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Por volta de quinze anos atrás, o Iron Maiden se apresentavam por aqui, durante a turnê do Fear of the Dark, no mesmo Gigantinho da noite de ontem. Não tive a oportunidade de ver aquele show (para confessar, nem era nascido), mas, pelo que soube, foi ótimo, um verdadeiro espetáculo. Quando cheguei perto do estádio Beira-Rio por volta das três da tarde, me perguntava seriamente se a apresentação seria realmente boa ou uma perda de tempo.
Tudo começou no horário supracitado, quando a quantidade de pessoas pela fila - inversamente proporcional ao tamanho do Gigantinho – me deixou com a leve sensação de que ia dar algum problema, seja na entrada, seja durante o show. Seria minha primeira vez na pista: estivera em apenas dois shows antes desse, um do Deep Purple, em 2006; e um do Jethro Tull, ano passado - ambos resenhados pelo meu pai aqui no Whiplash - e estava com um bocado de medo de me arrepender da minha escolha, incentivada por um amigo.
Pois bem, após quatro horas de espera na fila os portões foram abertos e, após mais uma árdua hora de suor, quando eu consegui abrir caminho pela pista, chegando a aproximadamente cinco metros do palco, as luzes baixaram e a banda de Lauren Harris, a já conhecida filha do baixista do Maiden, entrou.
Minhas expectativas quanto ao som garota eram quase nulas, e elas se cumpriram. Apesar do bom instrumental, liderado pelo guitarrista Ritchie Faulkner, o som foi fraco e só valeu pelo corpo da mulher. De fato, mais eu ouvia a platéia gritar “GOSTOSA!”, “PORTO ALEGRE WANT TO FUCK WITH YOU!” e, a mais curiosa, “Muito legal, agora chama o papai!” do que a garota cantando. Ela é inegavelmente um colírio para os olhos, mas acho que faltou respeito por parte do público, afinal, estava fazendo o trabalho dela.
Após um rápido set de trinta ou quarenta minutos, o guitarrista jogou uma palheta roxa, que eu não tive a sorte de pegar, e eles se foram. Fui catapultado, de algum jeito, para mais perto do palco, e fiquei muito feliz. Afinal, poderia ver o Iron Maiden de perto! E eu nem havia acampado! Ia ser o show perfeito, afinal!
Mero engano.
Após o rápido documentário nos telões, ouvi as primeiras palavras da Churchill’s Speech e fui atingido no estômago por uma garota louca que abriu caminho para a frente da pista socando qualquer um nas proximidades. Estava preparado para aquilo, afinal, e voltei o olhar para o grande imagem dos quatro Eddies na capa de “Powerslave”, esperando a banda entrar.
Assim que soou a primeira nota de “Aces High”, e eu vi o rosto imponente do baixista Steve Harris, fui jogado para o lado pela multidão enfurecida. Não foi um simples empurra-empurra, ao qual eu já esperava – foi uma verdadeira onda de massacre, algo insano e sem motivo nenhum. Consegui ouvir a canção muito bem, mas, quando começou “2 Minutes to Midnight”, do mesmo “Powerslave”, entrei em pânico e decidi aos berros com meu amigo que teríamos que fugir para a arquibancada, adiantando o tema de “Run to the Hills”.
No pânico de fugir, não consegui ouvir a famosa canção, mas creio que estava ótima. Para reforçar o quão incivilizada estava a platéia: tentando abrir caminho para fora da multidão, pedi para um cara se afastar cutucando ele, ou algo assim. Um novo soco na barriga foi sua gentil resposta, o que me fez proferir xingamentos e tentar outro caminho.
Já estava são e salvo quando começou “Revelations”, canção histórica que fez o Gigantinho vibrar, algo emocionante de se ver. Quando as primeiras notas do maravilhoso riff de “The Trooper” foram emitidas, o pano de fundo trocou para a capa do single e um Bruce Dickinson vestido adequadamente começou a cantar “You’ll take my life, but I’ll take yours too...!”. Foi um dos momentos altos do show onde, mesmo muito distante do palco, pulei e berrei junto com o vocalista, observando que o resto do pequeno estádio fazia o mesmo.
Após “Wasted Years”, tema de “Somewhere in Time”, a voz grave proferindo um trecho do livro “Apocalipse” da Bíblia saiu dos autofalantes e a canção-hino do Iron Maiden, “The Number of the Beast”, fez quinze mil pessoas pularem e cantarem junto, caracterizando o segundo ponto alto do show. Após essa canção, fui pedir informações a um segurança, sobre onde poderia subir às arquibancadas. O homem apenas apontava para uma direção aleatória, ação que foi repedida sempre que eu voltava a levantar a questão, mostrando que toda a equipe de segurança, que deveria ajudar quem precisasse, estava de má vontade.
Já nos degraus de concreto, o clássico início de “Can I Play With Madness” foi parcialmente cantado por Bruce, que deixou o resto da frase para os fãs. A canção foi tocada com maestria pelos três guitarristas, com apoio da cozinha de Nicko e Steve. Mas tudo aquilo ficou pequeno perto de Dickinson vestido com longas roupas pretas cantando a longa “Rime of the Ancient Mariner”, canção que eu achava que ia ser maçante e poderia ser trocada por pelo menos três outras, foi um dos melhores momentos do espetáculo. Não sei se nos shows das outras cidades houve alguma modificação no palco, mas no Gigantinho não. Adivinhem o porquê.
Mas o fato é que nada disso tirou o mérito da banda executar uma faixa tão longa de maneira tão emocionante e, para usar outros termos, épica. Durante o interlúdio, sons de madeira se contorcendo foi emitido, fazendo todo o Gigantinho ser levado para o meio do caos oceano.
Não podemos esquecer da brincadeira de Bruce antes de “Rime”: o vocalista falou algo como “há uma canção, que começa assim:” e cantarolou o instrumental, e depois perguntou se conhecíamos. Após obter urros de “MAIDEN! MAIDEN! MAIDEN!” como resposta, ele expressou falsa decepção, disse “ok, lá vamos nós” e começou tudo.
Mas, voltando ao show, houve uma pequena pausa depois da épica do Iron. As expectativas eram grandes, principalmente pelo pano de fundo que mudara antes de “Ancient Mariner” e agora mostrava o interior de uma catacumba egípcia. Poucos minutos depois, Bruce Dickinson subiu ao palco, vestido com uma – perdão, fãs! – ridícula roupa com uma espécie de cocar, mais parecendo um índio do que um faraó. “Powerslave” foi executada de forma forte e fiel ao registro de “Live After Death”, o que me deixou muito satisfeito.
Após essa, Bruce vestiu roupas mais “normais’ – uma camiseta com estampa caracterizando o tórax do Eddie de “Somewhere in Time” e cantou os temas “Heaven Can Wait”, “Fear of the Dark” (nesta, o local foi lotado de isqueiros e celulares brilhantes), “Run To The Hills” e, finalmente, “Iron Maiden”, única canção da época de Paul Di’Anno. Durante ela, um Eddie de três metros de altura, saído direto da capa de “Somewhere”, subiu ao palco e “lutou” contra Dave Murray, enquanto Janick Gers jogava sua guitarra para cima. Ou assim pareceu, já que eu tive que ver o show basicamente pelo telão, após minha fuga. Tudo isso encerrou a primeira parte do show, como é de praxe em bandas deste calão.
Após o que me pareceu cinco minutos, Bruce voltou como se nada tivesse acontecido. Pigarreou e começou um pequeno discurso: como vocês devem saber, o Gigantinho é um pequeno estádio ao lado de um enorme campo de futebol do Internacional. O vocalista falou sobre isso, dizendo que da próxima vez eles iriam tocar lá, acompanhado por vaias da platéia, que mostrava indignação com os organizadores do evento.
Mas a decepção foi esquecida assim que Dave Murray apoiou seu violão sobre um suporte e tocou os primeiros acordes de uma canção rara – Moonchild. Para mim foi o ponto mais alto do show, com a música sendo executada de forma fenomenal por todos os integrantes do grupo inglês. Após ela, estava rouco e sem energias – foi quando começou “The Clairvoyant”, outro tema do mesmo álbum, que foi cantada palavra por palavra por cada uma das pessoas que estava por lá.
A última faixa de “The Number of the Beast”, a ótima “Hallowed Be Thy Name” foi executada maravilhosamente, fechando o show em grande estilo e deixando a sensação de que eles irão voltar para a capital gaúcha, principalmente após o discurso sobre o Beira Rio e os diversos “Scream for me, Porto Alegre!”.
No mais, foi um ótimo show, mas eu tenho que reforçar minha opinião sobre a platéia: pareciam monstros, trolls enfurecidos, clamando por chegar dois centímetros mais perto da banda, desconsiderando a presença de outras 15.000 pessoas por ali. Saí do Gigantinho pensando que o preconceito contra fãs de Iron Maiden – e metal em geral – é perfeitamente justificável por esse tipo de pessoa, que parece que vive para estragar o show dos outros.
Em suma: em Porto Alegre, foi um show fenomenal com uma platéia terrível.
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