Burzum: Extremismo musical e político na Era do Grunge

Resenha - Hvis lyset tar oss - Burzum

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Por Anderson Leite
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Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Segundo a hagiografia pop corrente, os anos noventa foram invadidos por profetas apocalípticos que gritavam – em meio ao laquê das hair bands de LA, as pistolas do gangsta rap e as pickups das raves – que o túmulo do rock se encontrava aberto e fedorento. Foi quando um messias iniciou sua missão e salvou o rock do toque da sexta trombeta.

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Mas em 1994, com 27 anos, o salvador ungido de microfonia nos ofertou seu sangue e corpo. A Paixão do Cristo alternativo carregando a cruz do mainstream teve o seu Gólgota numa casa em Seattle. Uma contradição quase que barroca - algo inesperado para um típico white trash como foi o santo do Grunge – o levou a limpar com seu sangue os pecados do rock depois que os guerrilheiros não tomaram o palácio.

Mas se Cobain é produto de uma geração que cresceu na América conservadora de Reagan, Kristian Larsson Vikernes, ou Varg Vikernes, único integrante do Burzum, é filho do welfare state social-democrata da Noruega. Santo Cobain era marcado pela inadequação, pelo ódio de si – algo que é perceptível em suas letras e na série de contradições que, ao que parece, levou tão ao suicídio. Varg não. Seu ódio era dirigido contra o mundo – os outros é que são inadequados. Para ele, o bem-estar social nórdico seria apenas o ápice de um longo processo de degeneração que se iniciou com a entrada do Cristianismo na Noruega séculos atrás. Sua ideologia é um pastiche de nazismo, religião escandinava, romantismo tardio e clichês antidemocráticos e racistas.


Count Grishnackh, pseudônimo adotado por Varg retirado de um personagem do Senhor dos Anéis, não comete suicídio: um mês antes do tiro que santificou Cobain, iniciava-se seu julgamento. Acusação: assassinato de Øystein Aarseth, guitarrista do Mayhem, e o incêndio criminoso de quatro igrejas centenárias na Noruega. Hvis lyset tar oss, gravado desde 1992, foi lançado nesse mesmo mês. Desde a influência do Bathory dos primeiros discos, com seu apunkalhamento sombrio do Black Metal irônico do Venom, até a produção intencionalemente lo-fi – marca da influencia do I.N.R.I. do Sarcófago em toda uma geração de bandas norueguesas – Hvis Lyset Tar Oss sintetiza toda a linhagem do Black Metal anterior a ele. Simultaneamente, a faixa “Tomhet”, com seus 10 minutos de camadas de teclado, aproxima o Black Metal da música ambiente e eletrônica. Tal aproximação, que assusta os moralistas do metal e do rock, é apenas a consumação de um processo da qual o Black Metal, o Death Metal e o Grindcore são a quintessência: não apenas a radicalização do rock’n’roll, mas sim a ruptura – ideológica e musical – definitiva. Seja nas faixas com guitarra, baixo e bateria ou em “Tomhet”, tem-se em Hvis lyset tar oss, um eterno aceno de adeus a Chuck Berry, Robert Plant, Roger Waters e Johnny Rotten.

O rock, talvez em função de suas raízes no blues, apontava para algo em sua objetividade protestante: seja aquilo que está soprando no vento, seja a anarquia, seja a xoxota de Marianne Faithfull. Hvis lyset tar oss apenas anseia a destruição do que há e o desejo de ir para outro lugar.

Hoje o Black Metal se tornou inofensivo e completamente adaptado ao mundo que tanto odiou. O Burzum produziu dezenas de Creeds, haja visto bandas como Nargaroth que vivem de emular a sonoridade de discos como Aske e o Hvis lyset tar oss. O cenário Black Metal norueguês já foi tema de documentários como Until the light take us, além servir de ferramenta teórica para o combo filosófico do Hideous Gnosis. O Satyricon colocou modelos desfilando em seus shows e Alexandre Herchcovitch já fez uma coleção baseada na estética "corpse paint". Bandas de Black Metal entram em trilhas sonoras de filmes hollywoodianos.

Em 2009, cumprindo condicional, Varg saiu da prisão.

Apesar do armistício decretado, Hvis lyset tar oss é um dos monumentos de uma década que pedia uma ruptura que fosse além da queda do Muro e que, como em outras vezes, acabou oferecendo apenas mais um Cristo com suas relíquias sacras a serem expostas no Rock and Roll Hall of Fame. O Burzum, assim como inúmeras outras bandas de Black e Death da época, mostraram que ao apostarmos seriamente em ideologias, nos apenas acenamos para o nada – seja via suicídio, seja via arte.

Alguns acenam ao nada com pompa e tiros, outros, apesar das igrejas incendiadas e dos assassinatos, acenam ironicamente.

Faixas:
1. Det som em gangvar
2. Hvis lyset tar oss
3. Inn i slottertfra droemmen
4. Tomhet

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Sobre Anderson Leite

Ex maníaco de Sobradinho, ex professor, ex violonista clássico, ex jogador de golzinho em Taguatinga. Viveu recluso no Planalto Central, entre Grimórios, tratados afro-incaicos, LPs do Sarcófago e uma guitarra SG. Atualmente é funcionário público e conhecido nas redes sociais como Cleitossauro e trabalha na resolução da Conjectura de Hodge.

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