Muse: Comprovando que veio para ficar em show de São Paulo

Resenha - Muse (Allianz Parque, São Paulo, 24/10/2015)

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Por Hugo Alves
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

O trio britânico MUSE voltou ao Brasil após um ano e meio desde sua última passagem por aqui. No ano passado, a banda deixou em terras brasileiras uma péssima impressão que, no entanto, não imputa culpa a nenhum integrante, já que o que ocasionou os vários contratempos fugia ao controle de todos: Matthew Bellamy, o vocalista e multinstrumentista, líder do grupo, aportou em “terra brasilis” vitimado por uma laringite, o que o impediu de apresentar um set regular para aqueles que seriam os últimos shows da turnê superpremiada de longa duração que promoveu o disco “The 2nd Law” (2012).

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Na prática, somente o público carioca pode presenciar o quão afiada estava a banda nesta turnê, em sua passagem como headliners da quinta edição do Rock in Rio, em 2013. Um ano depois, como headliners do Lollapalooza, eles tiveram que cancelar um “Lolla Party”, show menor que aconteceria no Grand Metropole um dia antes para que Matt se preservasse e pudesse dar o seu “melhor” dentro do possível no show de maior importância, que era o do festival em si. Porém, eles trocaram muitas músicas da setlist, deixando de lado boa parte das canções do disco supracitado, e trazendo clássicos, digamos, menos difíceis de serem cantados.

Não fosse o suficiente, um dos grandes sucessos da banda, “Undisclosed Desires” (do disco “The Resistance”, de 2009) estava na setlist, mas a banda esqueceu de tocá-la, e “Muscle Museum”, do esquecido mas ótimo primeiro disco da banda (“Showbiz”, de 1999) foi trocada de última hora por “Yes Please”, e esses foram ainda outros motivos para descontentamento. Sejamos honestos: aquele não foi o melhor show que o MUSE poderia oferecer e, para quem é fã e estava prestes a ver a banda pela primeira vez (como este que vos escreve), e que havia conseguido ingressos para o festival e para o show no Grand Metropole (que foi cancelado no dia que aconteceria), foi uma sucessão de baldes de água fria. O MUSE chegou ao Brasil, em 2015, com uma grande dívida a ser paga e com uma péssima lembrança a ser suplantada.

Os meses que precederam o esperado concerto mostraram que ainda existe um terreno a ser melhorado para que o MUSE possa voltar ao Brasil mais vezes, e em melhores condições. A empresa Time for Fun, responsável pelo evento, cometeu uma série de erros que tiraram o brilho que deveria ter permeado o evento até que chegasse o dia. Ingressos caríssimos viram poucas vendas e, por sua vez, passaram a ser disponibilizados em sites de compras coletivas e em promoções deveras desesperadas pelo próprio site Tickets for Fun (este que vos escreve só conseguiu ir ao show na pista Premium – uma grande sem-vergonhice neste país – porque comprou dois ingressos com valor inteiro pelo preço de um). Com isso, ficou inviável contratar a tal banda de abertura internacional que havia sido prevista pelo jornalista José Norberto Flesch meses antes, e foi designada para o papel a banda brasileira MAGLORE, que se sentiu honrada, mas que acabou sendo prejudicada, já que seu som em nada combina com o som da atração principal, e fez um show bastante “apagado” (o autor desta resenha chegou no local a tempo de ver somente as três primeiras canções, mas baseia-se em relatos de pessoas conhecidas que estavam no local).

Não fosse tudo isso suficiente, a logística também foi falha. Vejamos: na primeira vez que MUSE veio a São Paulo, em 2008, para promover o disco “Black Holes and Revelations” (2006, hoje já um clássico na discografia da banda), eles lotaram modestamente quatro mil pessoas no HSBC Brasil (hoje nomeado Tom Brasil). Depois disso, voltaram em 2011 para três shows como banda de abertura para o U2 (estes vieram neste ano com sua turnê 360º), promovendo modestamente o disco “The Resistance” com sets de oito canções por noite. Voltaram a São Paulo em 2014 como headliners do festival Lollapalooza, e somente neste ano de 2015 encabeçaram seus próprios shows novamente. Infelizmente, a banda ainda não conquistou público suficiente no Brasil para lotar um estádio do tamanho do Allianz Parque. Ou, se o fez, talvez isso devesse ocorrer em outra data que não no mesmo dia da primeira prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que inviabilizou o deslocamento de vários fãs na própria cidade de São Paulo mas, e principalmente, fãs de fora da cidade ou até mesmo do estado, e com preços mais justos do que os praticados (que chegaram a ser alvo de proposta de boicote pelo próprio fã-clube oficial deles no país).

Sendo assim, MUSE tocou para um bom público no Allianz Parque, vinte e sete mil pessoas, mas que foi modesto considerando o local em si. Palco em cima do gramado (trazido mais para a frente) e setor superior das arquibancadas fechado foram algumas das manobras para concentrar o público e não demonstrar que, de fato, o show “flopou”. Fica a torcida para que isso não inviabilize futuras vindas do MUSE ao país, já que de fato a banda tem público fiel, e com esses números teria lotado um local como a Arena Anhembi (onde aconteceu o show puramente “caça-níquel” da banda brasileira LOS HERMANOS na mesma data) ou similar.

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Devido ao bom atendimento aos fãs que a banda costuma desempenhar em seus meet & greets, o início do show atrasou em quase 30 minutos, gerando ainda maior expectativa em cima da apresentação. De qualquer modo, a banda subiu ao palco ao som gritado de sua introdução “Drill Sergeant”, seguida do grande sucesso do disco “Drones” (2015, motivo da turnê atual), “Psycho”, uma música fortemente influenciada pelo The Doors (principalmente no andamento do baixo de Chris Wolstenholme) e Black Sabbath (nos riffs nervosos com afinação mais baixa na guitarra de Matt Bellamy), mas ainda assim uma canção tipicamente “muser”. Ainda do novo disco, “Reapers”, com seu andamento meio Rock, meio Disco, segurou a energia lá em cima do início do show, mas foi “Plug in Baby”, maior canção do segundo disco da banda (“Origin of Symmetry”, de 2001), que fez o Allianz Parque vir abaixo e fechou a primeira trinca do show com sucesso, cantada ferozmente por todos os presentes. Momentos assim mostram que a banda tem público certo e é capaz de pintar cenários mais bonitos em suas apresentações brasileiras, desde que tenham suporte com maior responsabilidade por parte da empresa contratante.

A primeira parte do show ainda viu outras duas grandes canções do novo disco, sendo uma delas “The Handler”, pesadíssima e agitada como toda grande canção de início de show deve ser. O clima de disco novo foi brevemente cortado por “The 2nd Law: Unsustainable”, um grande espetáculo visual e sonoro, instrumental que traz um clima mais “balada eletrônica pesada” ao show, mas que honestamente poderia dar lugar a outra canção da banda que fizesse o fãs cantarem junto (como “Supremacy” ou “Hysteria”, que já foram tocadas na turnê, mas ficaram de fora deste show), mas ainda assim, um grande momento, que ficou ainda mais emocionante quando deu lugar a “Dead Inside”, outro single de sucesso de “Drones”, e canção escolhida para o tradicional flash mob nos shows da banda, onde todos acenderam os flashes de seus celulares, “ilustrando” o verso da canção que diz “light only shines from those who share”. Perfeito!

A trinca que veio a seguir não era esperada por absolutamente ninguém no Allianz Parque. Corrijam-me se eu estiver errado, mas “Resistance” se fez presente nesta turnê pela primeira vez no show em São Paulo, e o verso “love is our resistance” resume o sentimento. Inesperada e maravilhosa surpresa! Deve ser dito também que a banda vinha revezando “Muscle Museum” (prometida por Matt Bellamy para o Brasil após o fiasco no Lollapalooza do ano passado) e “Citizen Erased” (do já citado segundo disco) show após show. Na apresentação de São Paulo, a banda optou por uma saída bastante ousada: abriu mão de um de seus grandes sucessos (“Hysteria”, que vem sendo precedida pela desnecessária introdução “Interlude”) para tocar as duas para o público paulista. A decisão mostrou-se bastante acertada, já que a banda ficou muito surpresa ao ver e ouvir a grande quantidade de fãs que sabia cantar perfeitamente as letras destas grandes canções que nem sempre fazem parte das setlists da banda. Foi muito interessante e até engraçado ver no telão a expressão do baterista Dominic Howard durante os primeiros versos de “Muscle Museum”, como quem pensa “Porra! Eles sabem cantar até essa!”. Vale citar que o primeiro disco da banda dificilmente é lembrado em shows, o que tornou ainda mais especial o cumprimento da promessa da banda de tocá-la no Brasil nesta passagem por aqui.

Num outro momento instrumental, Dom Howard fez um solo de bateria bastante técnico, pesado e que não pecou pelo excesso: durou pouco e impressionou. Momentos instrumentais no meio de shows não são ruins, e são mesmo feitos para impressionar, mas quando eles ocupam o espaço que deveria pertencer a uma ou duas canções no set, viram motivo de indignação, e não foi isso que o MUSE causou. Ficam os parabéns à banda por acertar até mesmo nisso. A excitação após o breve e ótimo solo de Dom deram lugar à emoção (acentuada pelo público feminino) durante a execução de “Madness”, grande sucesso comercial do disco anterior e canção com grande apelo emotivo, de fato, uma das mais belamente cantadas pelo público – era difícil ouvir a banda neste momento. O grande momento comercial da banda ainda continua sendo “Supermassive Black Hole” e ela sempre causa grande frenesi no público em geral, não tendo sido diferente ou menos que isso desta vez. Em “Time is Running Out”, do disco “Absolution” (2003), foi muito legal ver um relógio com contagem regressiva aparecendo no telão atrás do palco, uma sacada semiótica genial, e outro grande momento de interação entre o público e a banda!

Matt Bellamy pouco se comunica com o público, reservando apenas muitos “Obrigado, São Paulo!”, “Obrigado, Brasil!”, “Valeu!” e “Thank you!”. Sua energia concentra-se em seu vocal carregado de falsetes deveras absurdos (no melhor sentido que essa palavra possa ter) e em suas guitarras. E o rapaz toca, Deus seja louvado, como toca! Aliás, a perfeição na execução das canções dá o tom da qualidade do espetáculo, todos tocam demais e, mesmo que seja possível notar uma base pré-gravada aqui ou ali (afinal, jamais que o tecladista e guitarrista adicional Morgan Nicholls daria conta de tudo aquilo sozinho, apesar de sua presença ser essencial para os shows do grupo), todos os membros da banda tocam demais! A força emotiva e instrumental da banda, ainda com vocais extremamente fortes, ficou mais do que provada com “Starlight”, que muito lembra “Radio GaGa” do Queen, não por semelhanças musicais, mas pela interação do público, que bate palmas seguindo o ritmo da canção, e “Uprising”, do disco mais politizado da banda, “The Resistance”, que teve vários “hullaballoons” sobre o público.

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Uma rápida saída do palco para a tradicional volta para o “bis” (algo que todas as bandas deveriam parar de fazer já, de tão piegas e bobo que é), e ainda deu tempo de promover mais um pouquinho o novo disco com “Mercy”, uma balada bastante carregada de sentimento e peso, muito bonita, mas a mais fraca do novo álbum dentre as que foram tocadas, e logo Chris Wolstenholme tomou a frente com sua gaita para executar a introdução “Man with a Harmonica”. Sim, era o tom do final do espetáculo, com “Knights of Cydonia”, a “Enter Sandman” do MUSE, uma grande canção, de letra curta, porém muito forte, cantada a plenos pulmões pelos fãs, que gastaram suas últimas energias ali. Ponto final, MUSE se despediu do palco jogando baquetas, palhetas e a gaita de Chris para os fãs que estavam nas primeiras fileiras, e rapidamente deixaram o palco.

O público brasileiro do MUSE é bastante apaixonado e acompanha cada passo da banda, desde o novo lançamento de um disco, passando por um estudo minucioso em cima das letras quase sempre muito inteligentes, turnês e tudo mais. Ao contrário do que dizem os pseudo-críticos musicais frustrados e fechados em suas bolhas de gostos pessoais, a banda veio para ficar e certamente, dentre as bandas consideradas “atuais” (apesar de existirem desde 1994 e terem discos lançados a partir de 1999), é a que vem oferecendo os melhores espetáculos de Rock pelo mundo. Se a empresa que contratou os shows da banda para Rio de Janeiro e São Paulo em 2015 for fazer isso novamente, fica o apelo para que façam com maior responsabilidade e um pouquinho menos de voracidade em cima do dinheiro alheio. Se outra empresa for tomar as rédeas dessa situação, já ficamos mais aliviados, pois ninguém consegue ser mais “zóião” em cima das cifras do que a Time for Fun (não é que seja errado visar o lucro, mas é preciso fazer isso direito, considerando o caminho até lá, e entregando serviço de qualidade, o que a empresa, definitivamente, não faz). A turnê de “Drones” no Brasil foi um sucesso e o que restam agora são as boas lembranças e a ansiedade que começa a nascer para que eles tragam seu espetáculo novamente. Vida longa ao MUSE!

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Sobre Hugo Alves

Hugo Alves é formado em Letras (Português and Inglês) pela UNISO – Universidade de Sorocaba e futuro mestrando em Literatura ou Semiótica. Começou a escutar Rock aos 11 anos com “Bring Me to Life” do Evanescence, mas o que o tomou para sempre para o Rock and Roll foi “Fear of the Dark” (versão ao vivo no Rock in Rio), do Iron Maiden, banda que, ao lado de The Beatles, considera como favorita, amando quase que igualmente os sons de Viper, Angra, Shaman, Andre Matos, Rush, Black Sabbath, Metallica, etc. Foi vocalista das bandas Holygator e Bad Trip, iniciantes em Sorocaba/ SP, e também toca guitarra e baixo. Outra de suas paixões é a Literatura, pela qual desenvolveu o gosto pela escrita e comunicação.

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