David Gilmour: Entre pedreiras e teatros romanos

Resenha - David Gilmour (Pedreira Paulo Leminski, Curitiba, 14/12/2015)

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Por Fernando Yokota
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Quando as primeiras datas da Rattle That Lock Tour foram anunciadas, um fato chamou a atenção: muitos dos locais eram antigos teatros romanos. Alguns milhares de fãs europeus tiveram o privilégio de, ao menos em parte, fantasiar uma viagem no tempo e imaginar o que teria sido estar com o PINK FLOYD naqueles dias ensolarados no sul da Itália quando filmaram o clássico Live at Pompeii.

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Até onde se sabe, não existem teatros romanos deste lado do oceano. Contudo, ter a Pedreira como local para a terceira apresentação de DAVID GILMOUR no Brasil era a adaptação perfeita em termos épicos e de dramaticidade. A cidade da ópera de arame teve, enfim, sua noite antológica de teatro romano na velha pedreira. Ao amigo Leminski, pedimos licença (poética?) para contrariá-lo ao menos uma vez: talvez um homem com uma dor seja de fato muito mais elegante, mas naquela noite de segunda-feira, a única opção era ficar confortavelmente entorpecido.

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A noite, entretanto, não se resumia ao que acontecia no palco. Eram inúmeras as histórias que circulavam antes do show: da filha que prometera levar a mãe (“prometi isso há vinte anos sem ter muita esperança de um dia cumprir”), ou do fã que, operado do coração há menos de um mês, celebrava a vida com os amigos. Vivia-se um misto de ansiedade, incredulidade (ouvia-se “nunca imaginei que um dia ele viria até Curitiba” a todo instante) e alegria que se percebia tanto na peculiar doçura que pairava no ar como no semblante de muitos dos presentes.

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Às oito da noite, ainda sob a luz do dia e tocando um tema chamado 5 A.M., Gilmour toma o palco e a reação do público é a de quem quer recuperar o tempo perdido num encontro que durou mais de quarenta anos para acontecer. Envolto pelo visual da pedreira, Gilmour fala sobre o vento, as árvores e as pedras e experimentamos Faces of Stone como se estivéssemos dentro da própria canção até o ponto em que somos guiados para fora dela pelo inspirado solo de guitarra.

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Há dez anos, numa madrugada qualquer numa rua qualquer da distante Letônia, este repórter saía com de um bar com os amigos quando viu um sujeito tocando um violão surrado para conseguir uns trocados. Não deve ter sido bem assim, mas alguém pediu para o cara tocar uma música do PINK FLOYD. Relutante, ele disse que não sabia nenhuma. Relutante, me ofereci para tocar no lugar dele (ou alguém me ofereceu, já não lembro mais). Passamos o chapéu e juntamos uns bons três dias de comida em dinheiro para o rapaz. A música? Wish you were here. Toda vez que ouço essa música, o mesmo filme passa na cabeça e o nó entala na garganta. Por que seria diferente desta vez?

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Digressão à parte, Gilmour encerra a primeira parte do show com um rolo compressor na forma de Money (com solo de guitarra do amigo Phil Manzanera), Us And Them (como não lembrar de Richard Wright?), a nova e excelente In Your Tongue (uma das várias letras assinadas por Polly Samson e que leva um tempero do Floyd dos tempos de Division Bell) e a grandiosa High Hopes (essa sim um Division Bell puro sangue).

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Após uma pausa de aproximadamente vinte minutos, a banda retoma o ataque com uma dupla homenagem ao amigo Syd Barrett em Astronomy Domine e uma memorável redenção de Shine On You Crazy Diamond. Se a voz de Gilmour por vezes não esconde o sinal dos tempos, o timbre da guitarra é tudo aquilo que você sempre quis ouvir. Cada raspada da palheta na corda é sentida e se o aspecto dinâmico de sua técnica é às vezes deixada em segundo plano, isso acontece apenas por conta da perfeição das melodias de seus solos que ofuscam qualquer outra coisa.

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Junto com Wish You Were Here, Fat Old Sun, de Atom Heart Mother, é o exemplo de algo nem sempre lembrado quando se trata da influência do PINK FLOYD na música popular: transplantando uma canção com forte acento country no meio de um disco de rock progressivo, criando um "gabarito da balada de rock" para os que vieram depois (quantas e quantas canções com aquele sol maior bojudo no violão não for gravadas depois disso?). Ao vivo, Fat Old Sun ganha em corpo e sai da sombra do lado B do "disco da vaquinha" para alçar voos maiores em sua versão ao vivo. Emocionante.

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A mudança no setlist veio junto com as primeiras gotas de chuva, e Coming Back To Life entrou no lugar da até então presente On An Island para a surpresa dos não poucos que vinham dos shows de São Paulo. O show foi também especial para o saxofonista João Mello, de Curitiba, que disse em algumas poucas palavras o quanto David estava gostando dos shows no Brasil. Em The Girl In The Yellow Dress, balões surgiram da platéia, ao que parece, para a surpresa da própria banda.

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Em Run Like Hell, a garoa já havia virado uma chuva de respeito. O bis, inalterado, teve os rototons de Time arrepiando cada fio de cabelo presente. A canção nos diz que não se ganha a corrida contra o tempo, mas pelo menos naquela noite os fãs presentes sairam vencedores. Mais de duas horas depois, o fim é anunciado com Comfortably Numb. É o grand finale.

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A apresentação se deu no dia do aniversário de Phil Taylor, técnico de guitarra de Gilmour há 41 anos, e que ganhou os parabéns dos 25 mil presentes. Numa nota negativa, a despeito dos balões em The Girl In The Yellow Dress, parte do público parecia não fazer muita questão de cooperar com momentos mais quietos do show. Inspirada na perda do amigo Richard Wright, Gilmour canta sobre a dor da perda na lindíssima A Boat Lies Waiting. O que poderia ser uma espécie de "minuto de silêncio musical" perdeu parte de seu clima por conta de algumas pessoas que insistiam em conversar ruidosamente durante a execução da quieta canção. Ainda assim, um detalhe que não seria capaz de diminuir a magnitude do que só pode ser definido como "grandioso".

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Setlist:

5 A.M.
Rattle That Lock
Faces of Stone
Wish You Were Here
A Boat Lies Waiting
The Blue
Money
Us and Them
In Any Tongue
High Hopes

Astronomy Domine
Shine On You Crazy Diamond (Parts I-V)
Fat Old Sun
Coming Back To Life
The Girl in the Yellow Dress
Today
Sorrow
Run Like Hell

Time / Breathe (reprise)
Comfortably Numb

(agradecemos à Midiorama/Mercury Concerts pelo credenciamento)

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