa? Bem, quando eu escuto os discos vejo sempre situações distintas. Quando fizemos o "Ordo Ad Chao" estávamos naquele lance de filmes de horror, temas apocalípticos e tal. Com este novo haverá mais ficção científica, porém com o mesmo sentimento, entende?

Atilla Csihar – Creio que seja uma continuação do que iniciamos no trabalho anterior, mas eu diria que mais direto.

Hellhammer – Direto, mas estranho ao mesmo tempo. Ele vai exigir um pouco mais do ouvinte, mesmo havendo ali elementos que irá lembrá-lo de nossas raízes, porém precisará de um tempo para ser digerido.

Attila, eu li no site da Blabbermouth você afirmar que o Mayhem não é uma banda que precisa lançar um álbum a cada ano. Já que haverá um novo provavelmente em fevereiro, seis anos após o anterior, por vezes a banda fica meio cansada do material devido passar tanto tempo trabalhando nele ou mesclam com outras atividades durante o processo?

Hellhammer – Você disse isso, Attila? (risos) Bem, na maior parte do tempo fazemos nada (mais risos), daí compomos, gravamos e caímos na estrada, não exatamente nesta ordem. No Mayhem não há tempo para ficar cansado. Amamos isso tudo, seja no estúdio ou saindo por aí.

Attila – Sempre temos muito material em mãos, mas ocorrem mudanças de formação, ou coisas que tomam outro rumo sem aviso prévio. De todo modo, só lançamos algo quando estamos 100% certos sobre a qualidade daquilo, o que aconteceu justamente agora. Se tudo correr bem, creio que não levaremos mais tanto tempo entre um álbum e outro. Nem planejamos as coisas assim, tipo "ei, espere até completar sete ou oito anos para colocarmos um novo disco nas prateleiras!".

A banda nunca tocou tanto ao vivo como agora. No passado, um show do Mayhem era, de certo modo, raro, mas nos últimos 10 anos vocês estão presentes em todos os festivais mais importantes e viajando ao redor do mundo.

Attila – Este tipo de música foi criado para ser tocado ao vivo, mas também curtimos o processo de criação. E depende muito de como as pessoas nesta banda encaram a estrada. Por exemplo, da outra vez tínhamos outros membros tocando conosco e o mesmo ocorreu quando viemos pela primeira vez. Não chamamos apenas bons músicos, mas indivíduos que possam de fato agregar ao Mayhem e conviver de boa com o grupo, até porque não é fácil passar tanto tempo fora de casa. Sem essa de termos empregados, queremos todos no mesmo time. Se você observar a história da banda, que já está chegando aos 30 anos de existência, verá que é complicado fazer o que fazemos e ter por perto os caras certos para manter o espírito intacto. Às vezes é complicado até para nós dois sabermos o que está rolando. Mas representamos de alguma forma o caos e essa loucura é até interessante. Enfim, acho que vai ser bem bacana ilustrarmos isso tudo no próximo álbum.

Já que tocamos neste assunto de mudanças no line-up, esta foi a primeira vez em anos sem que o guitarrista Blasphemer estivesse por perto compondo e gravando com o Mayhem. Como foi?

Hellhammer – A mesma coisa, basicamente. Enfrentamos isso antes, quando não tínhamos mais o Euronymous conosco. Eu diria que é uma progressão natural, até porque também temos membros que permaneceram. Blasphemer foi o cara perfeito para executar aquele trabalho à época e escrever as músicas que precisávamos. Quando ele desapareceu apenas dissemos uns aos outros: "Bye bye para ele, vamos seguir em frente!"

Então ele de fato desapareceu? Esta é a palavra?

Hellhammer – Sim, apenas recebemos um e-mail que dizia: "Odeio vocês! São um bando de crianças sem coração. Tchau!" (risadas gerais)

É verdade que o Blasphemer realmente ficava puto quando era comparado ao Euronymous?

Attila – Ah sim, especialmente no início. Tudo versa sobre o ego. Sei que era realmente complicado substituir alguém como o Euronymous, mas isso vai ocorrer sempre que alguém novo chegar.

Hellhammer – Ele foi até esperto. Percebeu que não haveria mais a contribuir conosco e por isso saiu, não foi por conta de desgostar da banda, mas por ter aceitado não haver mais nada a dizer. Não falamos merda dele e o mesmo ocorre da parte de lá. Quer dizer, não somos inimigos apesar da situação do e-mail sobre o qual falamos agora há pouco.

Attila – Exato. Respeitamos uns aos outros e temos consciência de tudo o que ele fez em seus mais de 10 anos no Mayhem. Blasphemer apenas queria fazer outras coisas, o que é perfeitamente compreensível, o que não poderíamos fazer era parar. Este nome é importante para muitas pessoas, temos uma "logo" acima de nós; somos apenas parte disso, entende? Os caras responsáveis a manter o fluxo aqui e agora.

Attila, você já chegou a encontrar-se com Maniac (Nota do redator: Polêmico vocalista que esteve no grupo nos períodos de 1986–1988 e 1995–2004)? Sei que ele foi demitido por apresentar problemas com álcool, mas apenas gostaria de saber se há alguma animosidade entre vocês.

Attila – De maneira alguma, inclusive nos tornamos mais próximos depois que ele deixou o Mayhem. Estranho, não? O bacana é que somos tão diferentes em nossos estilos, mas ao mesmo tempo possuímos peculiaridades que se encaixam perfeitamente ao mesmo contexto, que é o que esta banda necessita. Todas as vezes que conversando sobre interesses pessoais e percebíamos o quão em comum temos e não só no heavy metal. Tenho um grande respeito por Maniac e o considero um excelente performer.

Hellhammer – Nem sabia que o via com essa frequência (risos). Maniac foi perfeito para o Mayhem enquanto esteve na banda, assim como Attila é o cara ideal agora e também o foi nos tempos de "De Mysteriis Dom Sathanas" [Nota do redator: Primeiro full-length da banda, lançado em 1994, após a morte de Euronymous, tendo seu assassino, Varg Vinernes (Burzum), no baixo].

Não sei se vocês leram isso, mas achei bem curiosa esta informação de que o nome do Euronymous foi cogitado para aparecer estampado na cauda de um dos aviões de uma companhia aérea norueguesa conhecida por prestar homenagens a pessoas famosas do país.

Attila – Cara, quando soubemos ficamos muito felizes. Pelo que eu saiba trata-se de uma competição online em que as pessoas votam e escolhem que personalidade estará nas aeronaves daquela companhia. Pessoalmente acho muito divertido, porque de algum modo o nome foi lembrado e está lá disponível para votação.

Hellhammer – Eu entendo isso, até porque a lista engloba noruegueses importantes para a propagação da cultura de nosso país pelo mundo, cada qual ao seu modo, e Euronymous definitivamente fez isso.

Attila – Isso, mas ninguém esperava que ele se tornasse um dos mais votados de uma hora para outra. Impressionante, cara! Ele teve pelo menos três vezes mais votos do que o anterior no ranking. Quando vi aquilo pensei: "Que porra é essa?" Depois ri para caralho! (risos)

Hellhammer – Também tem a ver com todo esse lance sobre a Noruega e o black metal. De repente o cara chega lá no site e vê a foto dele e pensa: "Hummm... este é aquele cara daquela história..." e o voto está dado (risos). Logicamente os pais dele, idiotas como são, não gostaram da ideia.

Attila - Acredito que há sempre tanta gente falando merda naquele país sobre tudo aquilo que mais parece uma conspiração em banir a memória dele de lá.

Algo que sempre quis perguntar a vocês. Há algum baú de tesouros com riffs e músicas jamais utilizadas dos tempos de Euronymous? Se sua resposta for positiva, haveria a chance desse material ver a luz do dia?

Hellhammer – Talvez. E talvez isso veja, sim, a luz do dia ou a escuridão desta luz (risos). Vamos ver se isso acontece uma hora dessas.

Attila – Também há tantos bootlegs por aí e boa parte deles desrespeita a banda. Há aquele que traz na capa a foto do Dead após cometer suicídio (Nota do redator: Leia mais sobre este episódio no link ao final desta entrevista). Sabe, é difícil para alguns de nós encararmos coisas assim, não é nada legal nem divertido. Ficamos tristes em ver que oficialmente temos algumas coisas lançadas, mas lá fora, sem nossa autorização, centenas de itens em baixa qualidade.

Hellhammer – Eu já desisti de lutar contra isso. Se quiserem fazer essa merda, façam, mas pelo menos me mandem o material para lançarmos adequadamente. Alguns até são decentes e nos enviam. Eu os respeito por isso.

Attila – Há ainda a questão das camisetas não oficiais, em especial aqui na América do Sul. Se por um lado nos incomoda, por outro mostra o quão esta banda é importante. De todo modo é sempre tão complicado negociar licenciamentos. Entendo também que muitas pessoas não tem dinheiro e veem aí a oportunidade em adquirir material do Mayhem a um preço abaixo do mercado.

Hellhammer – Você pode estar no YouTube e pensar: "que merda eles colocaram aqui?" ou pensar algo como "legal, o pessoal reserva um tempo para promover nossa música pelo mundo." Vou mais por esse lado, cara.

Hellhamer, você foi vencedor três vezes do prêmio norueguês Spellemannprisen como melhor baterista, o que me faz te perguntar se de fato o metal extremo é tão popular na Escandinávia como ouvimos falar ou se as bandas de lá fazem mais sucesso fora.

Hellhammer – Na verdade ganhei quatro vezes (risos), mas muito obrigado por mencionar. As bandas de lá fazem muito mais sucesso fora, pode apostar. Nunca pude ser realmente profissional em meu próprio país, pois tanto na Noruega quanto no resto da Escandinávia o estilo não é lá tão popular quanto parece, a projeção é bem mais externa e encaro isso de boa.

Attila – Claro que na Noruega o nome da banda aparece em jornais diários, revistas e até mesmo na TV.

Hellhammer – Que doido isso, não? (risos gerais) Mas vamos deixar as coisas claras e entender que é assim que deve ser. Não quero ver esses engomadinhos, de paletó e gravata, consumindo nossa música. Foda-se essa porra! (risos)

Esta agora é para você, Attila. Sua discografia é considerável, incluindo participações especiais. Gostaria de perguntar em especial sobre o Sunn O))). Você estará no próximo álbum previsto para 2014?

Attila – Deixa eu explicar. Não sou um membro oficial do Sunn O))), apesar de ter gravado boa parte dos discos. Como minha banda principal é o Mayhem prefiro ser este "integrante das sombras" e contribuir quando possível. O próximo será um split com o Ulver, então estou meio que fora dele ou talvez haja algo com minha voz em faixas-bônus, não tenho certeza. Eles é quem decidem, mas por mim é totalmente de boa estar ou não ali. Eu sempre estive com a banda nos shows ao vivo, portanto penso que meu papel seja por aí.

Então, Hellhammer. São quase 30 anos de carreira sendo que você está na banda desde 1988. Poderia nos citar um ponto alto e outro para esquecer?

Hellhammer – (risos) Sim, claro! (pensa um pouco) Eu diria que o highlight tem que ser o álbum "De Mysteriis Dom Sathanas" e para esquecer com certeza o que lançamos em 2004, "Chimera".

Attila – Para mim os pontos altos são os shows incríveis que fizemos nesses anos todos e, lógico, ter feito parte do "De Mysteriis...", certamente o disco mais importante da minha vida. Sem falar do meu retorno à banda, o que foi realmente importante para meu crescimento...

Hellhammer – (interrompendo) Para todos nós, cara! Estávamos sentindo a falta de termos na banda novamente aquele feeling de fazermos as coisas acontecerem, simplificar tudo e simplesmente mandar ver! Mesmo o Blasphemer, que é o rei da negatividade, falou que o retorno do Attila foi a melhor coisa que poderia acontecer ao Mayhem.

Attila – Já para esquecer eu diria todos aqueles dias envolvendo o próprio "De Mysteriis..." e tudo o que rolou com o assassinato de Euronymous. Tudo foi perdido, a situação que se seguiu era tão negativa, sem perspectiva, escuridão no pior sentido. Se bem que praticamente já esqueci daquilo tudo. (visivelmente emocionado) Perder algumas pessoas tão jovens, ver sua banda entrar em colapso... Mas está lá atrás, agora tudo parece melhor.

Matéria sobre o suicídio do ex-vocalista Dead:

Em 08/04/1991: Per "Pelle" Yngve Ohlin, aka Dead, comete suicídio

Matéria sobre a morte do Euronymous:

Euronymous: o paradoxo do caos e da liberdadeEuronymous
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A história toda segundo o Varg Vikernes:

A História do BurzumA História do Burzum

Line-up Mayhem
Attila (vocal)
Telloch (guitarra, ex-Gorgoroth)
Necrobutcher (baixo)
Hellhammer (bateria)

Links Relacionados
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Informações sobre o serviço no show de São Paulo:

Mayhem: banda segue em turnê pela América Latina



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Sobre Durr Campos

Graduado em Jornalismo, o autor já atuou em diversos segmentos de sua área, mas a paixão pela música que tanto ama sempre falou mais alto e lá foi ele se aventurar pela Europa, onde reside atualmente e possui família. Lendo seus diversos artigos, reviews e traduções publicados aqui no site, pode-se ter uma ideia do leque de estilos que fazem sua cabeça. Como costuma dizer, não vê problema algum em colocar para tocar Napalm Death, seguido de algo do New Order ou Depeche Mode, daí viajar com Deep Purple, bailar com Journey, dar um tapa na Bay Area e finalizar o dia com alguma coisa do ABBA ou Impetigo.

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