Edguy: Banda paga com juros dívida com fãs de São Paulo

Resenha - Edguy, Hammerfall e Gotthard (Audio Club, São Paulo, 07/12/2014)

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Por Gustavo Dezan
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Em janeiro de 2002, o EDGUY chegava ao Brasil pela primeira vez, durante a turnê do "Mandrake". Considerada na época a banda com maior potencial para assumir o "trono" do Power Metal, os cinco jovens alemães tiveram ali, no extinto DirecTV/Citibank Hall, em São Paulo, o início de uma relação que envolve declarações de amor ao público brasileiro, uma música em homenagem e até a gravação de um DVD ao vivo, em 2006. No último fim de semana, aterrissaram na capital paulista pela sexta vez, para a apresentação definitiva. Mas chegarei lá em instantes.

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Nesta passagem, o EDGUY veio acompanhado dos ex-expoentes do metal sueco HAMMERFALL, que atualmente andam bem longe de seu auge, e da maior banda de rock da Suíça – o que eu sinceramente não sei dizer se é muita coisa –, GOTTHARD, para a primeira edição do Free Pass Metal Festival. Devo dizer que já fui fã das duas bandas em algum momento da década passada e, embora não as escutasse havia alguns anos, aquele domingo, 7 de dezembro de 2014, teria tudo para ser uma festa. E, de fato, só não fora completa porque o Palmeiras acabara se livrando do rebaixamento naquele dia.

A escolha da pouco conhecida casa de shows Audio Club, na Barra Funda, se mostrou acertada para a produção do evento, que contou ainda com as apresentações dos músicos nacionais BJ TEMPESTT e NANDO FERNANDES tocando em palco alternativo. Entretanto, a organização foi sofrível, com uma demora de quase duas horas para a abertura do estabelecimento, o que desencadeou atraso geral em toda a programação, para desespero de quem dependia do transporte público.

O Substituto

O GOTTHARD subiu ao palco depois das 19h com 16 discos na bagagem em mais de 20 anos de história, mas divulgando o recente "Bang!", o segundo com o vocalista Nic Maeder, substituto do carismático Steve Lee, tragicamente falecido em 2010. Chega a impressionar como a voz de ambos são parecidas, o que para muitos deve ser algo bom, mas que para mim chega a ser um desaforo. Algo como se os demais integrantes tivessem pensado "o cara morreu? Tanto faz, colocamos um clone no lugar".

O repertório contou com sete canções dos discos com o Maeder, o que tornou o show morno na maior parte do tempo. Empolgou o público pela primeira vez durante a quinta música, "Master Of Illusion", a primeira com cara de hit, em meio a tantas que soavam genéricas. Mesmo com Leo Leoni solando com a guitarra na nuca, a apresentação engrenou mesmo a partir da décima canção, "Starlight", primeiro single com o novo cantor, seguida por "Hush", eternizada pelo DEEP PURPLE, "Lift U Up" e "Anytime, Anywhere", clássicos que trouxeram o sucesso da banda ao Brasil em 2005.

Aço e Cerveja

Entre 1999 e 2006 o HAMMERFALL era junto com o EDGUY uma das bandas mais populares da segunda geração do metal melódico entre os headbangers tupiniquins. Mas uma série de discos pouco inspirados, a saturação do gênero e uma troca de integrantes que parece não ter fim – o ex-guitarrista Stefan Elmgreen foi recrutado às pressas para tocar baixo nesta turnê, junto com o baterista David Wallin – fizeram a banda entrar em uma inércia, para não dizer decadência. Apesar disso, o grupo monta um set list recheado de clássicos de sua melhor época, fazendo um show excelente para quem é fã, divertido para quem leva o HAMMERFALL tão a sério quanto um copo de cerveja, e não chega a ser maçante para quem não curte ou sequer conhece.

Os destaques ficaram por conta dos clássicos, "Renegade", "Blood Bound", "Let the Hammer Fall", a balada "Glory to the Brave", "Hammerfall", e o bis com "Templars of Steel" e "Hearts on Fire". Se todas essas músicas são pegajosas ao ponto do mais desavisado se perceber cantando junto, o vocalista Joacim Cans se aproveita dos coros da plateia para dar diversos "migués" vocais. O cara é bom, mas a preguiça que ele tem em alcançar quase todas as notas mais altas registradas em estúdio é enorme, proporcional à sua espontaneidade.

O Reencontro

Principal atração da noite e responsável por cerca de 70% dos 3 mil presentes, o EDGUY devia um show completo aos seus fãs brasileiros desde 2009, tour do disco "Tinnitus Sanctus", quando tocaram para um então Credicard Hall quase vazio durante uma temporada de shows do IRON MAIDEN e do KISS na cidade. Talvez por este motivo, na turnê seguinte, de "Age of the Joker", em 2012, vieram como banda de abertura para o SLASH, tocando apenas nove músicas para um público que em grande parte não os conhecia. Este contexto é importante para explicar como desta vez banda e público pareciam ter finalmente se reencontrado.

O EDGUY abriu a apresentação com a nova "Love Tyger", seguida por "Space Police", respectivos single e faixa título do álbum mais recente, lançado em abril. As duas músicas certamente foram criadas para funcionar ao vivo, porque levantaram o público desde o início, com suas melodias fáceis.

Tobias Sammet, o vocalista, então saúda o público e anuncia aquela que seria a maior surpresa da noite: "All the Clowns", lançada em 2001, cultuada por 99% dos fãs e jamais tocada ao vivo. O que os integrantes tinham contra essa música ninguém sabe, mas surgiu como resposta aos pedidos de fã-clubes da Argentina e do Brasil, e pelo jeito não sairá mais da lista.

O show prosseguiu com a manjada "Superheroes" e com a nova "Defenders of the Crown", que também funcionou pelo refrão ridiculamente fácil. Em seguida, o teclado anuncia um dos maiores clássicos da banda, na ponta da língua de dez entre dez aficionados: "Vain Glory Opera", com direito a dancinha desengonçada do trio das cordas: Jens Ludwig, Dirk Sauer e Tobias Exxel.

A pausa marota para ir ao banheiro ou beber uma água vem em seguida com o solo de bateria do competente Felix Bohnke. O cara tenta deixar o negócio mais animado tocando a Marcha Imperial de Star Wars, mas ainda assim é um solo de bateria. Até as piadinhas quase "stand-up comedy" de Sammet têm mais graça.

"Ministry of Saints" retoma com energia, e a resposta do público é tão intensa que a banda incluiu três músicas que não estavam previstas no setlist: o cover "Rock Me Amadeus", cantado em alemão, a balada "Land of the Miracle" e a venerada "Babylon". O final ficaria por conta do outro maior clássico, "Tears of a Mandrake". Não era raro ver os fãs das outras bandas delirando com essa sequência.

A essa altura, dava para notar também a satisfação nos rostos dos integrantes da banda. Tobias – que apesar da baixa estatura é um dos maiores frontmen da atualidade – reafirmava sua devoção pelo público paulista e anunciava as duas canções do bis, o rock festeiro e obrigatório "Lavatory Love Machine" e a direta e catártica "King of Fools", para pôr um ponto final no repertório, que, se não definitivo, é bem próximo do ideal.

Naquele domingo, público e banda parecem ter acertado com juros as contas pelas dívidas nas turnês recentes e celebraram juntos uma noite memorável. Foi, provavelmente, a melhor apresentação do EDGUY em terras brasileiras.

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