Mayhem: Uma das obras mais controversas do Black Metal

Resenha - De Mysteriis Dom Sathanas - Mayhem

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Por David Torres
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Controverso e incrivelmente influente no terreno sombrio do Black Metal, o Mayhem é uma verdadeira instituição no gênero, tendo incentivado o surgimento de incontáveis bandas ao longo das décadas. Amado e cultuado por muitos e odiado veemente por outros, a banda foi fundada em 1984, na Noruega, por Øystein Aarseth (Euronymous), Jørn Stubberud (Necrobutcher) e Kjetil (Manheim). O nome do grupo foi extraído de uma música do Venom, “Mayhem com Mercy” e, de 1986 a 1990, gravaram quatro “demos”. Após estabilizarem a sua formação, a banda passou a compor o material para o seu primeiro e histórico álbum de estúdio, “De Mysteriis Dom Sathanas”, em meados de 1990, porém, em 08 de abril de 1991, uma fatalidade aconteceu: o vocalista Dead cometeu suicídio, disparando em sua própria boca com uma espingarda após ter cortado os pulsos com uma faca. Muitos relatos bizarros emergiram dentro desse período e não se tem certeza absoluta da veracidade de certas histórias.
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Em 1993, é lançado um registro ao vivo, “Live in Leipzig” e finalmente, em 24 de maio de 1994, através da Deathlike Silence Records, é lançado “De Mysteriis Dom Sathanas”. No último domingo, essa pérola extremamente polêmica e idolatrada do Black Metal mundial completou o seu aniversário de 21 anos e o texto a seguir tem como finalidade destrinchar, dentro do possível, esse trabalho que influenciou e ainda influencia diversas bandas mundo afora.

Entretanto, antes de adentrar no conteúdo presente no disco, considero de vital importância mencionar o famoso episódio polêmico que cerca essa obra. Um ano antes de o álbum ter sido lançado, a banda reuniu o vocalista Attila Csihar (Tormentor, Burial Chamber Trio, Grave Temple, Pentemple), o guitarrista adicional Snorre Ruch (Thorns) e o baixista Varg Vikernes (Burzum). É importante ressaltar que, anteriormente, Vikernes já estava envolvido com a queima de três igrejas na Noruega. Ainda assim, com esse “line up”, começaram a gravar o registro no primeiro semestre de 1993, no Hall Grieg, em Bergen, na Noruega.

Enquanto ocorriam as gravações do álbum, tensões entre Varg e Euronymous despertaram e em 10 de agosto do mesmo ano, Vikernes e Ruch viajaram para Oslo e Varg visitou o lar de Euronymous para tratar dos álbuns lançados pelo Burzum pela Deathlike Silence, que era o selo de Euronymous. Após a sua chegada à residência, um confronto teve início. A conclusão dessa história?! Varg apunhalou mortalmente Euronymous. Seu corpo foi encontrado fora do apartamento com nada mais, nada menos que vinte e três facadas, sendo duas na cabeça, cinco no pescoço e dezesseis pelo restante do corpo. Alguns dias depois, Varg se entregou, alegando ter assassinado Euronymous para não ser morto pelo mesmo. Vikernes foi condenado a 21 anos de prisão, tanto pela morte de Euronymous, como pelo incêndio das igrejas que cometeu. Em decorrência do assassinato de seu filho, os pais de Euronymous solicitaram que o álbum não tivesse as linhas de baixo gravadas por Varg. O baterista Hellhammer concordou eliminar o som do baixo e regravá-los por sua própria conta. Contudo, em vez de regravar as quatro cordas, ele apenas reduziu o som do instrumento na mixagem final do disco. Explicado todo esse fato bizarro, vamos ao disco!

A capa desse registro é um elemento bastante emblemático e conhecido dentro do cenário do Black Metal. Ela é uma gravura da catedral Nidaros, localizada em Trondheim, na Noruega. Ainda que simples, é uma capa bastante eficiente e condizente com a proposta da banda. O álbum já se inicia de forma truculenta. “Blast beats” frenéticos apresentam a vertiginosa e insana faixa de abertura, “Funeral Fog”. É uma pancada absurdamente violenta, crua e muito rápida. “Riffs” infernais e que dilaceram os tímpanos, algumas pausas assassinas próximo ao término da introdução instrumental, uma bateria completamente demente e vocais rasgadíssimos são os ingredientes que temos aqui. Um dos destaques dessa obra, sem dúvidas! Cadenciada e possuindo uma atmosfera “doom”, “Freezing Moon” inclui variações de andamento bem conduzidas, um inspirado solo de guitarra em sua metade e um final turbulento e caótico. Uma composição fantástica e na minha humilde opinião, a melhor faixa do álbum.

“Cursed in Eternity”, por sua vez, apresenta um clima muito sombrio, além de mais doses avassaladoras de “blast beats”. Ouvindo a faixa, o ouvinte se sente teletransportado para as gélidas regiões da Noruega, tamanha a atmosfera fria transmitida em cada acorde tocado. A faixa seguinte é “Pagan Fears”, que possui uma abertura composta por “riffs” cortantes e arrastados, que induzem o ouvinte a “banguear” incessantemente no mesmo ritmo e, posteriormente, descamba em mais uma hecatombe desgraçada e profana. Igualmente explosiva, “Life Eternal” é a quinta e devastadora música do registro. Temos mais mudanças de andamento e palhetadas pungentes. Um “riff” crescente inicia “From the Dark Past”. Rapidamente, a bateria entra e já nos prepara para mais pancadaria. Os pedais duplos comem soltos, enquanto as palhetadas sujas, acompanhadas pelos vocais agressivos martelam o ouvinte por completo.

“Buried by Time and Dust” é a penúltima do álbum. Veloz e truculenta como as antecessoras. A faixa título, “De Mysteriis Dom Sathanas, é a responsável por encerrar a obra. É uma composição que faz jus total ao seu título, pois é bastante climática, soturna e violenta, com trechos velozes e outros cadenciados. Há também algumas inserções de vocais líricos ao fundo que casam perfeitamente com a atmosfera do som. Com essa composição, a banda encerra o álbum com propriedade total. “De Mysteriis Dom Sathanas” é uma obra que reserva para si diversas curiosidade que vão além do assassinato de Euronymous pelas mãos de Varg. Esse trabalho foi o primeiro disco lançado pela Deathlike Silence e foi impresso sem qualquer código de barras. O seu encarte curiosamente não possui as letras das músicas, limitando-se apenas a uma cobertura dobrável com fotos do baterista Hellhammer e do guitarrista Euronymous na parte interior.

O título do álbum, escrito em latim, significa algo como “O Ritual Misterioso do Senhor Satanás” ou “Os Ritos Secretos do Senhor Satanás”, ou pelo menos era o que Euronymous tinha a intenção de escrever, pois, na realidade, a frase não está escrita em latim correto. Também é importante mencionar também que, a versão finalizada da obra inclui a última letra escrita pelo finado Dead antes dele ter cometido suicídio, além das últimas composições registradas por Euronymous antes de seu assassinato. “De Mysteriis Dom Sathanas” pode ser também o único álbum da história do Metal ou talvez até mesmo da música como um todo onde o assassino e a sua vítima tocam juntos. Todas as prensagens em CD contém na parte traseira a frase “A Tribute To Euronymous” (Um Tributo para Euronymous), contendo as fotos promocionais de Euronymous e Hellhammer.

O álbum não aponta Attila, Varg ou Snorre Ruch W. Ruch como responsáveis pela gravação do álbum, uma vez que os únicos creditados são Euronymous e Hellhammer. Existe também um ensaio “bootleg” deste álbum chamado “From the Darkest Past”, que foi distribuído em algum momento no início da década de noventa, trazendo faixas instrumentais gravadas em 16 de Maio de 1992. A letra de “Life Eternal”, composição presente em “De Mysteriis Dom Sathanas”, é de autoria do falecido Dead. Ela foi um presente a Bull Metal, que tocou no Masacre e Typhon. Como uma homenagem póstuma a Dead e Euronymous, a banda Typhon aproveitou a letra escrita por Dead em uma composição homônima em seu álbum “Unholy Trinity”. Conforme mencionei no início do texto, o Mayhem é um grupo para se amar ou odiar. Donos de uma jornada musical de três décadas marcada por fatos controversos, a banda concebeu trabalhos interessantes em sua carreira e “De Mysteriis Dom Sathanas” é a sua obra prima. Um trabalho extremamente brutal e importantíssimo para a história do Black Metal e do Metal Extremo mundial como um todo.

Escrito por David Torres

01. Funeral Fog
02. Freezing Moon
03. Cursed in Eternity
04. Pagan Fears
05. Life Eternal
06. From the Dark Past
07. Buried by Time and Dust
08. De Mysteriis Dom Sathanas

Euronymous (Øystein Aarseth)(R.I.P. 1993)(Guitarra)
Hellhammer (Jan Axel Blomberg)(Bateria)

Músicos Convidados:
Blackthorn (Snorre Ruch)(Guitarra e Letras)
Count Grishnackh (Varg Vikernes)(Baixo)
Attila Csihar (Vocal)
Dead (Per Yngve Ohlin)(R.I.P. 1991)(Letras)

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Sobre David Torres

Moderador e criador nas páginas Mundo Metal e The Old Thrash Metal, tem como estilo predileto o bom e velho Thrash Metal e procura sempre conhecer mais e mais acerca do estilo, assim como do Rock/Metal como um todo e as suas mais variadas vertentes e subgêneros.

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