Ocultan e Amazarak: Guerreiros cultuando vertentes do mal

Resenha - Ocultan e Amazarak (Hangar 110, São Paulo, 30/08/2014)

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Por Miguel Júnior
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Paulo saiu para ir ao show do AMAZARAK, OCULTAN e ENTHRONED, mas não viu a última banda porque foi se matar. Como ele fez, se ele escapou e como foram os shows, é o que eu conto agora.

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Nem dois mil anos de cristianismo foram capazes de evitar que existam guerreiros cultuando, verdadeiramente, vertentes do mal. “Smelt decay into a Light of Darkness" - em outras palavras, cheira a decadência num feixe de escuridão, diz a letra da belga ENTHRONED, que encabeçaria a noite de um nublado sábado de agosto, 30, na capital paulista. Bem acompanhada pelos autênticos nomes nacionais AMAZARAK e OCULTAN, o show pontuaria a presença de estilos de vida obscuros no meio metal de São Paulo.

Paulo sabia que não se tratava só de vestir preto. Muitas vezes inconformado com diversos assuntos, desde problemas sociais, falta de dinheiro, hipocrisia, ira e ódio o levava, assim como leva a milhares no mundo, a se posicionar contra os apelos religiosos tradicionais. E a trilha sonora para este caos não poderia ser outra: "black metal". A noite no Hangar 110 foi expressiva o suficiente para envolver o teor da angústia e ressentimento que emana das letras, da música, da fisionomia de Paulo que estava lá presente.

Formada em 1997, com três registros excelentes (duas demos e um álbum), a banda paulista AMAZARAK é capaz de criar uma aura em torno do palco, como se tivessem transpirando algo entorpecedor e maldito. A música que executam vai do riff odioso ao evocativo "thrash" de "black metal 80’s" rápido, lembrando BATHORY dos dois primeiros álbuns. Liderada por Thiago Anduscias, designer gráfico conhecido no meio metal por diversos trabalhos, tem a parceria de novos baixista e baterista desde 2013 quando mudou a formação, mantendo o guitarrista original Kristiano Profano, talentoso e insano, com a presença incomparável da lenda Cavalo BATHORY, o Carlos Eduardo Campos, ex-vocalista de um mito chamado Mausouleum.

A bastante experiente e original OCULTAN, que fez 20 anos de história ao trazer a temática de origem africana no "black metal" nacional, quando sobe no palco traz à memória de Paulo os seus shows antológicos que viu em lugares como a Led Slay, em São Paulo, quando o OCULTAN abriu para o MARDUK (Suécia). Ousada o suficiente para não só colocar um tema nas letras que não se via antes feito por ninguém, tem álbuns meticulosamente criados numa base que vai desde a simplicidade complexa do primeiro “Bellicus Profanus” ao mais ódio-melodioso “Profanation”, chegando a mais três registros de responsabilidade, sendo o último de 2013, “Shadows from beyond”.

Paulo sentia ódio e refletia sobre isso ouvindo ENTHRONED. Formada em 1993, e depois de abandonar o selo Blackend, teve seus quatro primeiros álbuns relançados numa caixa. A esse lançamento a banda se opõe e não considera, porque foi disponibilizado sem o seu consentimento explícito. Hoje não há nenhum membro da formação original, desde 2006. Com álbum recente, de abril desse ano, “Sovereigns” é um "digipak" que é capaz de fluir suavemente do silencio e tom baixo para a mais majestosa marcha sob tremolo, alcançando ritmo e velocidade numa curiosa variedade de melodia obscura. Vale lembrar que a história dessa banda é marcada pelo idealizador Cernunnos, que se enforcou em abril de 1997. E é aí que a história de Paulo parece fazer algum sentido.

Após assistir os shows de abertura, depois de algumas bebidas, Paulo saiu em disparada para o metrô Armênia. Pensava em ir para a casa de alguém, pedir algum tipo de ajuda, porque se não falasse com ninguém, certamente iria fazer algo pior. Passou no banheiro, urinou e ao fechar o zíper, teve a ideia derradeira. Naquele instante, sabia o que tinha de fazer. Olhou para o teto e viu uma viga deslocada, para fora. Tirou o cinto de couro legítimo, envolveu o pescoço e por três furos se pendurou na ponta de ferro que vinha do teto. Seus pés alcançavam o chão por milímetros. Sua respiração foi hesitando, até que ele apagou por completo.

Paulo falava sozinho no show. Alguns relatam que ele dizia ver influencia de BATHORY como uma certeza no AMAZARAK, que era como se Quorthon estivesse vivo e tivesse uma banda separada, tocando "black metal" primitivo sul-americano. Para Paulo, ˜The return...", ao vivo, hoje, nas mãos do Quorthon se ele estivesse vivo, mais rápido, soaria como uma das faixas do AMAZARAK, e por isso ele estava muito satisfeito com o show. Daí, quando o último som foi um "cover", do BATHORY, "Sacrifice", foi o momento em que se podia ver brilho nos seus olhos obscuros. Em todo o show do AMAZARAK a galera da frente agitou cada música, ˜Comando blasfêmia" foi muito bem representado. Ninguém poderia dizer que Paulo morreria depois de aproveitar um show desse.

O show do OCULTAN começou logo em seguida. Paulo tomou três latões de "Brahma", mas queria "Skol" e não tinha. Falava sozinho andando entre os presentes, reclamando do preço, mas voltando atrás. Achava que existia mesmo uma cena underground, com todos elementos que isso inclui: os "posers", os depressivos, os que usam drogas, os curiosos, os desajustados, os ateus, os satanistas, tudo. Paulo olhava para cada um dos presentes e se perguntava quem eles eram nessa lista. A presença do OCULTAN no palco interrompeu sua paranóia e ele se ateve ao show. Assistiu até o final. Era o show que mais queria ver, porque tinha visto OCULTAN pela última vez há mais de 10 anos, ainda com o vocalista Males.

No palco do OCULTAN, símbolos em pedestais evocavam a presença de elementos notáveis na cultura herética. A morte, o senhor das trevas, o mal, representados ali em metal, e também na tatuagem da guitarrista. Paulo notou tudo isso, dizendo para si mesmo que o que via era bastante complexo. O vocalista "Count Imperium" tinha uma aliança no dedo. Paulo sabia que a guitarrista e ele são casados, o que para ele só acrescenta o teor de lealdade inerente à banda, pois o vocal e a guitarra estão sempre malditamente sincronizados. Por um momento pensou se não devia se casar. O que a cultura fez com o casamento o deixava perplexo, atrelando a especial união entre duas pessoas a princípios defendidos por certas religiões. Paulo não queria fazer parte de nada. Talvez por isso a aliança o incomodou. Atordoado, pensava tudo isso enquanto ouvia atentamente "Morto e enterrado" e "Fúnebre˜, do último álbum, perfeitamente, blasfemicamente, executadas.

Uma música inédita, de álbum a ser lançado em 2014, é anunciada por "Count Imperium", o que agitou particularmente os presentes. O registro vindouro parece bastante promissor, progredindo ecos de álbuns anteriores, com um trabalho de cada instrumento fenomenal. Chega no ápice, próximo do fim da música, tendo realmente causado um certo tipo de entorpecimento em quem prestou a atenção. Só que numa dita cena underground, sempre tem os mal intencionados, que entre a platéia teciam comentários que irritavam Paulo. Alguns diziam que OCULTAN era "estranho", porque eles "tem religião". Outros falavam que a atmosfera da banda era mais intensa no "Lembranças do mal". Mas a grande maioria bateu cabeça nessa faixa do começo ao fim e Paulo era um deles. Paulo ouvia tudo o que diziam no ar pelo local, como um rádio-receptor. Estava vazio e aberto a qualquer frequência.

Todo mundo viu quando Paulo se aproximou do palco, na última faixa executada. Era do "Bellicus Profanus", seu álbum favorito. "For the supreme occult" é ao mesmo tempo atmosférica, árida, seca e ríspida. O olhar de "Count Imperium", com a perna dobrada sobre a caixa de som, fitando nos olhos de cada presente, acrescentava mais intensidade na provocação que a essa música consegue fazer. Paulo teria sua última atitude na cena, iria pedir o "setlist". Falou três vezes para o "Count Imperium" quando ele terminou, pegou a folha de sua mão e foi embora.

No quarto em que tinha passado o dia, deitado no chão gelado, havia bebido praticamente uma garrafa de uísque sozinho. Ouvia OCULTAN e AMAZARAK, esperando a hora de ir para o show. Não sabe como, acordou nesse mesmo chão, com um papel do lado, o "setlist" do OCULTAN. Escreveu mais uma resenha de show e foi caminhar na rua de madrugada.

Setlist OCULTAN

Unguia Unketa
Morto e enterrado
Fúnebre
O Orgulhoso Exu
Fuck your religion
The Essence of the Oppose
O Caixão
Shadows from Beyond
O Triunfo da escuridão
For the supreme occult

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Sobre Miguel Júnior

Paulistano, não tem banda porque não sabe tocar, exceto tirar trechos de black metal no violão. Escreve basicamente resenhas de shows que assiste, e deve ter uns 50 ingressos de show já assistidos guardados. Ouve metal mais pelo som, permitindo-se ouvir bandas cuja ideologia não inteiramente concorde. Quer escrever sobre todos os shows extremos e sinceros que acontecem em São Paulo.

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