Muse: Uma máquina eficiente ao vivo

Resenha - Muse (HSBC Arena, Rio de Janeiro, 22/10/2015)

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Por Fernando Yokota
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Com uma HSBC Arena abrigando um público ainda diminuto, às 20h35 a banda KITA, recente participante do programa Superstar da Rede Globo, subiu ao palco para um set de aproximadamente quarenta minutos, fazendo por merecer a recepção positiva do publico com uma apresentação consistente. Fãs do PLACEBO podem conferir o som da banda sem maiores sustos.

Às 22h30, um sargento mandão no melhor estilo kubrickiano dá a deixa para a entrada do MUSE, que despacha Psycho, desvelando o retorno a uma roupagem mais orgânica, baseada no trinômio guitarra-baixo-bateria, característica facilmente notável no último trabalho, Drones. O próprio riff da música é algo reminiscente das pequenas jams que a banda costumava fazer entre canções em turnês anteriores. Reapers, também do novo álbum, faz deferência às velhas influências dos ingleses e, quase num tributo, tem sua introdução "vanhalenesca" tocada por Bellamy andando pela passarela em frente ao palco quase como o próprio Eddie Van Halen fizera no vídeo de Hot for Teacher em cima de uma longa mesa. Plug In Baby, e seu riff que lembra aqueles velhos exercícios de aula de guitrarra, é a primeira das antigas da noite para a alegria do eufórico público e foi seguida da pesada e apocalíptica The Handler, que se encarregou de encerrar o primeiro bloco da noite.

The 2nd Law: Unsustainable serve como ponte para Dead Inside, prima da excelente Undisclosed Desires do muitas vezes injustiçado The Resistance. O interlúdio que se seguiu, contudo, anunciava que a próxima canção não poderia ser outra que Hysteria, e nessa hora o teto da HSBC Arena parecia ficar mais baixo com as milhares de vozes clamando pelo coração e a alma de Bellamy, Howard e Wolstenholme.

No lugar da esperada Citizen Erased, Muscle Museum ("uma canção antiga, antiga demais, mas a tocaremos assim mesmo", disse o frontman), até então ausente na turnê atual, deu continuidade à apresentação e foi a única do primeiro álbum, Showbiz. O clima no palco parecia bem descontraído ao ponto de Bellamy se perder com risadas entre os primeiros versos. Risos à parte, o fim do mundo foi anunciado logo em seguida com Apocalypse Please e Bellamy ao piano, do tão-glorioso-quanto-apocalítico Absolution.

Ser o porta-voz do cataclismo não é pouca coisa e deve demandar muito de Matt Bellamy como cantor e, para dar um refresco, seus dois comparsas da cozinha (mais o faz-tudo e quase quarto integrante Morgan Nicholls) emendam uma peça instrumental que, por falta de um nome oficial, é conhecida como Munich Jam e seria uma bela trilha sonora para um daqueles bonus stages de jogo de pancadaria em que você tem que quebrar carros ou coisas do tipo para ganhar uns pontinhos a mais.

Até este ponto, deliberadamente se tentou evitar o uso da palavra "catarse", tão abusada por quem escreve sobre eventos musicais (este repórter não se exclui da lista de contraventores). Entretanto, não há outra expressão para descrever a sequência final que começa com Madness (que funciona bem melhor ao vivo que com fones de ouvido em casa) e seu solo de guitarra em tom de tributo a Brian May; tem a obrigatória Supermassive Black Hole (com hordas de moças correndo do bar para a pista e Bellamy enfiando a guitarra no alto-falante do amplificador) e que, com Time Is Running Out, tira compulsoriamente os pés dos presentes do chão sem dó para finalizar com a apoteótica (mais uma para a patrulha do clichê) Starlight e dar aquele "boa noite de mentirinha" com Uprising, com bolas pretas caindo sobre a plateia.

Não é regra, mas geralmente a volta para o bis é com uma canção nova ou com algo que prepare a plateia para o grand finale. Sem negar parentesco com Bliss, Mercy preenche os dois requisitos mas, só para garantir, uma chuva de papel picado e fitas garante o efeito desejado. Por último, Wolstenholme anuncia com sua gaita (e entoando um trecho de Man With a Harmonica, da deidade Ennio Morricone) a prova de que um mash-up de western spaghetti, Iron Maiden e a conquista de Marte pode se tornar o que talvez seja o magnum opus da banda na forma de Knights of Cydonia. Menção honrosa ao baixista, que bate cabeça e não faz a menor questão de esconder que é ele o metal pesado da tabela periódica da banda.

Há quem diga que os shows desse trio de Devon seja curto, mas ao vivo a sensação é outra: eles só precisam de uma hora e meia para gentilmente passar o trator na plateia e acabar com laringes, pescoços, pernas e pés de todas aquelas pessoas. Ao mais cético, cabe ao menos admitir que o MUSE é uma máquina, no mínimo, eficiente ao vivo.

(Com o agradecimento à T4F pelo credenciamento)

Setlist:

Psycho
Reapers
Plug In Baby
The Handler
The 2nd Law: Unsustainable
Dead Inside
Hysteria
Muscle Museum
Apocalypse Please
Munich Jam
Madness
Supermassive Black Hole
Time Is Running Out
Starlight
Uprising
Play Video

Mercy
Knights of Cydonia

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